Big techs aceleram a radicalização intoxicando a fantasia e a imaginação, diz Letícia Cesarino
É comum que se diga que o Discord e outras plataformas não são mais que ferramentas tecnológicas, como um carro: se um motorista matar alguém atropelado, a culpa é de quem dirige, não do veículo, que não passaria de um meio de transporte. Leia mais (10/03/2026 - 07h00)

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Doutor em geografia pela Unicamp, é repórter da Ilustríssima

É comum que se diga que o Discord e outras plataformas não são mais que ferramentas tecnológicas, como um carro: se um motorista matar alguém atropelado, a culpa é de quem dirige, não do veículo, que não passaria de um meio de transporte.
Para a antropóloga Letícia Cesarino, essa comparação é absurda. O que as big techs oferecem, ela diz, são ambientes, cada vez mais tóxicos, que moldam formas de socialização e identidades —e nesses espaços, crianças e adolescentes, particularmente vulneráveis, estão sendo seduzidos pelo extremismo.
Em " Ecologias de Crise " (Ubu), a autora investiga como as plataformas digitais impulsionam espirais de radicalização. O livro discute o papel delas desde o recrutamento de novos membros por comunidades extremistas, em que a perspectiva de acolhimento e o sentimento de excitação são fundamentais, até a realização de atos de violência .

A ideia de ecologia de crise se inspira na obra do antropólogo britânico Gregory Bateson (1904-1980), um dos grandes nomes da teoria cibernética, e concebe o extremismo como uma teia de que participam o modelo de negócio das big techs, o funcionamento dos algoritmos e as trajetórias individuais das pessoas que se radicalizam.
Neste episódio, a pesquisadora explica o que a internet plataformizada contemporânea tem a ver com a ascensão de um extremismo que não quer mais implodir uma sociedade vista como degenerada para criar outra das suas cinzas: em muitos casos, o horizonte é só acelerar o fim e produzir ruínas —um cenário de violência pela violência.
Existe a espiral de radicalização —o modo como os algoritmos e os ambientes digitais participam, moldam e aceleram o que era a radicalização no mundo pré-digital— e essa última inflexão, que seria uma dobra ou uma extremização da própria espiral. Não tem ideologia nem uma visão de um pós-colapso, como se você ficasse só com o niilismo e a violência. Isso vai mudando o próprio modus operandi do extremismo: por exemplo, você não vai mais realizar o ataque espetacular no local público. No caso das panelas, essa violência extrema ocorre no privado: você não vai torturar ou matar a pessoa no cara a cara, você vai induzi-la a cometer violência contra ela mesma. Esse mediador da câmera, do filme e da imagem —e por isso o Discord ficou muito no olho do furacão, porque é a plataforma onde essas transmissões ao vivo aconteciam— veio a substituir o que antes era o padrão do massacre espetacular

professora da Universidade Federal de Santa Catarina e autora de 'Ecologias de Crise'
Cesarino é professora do Departamento de Antropologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e foi assessora do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em 2023 e 2024. Em 2022, publicou " O Mundo do Avesso ".
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O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.
Já participaram do Ilustríssima Conversa André Singer , cientista político e autor de livro sobre as contradições da coalizão de Lula, Renato Meirelles , pesquisador da classe C, a historiadora Anita Prestes , filha do líder comunista e de Olga Benário, Ronaldo Lemos , que reflete sobre meios para se proteger da tecnologia, Dora Kaufman e Giselle Beiguelman , autoras de obra sobre criatividade e inteligência artificial, Djamila Ribeiro , que relançou "Lugar de Fala", Jairo Nicolau , cientista político que investiga as transformações do eleitorado brasileiro, Paula Sibilia , ensaísta que discute o solo moral das sociedades contemporâneas, Adriana Negreiros , biógrafa de Dercy Gonçalves, Benjamin Moser , autor de livro sobre os grandes pintores holandeses, entre outros convidados.
A lista completa de episódios está disponível no índice do podcast .
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/10/big-techs-aceleram-a-radicalizacao-intoxicando-a-fantasia-e-a-imaginacao-diz-leticia-cesarino.shtml.

Esta é a antropóloga Letícia Cesarino — Foto: Folha de S.Paulo
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