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    Bate-boca entre Brasil e Argentina expõe disputas que vão além do futebol

    O acirramento dos ânimos entre a Argentina e o Brasil é coisa de anteontem. Não há nada de novo sob o sol da diplomacia sul-americana -muito menos com Javier Milei e Lula . Pelo contrário. A rivalidade entre as duas maiores potências do Cone Sul é antiga e profunda. Ela nada tem a ver com o apaixonado futebol das arquibancadas, mas sim com as placas tectônicas da política e da geopolítica atual, que mesclam a diplomacia e despautérios. Leia mais (08/12/2026 - 17h45)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 20:45
    Bate-boca entre Brasil e Argentina expõe disputas que vão além do futebol
    Homem de terno preto e gravata azul levanta a mão direita em gesto de cumprimento diante de público. Ao fundo, tela azul exibe logo do PL e texto 'Convenção Nacional'. Pessoas na plateia registram o momento com celulares. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, é autor de "Carolina, uma Biografia" e do romance "Toda Fúria"

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    O presidente da Argentina, Javier Milei, durante convenção do PL, em São Paulo - Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress · Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress
    O presidente da Argentina, Javier Milei, durante convenção do PL, em São Paulo - Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress · Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O acirramento dos ânimos entre a Argentina e o Brasil é coisa de anteontem. Não há nada de novo sob o sol da diplomacia sul-americana —muito menos com Javier Milei e Lula . Pelo contrário. A rivalidade entre as duas maiores potências do Cone Sul é antiga e profunda. Ela nada tem a ver com o apaixonado futebol das arquibancadas, mas sim com as placas tectônicas da política e da geopolítica atual, que mesclam a diplomacia e despautérios.

    Há mais de cem anos, o barão do Rio Branco alertava para esse fenômeno usando as páginas da imprensa brasileira. O chanceler mirava a retórica inflamada do seu arqui-inimigo e homólogo argentino, Estanislao Zeballos, que tentava inflamar a opinião pública de Buenos Aires contra o Brasil, tendo como pano de fundo uma suposta crise naval.

    Escreveu o experiente barão: "Há um esforço na República Argentina para que a campanha, que há muito tempo se faz contra o Brasil, se transforme em agitação. Para isso, um homem político se arroga o papel de representante de uma velha sobrevivência, como é o preconceito dos ódios castelhanos e portugueses transportados para a América do Sul , e espalha o pânico de uma pátria em perigo."

    Veja fotos da visita de Javier Milei a Tarcísio de Freitas (Republicanos)
    Veja fotos da visita de Javier Milei a Tarcísio de Freitas (Republicanos) — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Rio Branco demonstrava ceticismo sobre a adesão popular àquela gritaria, exatamente como percebemos hoje, mas temia o barulho dos conservadores mais reacionários, o que hoje chamaríamos de extrema direita.

    "Não sabemos até que ponto as suas palavras são acreditadas pela maioria dos seus compatriotas, mas os seus adeptos, por diminutos que sejam, formam ainda assim a minoria que se move irrequieta por entre a massa da população argentina, criando sobretudo uma situação interna que é tempo de acabar", escreveu.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mais adiante, no mesmo artigo, o patrono da nossa diplomacia, então ministro das Relações Exteriores, parece antecipar em um século o estilo arrivista de Javier Milei. Com franqueza e acerto cirúrgico, disparou: "Um povo é como uma criança, não pode permanecer sob a impressão de um espantalho. O desvario sobrevém fatalmente. Em toda esta comédia, que um pouco mais de loucura pode mudar para tragédia, é singular a disposição dos espíritos brasileiros, calmos, indiferentes, quase risonhos, ante tanta fúria belicosa. Aqui não há atmosfera de guerra."

    Cem anos depois, as velhas assimetrias se apresentam com nova roupagem —e arroubos também. O que antes tramitava por correspondências diplomáticas e artigos anônimos na imprensa escrita, em ambos os países, hoje ganha tração instantânea em postagens inflamadas no X (antigo Twitter) e lives de internet. O alvo preferencial da retórica da Casa Rosada mudou de figura, mas a lógica do "espantalho" externo para consumo interno permanece rigorosamente a mesma.

    A história mostra que governantes passam, enquanto as velhas retóricas se desfazem, mas a geografia e a interdependência econômica das nações continuam onde sempre estiveram. Diante da fúria belicista das redes, o pragmatismo e a paciência histórica —algo que até agora mostramos ter de sobra— continuam sendo as melhores armas do nosso bravo Itamaraty .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2026/08/bate-boca-entre-brasil-e-argentina-expoe-disputas-que-vao-alem-do-futebol.shtml.

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    O presidente da Argentina, Javier Milei, durante convenção do PL, em São Paulo - Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress · Felipe Iruatã - 25.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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