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    Augusto Cury: será a vez do outsider terapêutico?

    A sabatina do candidato à Presidência Augusto Cury ( Avante ), na Globo , foi péssima. Parecia evidente que o escritor e psiquiatra não tinha domínio sobre os temas que balizam debates presidenciais: segurança , educação , saúde e economia . Leia mais (09/03/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    3 de setembro de 2026 às 10:00
    Augusto Cury: será a vez do outsider terapêutico?
    Homem de terno escuro e camisa branca sentado à mesa em estúdio com fundo azul que exibe a palavra 'ELEIÇÕES' em letras grandes. Há um copo de água sobre a mesa à sua frente. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    O candidato Augusto Cury (Avante) durante a sabatina no Jornal Nacional, da Globo - Manoella Mello - 29.ago.26/Globo · Manoella Mello - 29.ago.26/Globo
    O candidato Augusto Cury (Avante) durante a sabatina no Jornal Nacional, da Globo - Manoella Mello - 29.ago.26/Globo · Manoella Mello - 29.ago.26/Globo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

    A sabatina do candidato à Presidência Augusto Cury ( Avante ), na Globo , foi péssima. Parecia evidente que o escritor e psiquiatra não tinha domínio sobre os temas que balizam debates presidenciais: segurança , educação , saúde e economia .

    No entanto, esse despreparo técnico parece não fazer diferença para uma parcela expressiva do eleitorado, com destaque para os evangélicos. Como explicar esse aparente paradoxo?

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na abertura de sua entrevista, Cury fez menção a Jesus Cristo, a quem define como "o homem mais inteligente da história". Embora referências a Deus sejam um lugar-comum para políticos em período eleitoral, o caso de Cury revela algo qualitativamente diferente. Sua carreira como escritor e palestrante foi pavimentada sobre as duas linguagens mais influentes da contemporaneidade: a da religião e a da autoajuda, sendo esta última envolta na aura da saúde mental .

    É fato que Cury não possui fluência no jargão técnico da administração pública. Isto ficou demonstrado, de modo quase cômico, na sabatina no Jornal Nacional . Afinal, não será apenas a apresentadora Renata Vasconcellos que não vai esquecer o drone . No entanto, em um cenário de profundo desgaste das instituições políticas, a falta de traquejo no "politiquês" se converte em uma valiosa vantagem eleitoral.

    Há anos Cury se apresenta ao seu público como um "cristão sem fronteiras". Em 2014, a Sociedade Bíblica Ibero-Americana publicou uma tradução da Bíblia King James acompanhada de textos de autoria do escritor.

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    No meio evangélico , as bíblias comentadas são uma tradição de enorme prestígio, geralmente assinadas por pastores de grande projeção. Cury estabeleceu uma ponte direta com os evangélicos ao somar, à sua Bíblia comentada, seis livros dedicados a analisar a mente de Jesus sob a ótica da psicologia e da autoajuda.

    Essa bagagem torna a vinculação de seu nome à Bíblia e à figura de Cristo muito mais orgânica do que a de qualquer outro candidato concorrente. O autor de best-sellers possui uma vantagem estratégica crucial: ele simplesmente dispensa o aval de "megapastores" para ser reconhecido pelos fiéis como um legítimo candidato cristão. Além disso, ao expor frequentemente em suas falas a relação de cumplicidade com a esposa e as três filhas, ele projeta o modelo ideal de família que o eleitorado conservador tanto valoriza.

    Mas seria essa relação orgânica com os evangélicos suficiente para mantê-lo em ritmo de crescimento a ponto de ameaçar a polarização estabelecida entre Lula e o candidato do bolsonarismo?

    A história sugere cautela. Se observarmos as eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização, constatamos que nenhum outsider puro jamais chegou ao Planalto. Fernando Collor (1989) e Jair Bolsonaro (2018) triunfaram vendendo-se sob a narrativa de candidatos antissistema, mas nenhum deles vinha de fora: ambos eram políticos profissionais com sucessivos mandatos nas costas.

    Diante de fenômenos globais como Javier Milei , na Argentina, ou Donald Trump , nos Estados Unidos, não parece impossível que o Brasil siga uma direção semelhante de messianismo antipolítico. No entanto, falta a Augusto Cury a virulência ideológica, o ressentimento e a agressividade verbal que caracterizam essa extrema direita populista internacional.

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    Se o Brasil de fato eleger um outsider em 2026, ele terá uma assinatura essencialmente nacional. Augusto Cury encarna o "homem cordial", descrito por Sérgio Buarque de Holanda , não no sentido ingênuo de polidez, mas daquele que age guiado estritamente pelas rédeas da emoção e do afeto, rejeitando a racionalidade da administração pública.

    Cury projeta um messianismo cordial que é pacificante na estética, mas potencialmente caótico na prática. Pretender governar um Estado complexo e impessoal usando apenas o afeto familiar e a motivação individual é ignorar as engrenagens da política.

    Na democracia real, essa recusa, ainda que cordial, da racionalidade técnica não cura a nação; apenas desorganiza o espaço público, abrindo caminho para mais um salvador da pátria, agora, o outsider terapêutico.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/augusto-cury-sera-a-vez-do-outsider-terapeutico.shtml.

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    O candidato Augusto Cury (Avante) durante a sabatina no Jornal Nacional, da Globo - Manoella Mello - 29.ago.26/Globo · Manoella Mello - 29.ago.26/Globo — Foto: Folha de S.Paulo

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