Bessent e Warsh elevam incerteza sobre juros e inflação nos EUA
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Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris
Kevin Warsh e Scott Bessent ocupam os dois cargos que ancoram a confiança do mercado financeiro global: a presidência do Fed e a Secretaria do Tesouro dos EUA. Dessas duas cadeiras saem sinais que ajudam a determinar o custo do dinheiro no mundo, inclusive no Brasil. Os dois são amigos de longa data, compartilham um mentor, o investidor Stanley Druckenmiller, e se encontram semanalmente para tomar café da manhã.
Recentemente, porém, o que ambos comunicam gera mais dúvida do que segurança e virou preocupação central de agentes econômicos mundo afora. O motivo: duas decisões tomadas quase ao mesmo tempo, em lados opostos de Washington.

A aposta de Bessent - Bessent abriu a semana passada com uma surpresa: anunciou, em 19 de agosto, que o Tesouro dobraria as recompras de títulos de longo prazo, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os juros de dez a 30 anos. O anúncio coincidiu com a dívida federal ultrapassando os US$ 40 trilhões. O efeito inicial durou menos de um dia: o juro de 30 anos caiu, mas já na quinta-feira havia voltado a subir. Bessent disse que as recompras poderiam crescer ainda mais.
O célebre investidor Stanley Druckenmiller chamou a manobra de um erro; outros investidores e economistas também criticaram a iniciativa. Para os críticos, o precedente pesa mais do que o tamanho da operação: o Tesouro tentando influenciar diretamente o preço dos títulos longos, tradicionalmente determinado pelo mercado e afetado pela política monetária do Fed.
O silêncio de Warsh - Warsh assumiu o Fed em 22 de maio prometendo falar menos. Decidiu reduzir o uso de indicações explícitas sobre o rumo da política monetária —o chamado forward guidance— e deixar que o mercado reagisse mais aos dados do que às pistas do banco central. Na entrevista coletiva de 29 de julho, recusou-se a oferecer uma orientação clara sobre o próximo movimento dos juros, enquanto a inflação permanecia acima da meta. Naquela reunião, três dos integrantes do Fomc votaram a favor de uma alta, algo incomum tão cedo no mandato de um novo presidente.

Paul Krugman foi duríssimo em sua avaliação. Em texto publicado em 31 de julho, sob o título The Bond Market Doesn't Like Bullshit , afirmou que a atuação de Warsh na entrevista coletiva havia sido confusa e evasiva e sustentou que o presidente do Fed havia fracassado em oferecer ao mercado a clareza necessária sobre a política monetária.
O Treasury de 30 anos chegou a níveis não vistos desde 2007, pressionado pela incerteza sobre a trajetória dos juros e por preocupações com inflação, déficit e oferta de dívida.
É a combinação das duas decisões, mais do que cada uma isolada, que incomoda os mercados . O Tesouro empurra os juros longos para baixo ao recomprar dívida; o Fed, por ora, mantém os juros de curto prazo sem elevá-los, embora a inflação permaneça acima da meta. E isso preocupa: se os juros permanecerem baixos enquanto a inflação continua elevada, aumenta o risco de que ela se acomode em um patamar mais alto, obrigando o Fed posteriormente a elevar os juros mais do que teria sido necessário para contê-la desde o início, como argumentou Krugman.

Há também um risco estrutural: se o Tesouro passar a intervir sistematicamente para conter a alta dos juros quando a dívida cresce, enfraquece um dos freios de mercado contra o excesso de gastos —o próprio aumento do custo de financiamento. A postura de Warsh perde força justamente porque o Tesouro mexe nos mesmos juros que ele pretende deixar o mercado determinar. Bessent e Warsh são amigos de longa data e compartilham um mentor, Druckenmiller, o que torna essa divergência ainda mais notável. Bessent confirmou, aliás, que os dois se encontram para tomar café da manhã semanalmente.
Riscos e mais riscos - O pano de fundo agrava o quadro: a inflação segue acima da meta de 2% do Fed, com o PCE em 3,7% em julho, enquanto o núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, ficou em 3,3%. O quadro reflete uma combinação de pressões, entre elas tarifas, energia, serviços e do forte investimento em infraestrutura de inteligência artificial. O déficit fiscal deve ficar em 5,8% do PIB em 2026, segundo o Congressional Budget Office, enquanto o gasto anual com juros já supera US$ 1 trilhão.
Warsh chega a Jackson Hole nesse ambiente: no primeiro discurso como presidente do Fed, na sexta (28), terá de responder à pergunta que vem evitando: até onde está disposto a levar os juros? O mercado, que já atribui uma probabilidade relevante a uma alta em setembro, espera algum sinal sobre o próximo passo.

Sou melhor quando vejo a injustiça e posso ir atrás dela: eu vejo aqui e sinto aqui. Eu sabia, mas não tinha estado aqui, não tinha visto as cenas que vi hoje. Saio mais determinado a fazer alguma coisa
à Bloomberg, em Kiev, na segunda-feira (24), depois de visitar vítimas de ataques russos em sua primeira viagem internacional como premiê
Seis meses de guerra entre Estados Unidos e Irã mostraram quem banca o impacto econômico do conflito: não são os americanos. Mercados emergentes da Ásia e consumidores pobres em todo o mundo absorveram o grosso do custo energético, enquanto os EUA ficaram parcialmente blindados. A razão é simples: os americanos já produzem boa parte do petróleo e do gás que consomem, e não têm terminais suficientes para exportar tudo o que extraem. Esse excedente represado dentro do país manteve o preço doméstico baixo mesmo com o mercado internacional em alta. Na Ásia e na Europa, o gás natural liquefeito chegou a custar US$ 20 por milhão de BTU (a unidade padrão para medir energia); nos Estados Unidos , ficou perto de US$ 3.

A explosão nos preços do petróleo que analistas previam, por enquanto, não veio, em boa parte porque a China cortou de 3 a 5 milhões de barris por dia em suas importações marítimas, ajudando a segurar o mercado global, um papel de equilíbrio que Washington sempre associou à própria presença militar. As compras chinesas já começaram a voltar a subir, então esse alívio pode não durar.
A avaliação é de Joseph Majkut, diretor do Programa de Segurança Energética e Mudança Climática do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington), em conversa com o colega Jon Alterman . Para os dois, os países do Golfo já concluíram que a garantia militar americana não é mais suficiente, afinal, a guerra começou sem que fossem consultados, e por isso tentam atrair mais investimento dos EUA para outros setores, como inteligência artificial: quanto mais interesses comerciais americanos existirem na região, maior o incentivo de Washington para protegê-la, sem depender só da aliança militar.
O que monitorar até a próxima quarta-feira (2)

"O Czar em Pessoa: Como Vladimir Putin Nos Enganou a Todos" , de Roman Badanin e Mikhail Rubin (lançamento na França em setembro)
Fruto de mais de duas décadas de apuração pelos jornalistas russos exilados, fundadores do site investigativo Proekt, o livro venceu nesta semana o recém-criado Prix Strasbourg. Baseado em centenas de entrevistas, contrapõe a imagem oficial de Putin, em seu 26º ano no poder, à realidade de casos extraconjugais, nepotismo e ligações com o crime organizado. Publicado na Rússia em 2025, ainda não tem edição em português.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/bessent-e-warsh-elevam-incerteza-sobre-juros-e-inflacao-nos-eua.shtml.

Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, durante entrevista coletiva sobre novas sanções contra o Irã, em Washington - Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters · Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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