Brasil

    Bessent e Warsh elevam incerteza sobre juros e inflação nos EUA

    Críticos veem intervenção indevida do Tesouro no mercado

    UOL
    27 de agosto de 2026 às 21:00
    Bessent e Warsh elevam incerteza sobre juros e inflação nos EUA
    Homem de terno azul fala em púlpito com selo do Departamento do Tesouro dos EUA. Ao fundo, bandeiras americanas e do Departamento do Tesouro. Pessoas com mãos levantadas em primeiro plano. — Foto: UOL

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    Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, durante entrevista coletiva sobre novas sanções contra o Irã, em Washington - Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters · Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters
    Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, durante entrevista coletiva sobre novas sanções contra o Irã, em Washington - Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters · Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

    Kevin Warsh e Scott Bessent ocupam os dois cargos que ancoram a confiança do mercado financeiro global: a presidência do Fed e a Secretaria do Tesouro dos EUA. Dessas duas cadeiras saem sinais que ajudam a determinar o custo do dinheiro no mundo, inclusive no Brasil. Os dois são amigos de longa data, compartilham um mentor, o investidor Stanley Druckenmiller, e se encontram semanalmente para tomar café da manhã.

    Recentemente, porém, o que ambos comunicam gera mais dúvida do que segurança e virou preocupação central de agentes econômicos mundo afora. O motivo: duas decisões tomadas quase ao mesmo tempo, em lados opostos de Washington.

    Donald Trump cumprimenta Kevin Warsh após a posse dele no comando do Fed - Jonathan Ernst - 22.mai.26/Reuters · Jonathan Ernst - 22.mai.26/Reuters
    Donald Trump cumprimenta Kevin Warsh após a posse dele no comando do Fed - Jonathan Ernst - 22.mai.26/Reuters · Jonathan Ernst - 22.mai.26/Reuters — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A aposta de Bessent - Bessent abriu a semana passada com uma surpresa: anunciou, em 19 de agosto, que o Tesouro dobraria as recompras de títulos de longo prazo, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os juros de dez a 30 anos. O anúncio coincidiu com a dívida federal ultrapassando os US$ 40 trilhões. O efeito inicial durou menos de um dia: o juro de 30 anos caiu, mas já na quinta-feira havia voltado a subir. Bessent disse que as recompras poderiam crescer ainda mais.

    O célebre investidor Stanley Druckenmiller chamou a manobra de um erro; outros investidores e economistas também criticaram a iniciativa. Para os críticos, o precedente pesa mais do que o tamanho da operação: o Tesouro tentando influenciar diretamente o preço dos títulos longos, tradicionalmente determinado pelo mercado e afetado pela política monetária do Fed.

    O silêncio de Warsh - Warsh assumiu o Fed em 22 de maio prometendo falar menos. Decidiu reduzir o uso de indicações explícitas sobre o rumo da política monetária —o chamado forward guidance— e deixar que o mercado reagisse mais aos dados do que às pistas do banco central. Na entrevista coletiva de 29 de julho, recusou-se a oferecer uma orientação clara sobre o próximo movimento dos juros, enquanto a inflação permanecia acima da meta. Naquela reunião, três dos integrantes do Fomc votaram a favor de uma alta, algo incomum tão cedo no mandato de um novo presidente.

    O premiê Burnham coloca uma oferenda de flores no túmulo do soldado desconhecido em Hatne, perto de Kiev - Henry Nicholls/AFP · Henry Nicholls/AFP
    O premiê Burnham coloca uma oferenda de flores no túmulo do soldado desconhecido em Hatne, perto de Kiev - Henry Nicholls/AFP · Henry Nicholls/AFP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Paul Krugman foi duríssimo em sua avaliação. Em texto publicado em 31 de julho, sob o título The Bond Market Doesn't Like Bullshit , afirmou que a atuação de Warsh na entrevista coletiva havia sido confusa e evasiva e sustentou que o presidente do Fed havia fracassado em oferecer ao mercado a clareza necessária sobre a política monetária.

    O Treasury de 30 anos chegou a níveis não vistos desde 2007, pressionado pela incerteza sobre a trajetória dos juros e por preocupações com inflação, déficit e oferta de dívida.

    É a combinação das duas decisões, mais do que cada uma isolada, que incomoda os mercados . O Tesouro empurra os juros longos para baixo ao recomprar dívida; o Fed, por ora, mantém os juros de curto prazo sem elevá-los, embora a inflação permaneça acima da meta. E isso preocupa: se os juros permanecerem baixos enquanto a inflação continua elevada, aumenta o risco de que ela se acomode em um patamar mais alto, obrigando o Fed posteriormente a elevar os juros mais do que teria sido necessário para contê-la desde o início, como argumentou Krugman.

    Embarcações trafegam no estreito de Hormuz, perto da praia iraniana de Bandar Abbas - Majid Asgaripour/via REUTERS · Majid Asgaripour/via REUTERS
    Embarcações trafegam no estreito de Hormuz, perto da praia iraniana de Bandar Abbas - Majid Asgaripour/via REUTERS · Majid Asgaripour/via REUTERS — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Há também um risco estrutural: se o Tesouro passar a intervir sistematicamente para conter a alta dos juros quando a dívida cresce, enfraquece um dos freios de mercado contra o excesso de gastos —o próprio aumento do custo de financiamento. A postura de Warsh perde força justamente porque o Tesouro mexe nos mesmos juros que ele pretende deixar o mercado determinar. Bessent e Warsh são amigos de longa data e compartilham um mentor, Druckenmiller, o que torna essa divergência ainda mais notável. Bessent confirmou, aliás, que os dois se encontram para tomar café da manhã semanalmente.

    Riscos e mais riscos - O pano de fundo agrava o quadro: a inflação segue acima da meta de 2% do Fed, com o PCE em 3,7% em julho, enquanto o núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, ficou em 3,3%. O quadro reflete uma combinação de pressões, entre elas tarifas, energia, serviços e do forte investimento em infraestrutura de inteligência artificial. O déficit fiscal deve ficar em 5,8% do PIB em 2026, segundo o Congressional Budget Office, enquanto o gasto anual com juros já supera US$ 1 trilhão.

    Warsh chega a Jackson Hole nesse ambiente: no primeiro discurso como presidente do Fed, na sexta (28), terá de responder à pergunta que vem evitando: até onde está disposto a levar os juros? O mercado, que já atribui uma probabilidade relevante a uma alta em setembro, espera algum sinal sobre o próximo passo.

    Divulgação · Divulgação
    Divulgação · Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Sou melhor quando vejo a injustiça e posso ir atrás dela: eu vejo aqui e sinto aqui. Eu sabia, mas não tinha estado aqui, não tinha visto as cenas que vi hoje. Saio mais determinado a fazer alguma coisa

    à Bloomberg, em Kiev, na segunda-feira (24), depois de visitar vítimas de ataques russos em sua primeira viagem internacional como premiê

    Seis meses de guerra entre Estados Unidos e Irã mostraram quem banca o impacto econômico do conflito: não são os americanos. Mercados emergentes da Ásia e consumidores pobres em todo o mundo absorveram o grosso do custo energético, enquanto os EUA ficaram parcialmente blindados. A razão é simples: os americanos já produzem boa parte do petróleo e do gás que consomem, e não têm terminais suficientes para exportar tudo o que extraem. Esse excedente represado dentro do país manteve o preço doméstico baixo mesmo com o mercado internacional em alta. Na Ásia e na Europa, o gás natural liquefeito chegou a custar US$ 20 por milhão de BTU (a unidade padrão para medir energia); nos Estados Unidos , ficou perto de US$ 3.

    Dois homens de terno azul escuro interagem em ambiente formal com várias bandeiras dos Estados Unidos ao fundo. Um deles, mais velho, toca o ombro do outro, que está à esquerda, próximo a um púlpito com o selo presidencial dos EUA.
    Dois homens de terno azul escuro interagem em ambiente formal com várias bandeiras dos Estados Unidos ao fundo. Um deles, mais velho, toca o ombro do outro, que está à esquerda, próximo a um púlpito com o selo presidencial dos EUA. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A explosão nos preços do petróleo que analistas previam, por enquanto, não veio, em boa parte porque a China cortou de 3 a 5 milhões de barris por dia em suas importações marítimas, ajudando a segurar o mercado global, um papel de equilíbrio que Washington sempre associou à própria presença militar. As compras chinesas já começaram a voltar a subir, então esse alívio pode não durar.

    A avaliação é de Joseph Majkut, diretor do Programa de Segurança Energética e Mudança Climática do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington), em conversa com o colega Jon Alterman . Para os dois, os países do Golfo já concluíram que a garantia militar americana não é mais suficiente, afinal, a guerra começou sem que fossem consultados, e por isso tentam atrair mais investimento dos EUA para outros setores, como inteligência artificial: quanto mais interesses comerciais americanos existirem na região, maior o incentivo de Washington para protegê-la, sem depender só da aliança militar.

    O que monitorar até a próxima quarta-feira (2)

    Homem de terno ajoelhado colocando flores em lápide branca em cemitério militar. Outras pessoas em trajes formais estão ao fundo, com bandeira da Ucrânia hasteada.
    Homem de terno ajoelhado colocando flores em lápide branca em cemitério militar. Outras pessoas em trajes formais estão ao fundo, com bandeira da Ucrânia hasteada. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "O Czar em Pessoa: Como Vladimir Putin Nos Enganou a Todos" , de Roman Badanin e Mikhail Rubin (lançamento na França em setembro)

    Fruto de mais de duas décadas de apuração pelos jornalistas russos exilados, fundadores do site investigativo Proekt, o livro venceu nesta semana o recém-criado Prix Strasbourg. Baseado em centenas de entrevistas, contrapõe a imagem oficial de Putin, em seu 26º ano no poder, à realidade de casos extraconjugais, nepotismo e ligações com o crime organizado. Publicado na Rússia em 2025, ainda não tem edição em português.

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    Cinco navios de diferentes tamanhos estão ancorados ou navegando em mar calmo com leve ondulação. O céu está claro e sem nuvens visíveis, criando um horizonte indistinto entre o mar e o céu.
    Cinco navios de diferentes tamanhos estão ancorados ou navegando em mar calmo com leve ondulação. O céu está claro e sem nuvens visíveis, criando um horizonte indistinto entre o mar e o céu. — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Capa vermelha com escultura verde de Vladimir Putin usando coroa. Texto em russo destaca título e autores.
    Capa vermelha com escultura verde de Vladimir Putin usando coroa. Texto em russo destaca título e autores. — Foto: UOL · Fonte: UOL
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    Foto: UOL · Fonte: UOL
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/bessent-e-warsh-elevam-incerteza-sobre-juros-e-inflacao-nos-eua.shtml.

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    Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, durante entrevista coletiva sobre novas sanções contra o Irã, em Washington - Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters · Evelyn Hockstein - 24.ago.26/Reuters — Foto: UOL

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