Política

    Bets avançam entre jovens e aumentam risco de dependência

    Pesquisa mostra que 9,5% dos estudantes entrevistados fizeram a 1ª aposta aos 11 anos; especialistas alertam para fácil acesso

    Poder360
    19 de setembro de 2026 às 22:03
    Bets avançam entre jovens e aumentam risco de dependência
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    Pesquisa mostra que 9,5% dos estudantes entrevistados fizeram a 1ª aposta aos 11 anos; especialistas alertam para fácil acesso

    Cada vez mais jovens têm buscado ajuda para largar a dependência de bets, avalia Luiz Carlos*, integrante de um grupo de apoio para pessoas com problemas de jogo, a irmandade Jogadores Anônimos . Segundo ele, já é comum encontrar adolescentes na faixa de 14 anos procurando ajuda para conter o vício.

    “Hoje, quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos” , conta ele.

    Na imagem, adolescente usa celular; grupo de apoio relata receber jovens de 14 anos em busca de ajuda para abandonar as apostas
    Na imagem, adolescente usa celular; grupo de apoio relata receber jovens de 14 anos em busca de ajuda para abandonar as apostas — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    O jovem Gustavo Pereira é um dos que enfrentaram graves problemas financeiros e de saúde mental por causa da compulsão por bets. Atualmente com 24 anos de idade, ele começou a fazer apostas on-line aos 18 anos. Em 6 anos, chegou a perder R$ 500 mil por causa do vício.

    “Ganhava muito bem na época, já fiz R$ 10.000 virarem R$ 300 mil, já fiz bancas inimagináveis, fiz R$ 10.000 virarem R$ 200 mil, R$ 240 mil, e perdi tudo. Então o dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro, na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância” , diz o jovem.

    Gustavo conta que está há cerca de 2 meses sem apostar e tenta recomeçar a vida vendendo café nas ruas de Lages (SC). Ele mantém um perfil no Instagram onde posta conteúdos sobre seu trabalho e sobre como faz para superar o vício e evitar recaídas.

    Adolescente usando celular
    Adolescente usando celular — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    “Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes 6 anos, eu enfrentei muitas coisas, mudei com a depressão, uma síndrome do pânico, e graças a Deus eu me libertei disso. Hoje vendo café na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, à minha fé, me apeguei nas pessoas que amo, consegui superar isso, e hoje meu propósito de vida é ajudar pessoas” , declara.

    Especialistas afirmam que a facilidade de acesso às plataformas de jogos pelo celular amplia a exposição de jovens às bets. Dados do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a infância) mostram que uma em cada 5 pessoas no mundo começa a apostar em jogos on-line até os 11 anos de idade. O número chega a 78% a partir de 12 anos. Os dados, de 2021, continuam atuais.

    É o que indica uma pesquisa deste ano feita no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação. Entre 1.912 estudantes dos ensinos médio e fundamental, 9,5% fizeram a 1ª aposta aos 11 anos.

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    Pesquisa do Ibict (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) mostra que canais voltados ao público infantil exploram a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais.

    A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, diz que o jovem é mais vulnerável a apelos desse tipo porque o cérebro dele ainda está em construção. Enquanto o núcleo ligado à sensação de prazer e à dopamina funciona em ritmo acelerado, as regiões que controlam os impulsos e avaliam riscos só terminam de amadurecer aos 20 e poucos anos.

    “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte” , declara.

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    Luiz Carlos tem 71 anos e lembra que, quando começou a jogar, na década de 1980, não existia celular. Na época, o vício eram as máquinas de videopôquer. “Saía do jogo 4h, 5h da manhã, socando o painel do meu carro, me machucando, chorando, prometendo que nunca mais voltaria, e no outro dia eu estava lá, jogando novamente” , diz

    ”Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso” , declara.

    A dependência de Luiz Carlos é a mesma de quem aposta on-line, como Rogério* (53 anos), Rodrigo* (47) e Carla Xavier* (41), também frequentadores do Jogadores Anônimos.

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    Luiz Carlos está há 15 sem jogar. Carla e Rogério estão há mais de 1 ano longe do vício, enquanto Rodrigo está há 6 meses sem apostar. A abstinência foi conquistada graças aos Jogadores Anônimos.

    Segundo Carla, o grupo tem recebido principalmente pessoas que já perderam tudo por causa de apostas. “ [Elas] já não têm mais onde pedir ajuda. Então já estão desacreditadas da vida, já estão pensando em suicídio, estão devendo para um monte de gente. Essas são as pessoas que procuram o grupo. E, com as apostas on-line, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje” , diz.

    Relatório do Ibict concluiu que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada.

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    São muitos os relatos de quem passou pelo problema, como Rogério, que frequenta a irmandade Jogadores Anônimos. Diz que no começo as apostas pareciam inofensivas –percepção que mudou quando começaram a controlar a vida dele de forma negativa.

    “Começaram a comprometer o meu orçamento, dificultar o pagamento das minhas contas, comecei a comprometer a minha renda” , afirma.

    Segundo o diretor do Ibict, Tiago Braga, as apostas on-line não são um investimento, mas um gasto. O descontrole aumenta o risco.

    “Quanto mais você aposta ou quanto mais você gasta recursos com a aposta, menos você terá recursos para o seu futuro. E isso a gente está falando de questões do cotidiano como aluguel, comida, vestuário, educação” , diz.

    Pesquisa da Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) mostra que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.

    Entre aqueles que já estão no ensino superior, 14% relataram ter atrasado as mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets.

    Para o diretor-geral da Admes, Paulo Chanan, os dados são um alerta importante, mas não se pode generalizar o comportamento dos jovens. O que é possível afirmar, segundo ele, é que, para uma parcela relevante, o dinheiro destinado às apostas interfere diretamente em decisões relacionadas à educação, o que cria uma barreira adicional ao acesso e à permanência no ensino superior.

    A pesquisa mostra ainda que 34% afirmaram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado por causa dos gastos com apostas. Além disso, 33% deixaram de investir em academia ou atividades físicas.

    Segundo Paulo Chanan, as instituições de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento adequado quando necessário, já que o tema passou a fazer parte de uma realidade social que também chega ao ambiente acadêmico.

    O diretor-geral avalia que as instituições não podem ser responsabilizadas sozinhas pelo enfrentamento do problema. Para ele, deve haver uma atuação conjunta que envolva educação, saúde, comportamento, regulação e políticas públicas.

    *Sobrenome omitido a pedido dos entrevistados.

    Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil em 19 de setembro de 2026, às 12h21. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-brasil/bets-avancam-entre-jovens-e-aumentam-risco-de-dependencia/.

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