Autores e editoras trocam acusações sobre pagamento de US$ 1,5 bi da Anthropic
A soma é gigantesca: US$ 1,5 bilhão (R$ 7,68 milhões). Mas, enquanto milhares de autores aguardam sua parte no maior acordo de direitos autorais da história dos Estados Unidos, firmado com a Anthropic -big tech que usou livros pirateados para treinar seu chatbot de inteligência artificial-, alguns acusam as editoras de suas obras de tentar lhes tirar uma porcentagem do pagamento.

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A soma é gigantesca: US$ 1,5 bilhão (R$ 7,68 milhões). Mas, enquanto milhares de autores aguardam sua parte no maior acordo de direitos autorais da história dos Estados Unidos, firmado com a Anthropic —big tech que usou livros pirateados para treinar seu chatbot de inteligência artificial—, alguns acusam as editoras de suas obras de tentar lhes tirar uma porcentagem do pagamento.

A disputa vem ganhando visibilidade à medida que a administradora do acordo tenta esclarecer quem detém os direitos sobre alguns dos mais de 482 mil livros envolvidos no acordo da ação coletiva, aprovado em julho por um juiz do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia.
No caso de muitos desses títulos, a titularidade é incontroversa. Em diversas ocasiões, porém, autores e editoras apresentaram reivindicações conflitantes à administradora do acordo, que começou recentemente a notificá-los sobre essas divergências, afirmou Mary Rasenberger, CEO da Authors Guild, associação profissional que afirma ter mais de 18 mil membros.
Rasenberger comentou que o processo do acordo era propício a esse tipo de mal-entendido. "Meu grande receio, quando tudo isso foi estruturado, era que nem todas as editoras manteriam bons registros dos livros cujos direitos devolveram aos autores", disse Rasenberger. "E, portanto, elas deveriam retirá-los de seus catálogos".

Rasenberger declarou não acreditar que as editoras estejam agindo de má-fé. "Não vejo isso como uma tentativa das editoras de abocanhar o dinheiro...Não acho que estejam tentando deliberadamente prejudicar nenhum autor", avaliou.
Os autores poderão receber até US$ 3.000 (R$ 15,35 mil) por livro que, segundo decisão de um juiz no ano passado, foram baixados e armazenados ilegalmente pela Anthropic durante o desenvolvimento de seu chatbot Claude.
No entanto, segundo a Authors Guild, eles terão de dividir os valores com as editoras às quais concederam os direitos dos livros e com coautores.

Rasenberger afirmou que os percentuais foram definidos por um conselho da ação coletiva, que consultou a associação e as editoras.
Autores de livros didáticos receberão muito menos —em alguns casos, de 10% a 15% do total—, conforme determinado pelos contratos firmados com suas editoras, afirmou. "É entre os autores de livros didáticos que há muita insatisfação neste momento", ressaltou Rasenberger.
April Henry, autora de mais de 30 romances policiais e thrillers para adolescentes e adultos que figuraram na lista de mais vendidos do The New York Times, disse ter ficado perplexa ao acessar o portal de reivindicações do acordo e ver que a HarperCollins, sua antiga editora, havia reivindicado a titularidade parcial de seu primeiro livro: "Circles of Confusion".
Henry, de 67 anos, afirmou em entrevista na semana passada que os direitos do livro, publicado em 1999, haviam sido devolvidos a ela em 2007. "Pensei: bem, isso não está certo", dizzsse Henry, reiterando uma reclamação que havia publicado nas redes sociais na quarta-feira (2).
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Seu agente encaminhou uma carta confirmando que ela detinha os direitos do livro, documento que Henry disse ter enviado ao portal. Ao consultá-lo novamente, afirmou, soube que receberia os US$ 3.000 integrais referentes àquela obra. "Não acho que a Harper estivesse tentando trapacear de propósito", comentou.
Henry afirmou que 22 de seus títulos estão na lista de livros obtidos ilegalmente pela Anthropic e que esperava receber algo em torno de US$ 25 mil (R$ 127,93 mil) depois que suas editoras e seus coautores ficassem com suas respectivas partes.
Ter de dividir parte do acordo com uma editora frustrou Henry, que afirmou ter sido informada inicialmente de que os pagamentos poderiam começar em agosto, para depois ouvir que talvez só fossem feitos no fim deste ano.
A autora Amy Lupold Bair, que escreveu guias sobre blogs e sobre como as famílias podem lidar com o mundo digital, desabafou nas redes sociais sobre a possível redução de sua parte no acordo.
"Minha editora está contestando a divisão padrão de 50% para cada parte no pagamento do acordo da ação coletiva contra a Anthropic", escreveu ela no Threads. "Eles querem que eu, a autora cuja obra inteira foi roubada, receba apenas 10%". Sua publicação, que não identificava a editora, recebeu mais de mil curtidas e deu início a uma longa discussão sobre o processo do acordo.
A John Wiley & Sons Inc., indicada em seu site como editora de dois de seus livros ("Raising Digital Families for Dummies" e "Blogging for Dummies"), não respondeu se estava reivindicando uma fatia de 90%.
Em comunicado divulgado na sexta-feira, um representante da empresa afirmou que ela seguiu os termos do acordo ao apresentar reivindicações referentes a "todas as obras publicadas pela Wiley" abrangidas pelo acordo com a Anthropic.
A Association of American Publishers, entidade que representa a maioria das grandes editoras dos Estados Unidos e reúne centenas de membros, não se manifestou de imediato na sexta-feira.
Em 2024, um grupo de autores moveu uma ação coletiva contra a Anthropic após descobrir que a empresa, em busca das enormes quantidades de texto digital necessárias para treinar tecnologias de IA, havia usado suas obras sem pagar por elas e acumulado milhões de livros pirateados.
A Anthropic optou por fazer um acordo depois que um juiz abriu caminho para que o caso fosse a julgamento, ao concluir que o roubo dos livros pela empresa dava aos autores fundamento para processá-la.
Ao mesmo tempo, o juiz afirmou que o treinamento do chatbot da empresa com livros adquiridos legalmente constituía "uso justo".
A Anthropic remeteu a um comunicado feito em maio por Aparna Sridhar, vice-diretora jurídica da empresa, quando o acordo passava pela aprovação final.
"Estamos satisfeitos com o fato de que mais de 91% dos autores e editores abrangidos pelo acordo reivindicaram sua parte do pagamento e esperamos encerrar esta questão em breve", dizia o comunicado.
A JND Legal Administration, administradora do acordo, não respondeu de imediato aos pedidos de comentário feitos na quinta-feira (3). Um advogado dos autores da ação tampouco se manifestou.
Kristelia García, professora da Faculdade de Direito de Georgetown especializada em direitos autorais, disse que a dinâmica da divisão dos recursos do acordo com a Anthropic lembrava uma ação federal de 2007 sobre a distribuição de royalties digitais das músicas do rapper Eminem.
Produtores que descobriram Eminem processaram uma subsidiária do Universal Music, argumentando que deveriam receber uma porcentagem maior dos royalties provenientes de downloads no iTunes e em outras lojas digitais.
As duas partes chegaram a um acordo em 2012.
Nem todos os contratos editoriais contêm cláusulas que definem quem tem direito a pagamentos de acordos em casos de violação de direitos autorais ou a receitas provenientes de tecnologias emergentes, entre elas a IA, disse García.
"Portanto, acho que este é, de certa forma, o momento do streaming para o setor editorial, em que os contratos não previam algo assim", afirmou.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/autores-e-editoras-trocam-acusacoes-sobre-pagamento-de-us-15-bi-da-anthropic.shtml.

Livros em estante de livraria - Hu Chenhuan/Xinhua · Hu Chenhuan/Xinhua — Foto: UOL
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