Australiana Viridis avança em projeto para extrair terras raras em MG, mas enfrenta resistência de moradores
A mineradora australiana Viridis está iniciando as encomendas de equipamentos para sua operação de extração de terras raras em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, apesar de protestos de moradores da região contra o projeto. Leia mais (10/14/2026 - 23h00)

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São Paulo A mineradora australiana Viridis está iniciando as encomendas de equipamentos para sua operação de extração de terras raras em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, apesar de protestos de moradores da região contra o projeto.

Com investimento de US$ 450 milhões (cerca de R$ 2 bilhões), a companhia quer se posicionar como uma das primeiras companhias a ter um projeto robusto de terras raras no Brasil. A empresa já tem um acordo comercial com a belga Solvay, responsável pelo processo de refino do produto que será retirado pela Viridis na região.
Os elementos de terras raras (como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio) são usados no desenvolvimento de ímãs de alta intensidade, adotados em motores elétricos, geradores eólicos e equipamentos de ressonância magnética.
Esse mercado, hoje, é concentrado na China, mas a tendência é que nos próximos anos haja uma descentralização da produção. No Brasil, por enquanto, há apenas uma operação comercial voltada a terras raras: a Serra Verde, em Minaçu (GO), comprada pela americana USA Rare Earth .

"A gente irá lavrar a argila e remover quimicamente as terras raras na forma de um carbonato. Estamos trazendo uma tecnologia em associação com a Solvay para remover um dos componentes desse carbonato, que é o lantânio, que não tem grande valor. Depois, a unidade da Solvay na França vai processar esse material e abastecer a comunidade europeia", diz à Folha Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis Brasil.
A empresa obteve a licença prévia, que atestou a viabilidade do projeto Colossus, em dezembro de 2025. O projeto foi analisado pela Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) de Minas Gerais. A empresa aguarda um retorno sobre seu pedido de licença de instalação para começar as obras em Poços de Caldas.
Em setembro, o BNDES liberou um financiamento de R$ 77,5 milhões para a Viridis por meio de uma linha de fomento voltada a minerais críticos e estratégicos para a transição energética.

"Esse é um empréstimo para ser aplicado em desenvolvimento industrial, ou seja, nas plantas demonstrativas. Uma delas a gente já construiu por conta. A gente pretende construir mais duas a partir do ano que vem, que é a parte de reciclagem e a parte de separação dos óxidos. É um recurso separado do nosso Capex, que não entrará na construção da mina", afirma Petersen.
Historicamente ligadas a projetos minerários, cidades de Minas Gerais como Poços de Caldas e Serro estão sendo pressionadas por essa nova corrida por minerais estratégicos. Em Poços de Caldas, Caldas e Andradas, municípios vizinhos no sul do estado, há sete projetos voltados à exploração de terras raras que preveem movimentação total de mais de 10 milhões de toneladas de material por ano, além de uma demanda hídrica de cerca de 180 mil metros cúbicos por mês, um volume equivalente ao abastecimento de uma cidade de até 40 mil habitantes.
O projeto Colossus, da Viridis, obteve a Classe 6 no licenciamento ambiental estadual, maior nível em relação ao potencial de impacto ambiental na análise do estado.

Moradores da região onde a Viridis se instalará dizem que a empresa não detalhou o tamanho dos impactos ambientais que a exploração causará. A ideia é que, no futuro, o projeto chegue a 300 metros das casas.
"O projeto tem um ponto crítico que são as residências do conjunto habitacional paralelo à avenida Yolanda e se estende a outro ponto crítico, no Jardim Contorno e Paraíso, uma região que concentra 60 mil pessoas", diz Danielle Vilas Boas, integrante do coletivo Rara é a Vida, criado a partir de uma reunião da Viridis com a comunidade local.
"Quando conversamos com as autoridades, entendemos que essa mineração tão próxima da zona urbana é algo novo no país."

"Quando você tem uma mineração nova num risco de impacto desse, que vai ser produzida numa escala que nunca foi testada nesse país por uma empresa que não tem experiência em mineração de terras raras, isso é um laboratório a céu aberto e a gente é cobaia", diz Vilas Boas.
Questionado, o diretor da Viridis disse que a companhia tem estudado a possibilidade de postergar as escavações mais próximas às casas. "Já fizemos um acordo com a prefeitura para que a gente postergue isso para avaliarmos os impactos. Se for comprovado que realmente incomoda, a gente muda o plano", afirma Petersen.
Sobre a poeira que a operação poderá causar no entorno das atividades, ele diz que a empresa elaborou um programa de mitigação.
"A gente vai ter cercas de árvores que já filtram uma parte dessa poeira, além do uso da água. Vamos trabalhar a úmido para não gerar poeira. O nosso papel é mitigar isso ao máximo. A gente não pode comprometer a saúde da comunidade em absoluto. O licenciamento ambiental considera isso", afirma.
O projeto será instalado numa área de 400 hectares, equivalente a 560 campos de futebol em tamanho oficial. Geólogo com mais de 30 anos de experiência no ramo da mineração, Petersen diz que a extensão não é "nada muito grande" e que não haverá "impacto integral" na área.
"Serão várias cavas pequenas que vão migrando de um local para o outro. Você remove a argila e um ano depois começa a recuperação, fecha elas de novo e começa a replantar", exemplifica.
O projeto irá movimentar cerca de 5 milhões de toneladas de argilas iônicas por ano. Para cada tonelada de argila, a previsão é que sejam retirados de 2 kg a 3 kg de terras raras. "No nosso caso, a gente só remove os elementos de terras raras, que é uma porcentagem muito pequena que está dentro das argilas", diz Petersen.
Uma operação do tipo pode ter vida útil de cerca de 200 anos, estima Petersen. O executivo afirma que o projeto inicial da Viridis visa à exploração por pelo menos 40 anos.
Os diversos coletivos de moradores se mobilizaram e enviaram uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma comitiva interministerial do governo federal esteve na região em junho deste ano para ouvir as comunidades que serão afetadas pelos projetos da Viridis e da Lynas, também de origem australiana.
A visita da comitiva interministerial gerou um relatório de 60 páginas, divulgado em 14 de setembro, que aponta graves riscos socioambientais, como a possibilidade de impactos cumulativos na água, no solo, na biodiversidade e na saúde pública devido à proximidade de novas minas com áreas urbanas e passivos radioativos.
Outros riscos mencionados incluem a exposição das pessoas a elementos radioativos e metais pesados –uma preocupação acentuada pela presença de atividades nucleares na região, como a mina de urânio em descomissionamento da INB em Caldas – e poluição atmosférica e sonora, além de poeira.
Em 16 de setembro, o MPTCU (Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União) pediu que o TCU instaure processo de auditoria operacional nos órgãos e entidades federais envolvidos na autorização, no licenciamento e na fiscalização da atividade, entre eles o Ibama e a ANM (Agência Nacional de Mineração).
Também foi pedido que o TCU esclareça o "estágio atual de cada projeto minerário de terras raras na região, incluindo a estimativa de passivos ambientais, os planos de fechamento de mina e as garantias financeiras constituídas para remediar eventuais danos".
O diretor da mineradora diz que não há possibilidade de contaminação das águas da região por meio do processo de extração de terras raras que será usado pela Viridis. "Quase que 50% do custo da nossa planta é com respeito à recuperação de água, filtragem, recuperação de componentes químicos e qualquer contaminante, e a lavagem da argila para neutralizá-la totalmente quanto a algum contaminante que a gente usou."
"A gente usa sulfato de amônio para extrair as terras raras, que é um dos componentes fertilizantes, mas a gente não volta a argila contaminada com sulfato de amônio. Usamos um processo de três tanques gigantes de lavagem com água nova, que é a água filtrada do sistema, e ela lava argila para não termos esse problema [de contaminação]."
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://c-level.folha.uol.com.br/negocios/2026/10/australiana-viridis-avanca-em-projeto-extrair-terras-raras-em-mg-mas-enfrenta-resistencia-de-moradores.shtml.

Sete projetos querem explorar terras raras na região na APA da Pedra Branca, que abrange os municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas (MG) - Fernando M. Fernandes · Fernando M. Fernandes — Foto: Folha de S.Paulo
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