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    Atrizes pornô, bebês 'reborn' e mulheres nuas no esgoto marcam a Bienal de Veneza

    Uma mulher nua acelera um jet ski, dando cavalos de pau nas ondas de uma piscina montada dentro do pavilhão. No pátio do lado de fora, uma garota pelada, só com um tanque de oxigênio nas costas que a mantém respirando debaixo d'água, nos olha submersa em seu aquário alimentado pelo esgoto de dois banheiros químicos -em uso- nas laterais de sua prisão transparente. Uma outra performer se pendura nua de ponta-cabeça e faz as vezes do badalo de um sino, dando as horas, marcando o tempo, firmando a cadência da marcha rumo ao apocalipse. Leia mais (09/01/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 02:00
    Atrizes pornô, bebês 'reborn' e mulheres nuas no esgoto marcam a Bienal de Veneza
    Foto: Folha de S.Paulo

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    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Nicole Marianna Wytyczak / Divulgação

    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Nicole Marianna Wytyczak / Divulgação · Nicole Marianna Wytyczak /
    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Nicole Marianna Wytyczak / Divulgação · Nicole Marianna Wytyczak / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma mulher nua acelera um jet ski, dando cavalos de pau nas ondas de uma piscina montada dentro do pavilhão. No pátio do lado de fora, uma garota pelada, só com um tanque de oxigênio nas costas que a mantém respirando debaixo d’água, nos olha submersa em seu aquário alimentado pelo esgoto de dois banheiros químicos —em uso— nas laterais de sua prisão transparente. Uma outra performer se pendura nua de ponta-cabeça e faz as vezes do badalo de um sino, dando as horas, marcando o tempo, firmando a cadência da marcha rumo ao apocalipse.

    Mais comentado, amado e odiado dos pavilhões nacionais nesta Bienal de Veneza, na Itália , o espaço da Áustria leva suas mulheres nuas, expostas e despudoradas, a desenhar com o corpo uma alegoria da destruição. Florentina Holzinger, artista radical da performance daquele país, imaginou ali um mundo que afunda nos próprios dejetos, níveis do mar que sobem para nos engolir no lixo —assunto mais candente impossível na cidade flutuante.

    Numa ruptura com a placidez que domina a mostra principal agora em Veneza, a energia crua, escatológica e nervosa da obra de Holzinger, punk na raiz, esfrega na nossa cara aquilo que já sabemos. O mundo não vai bem, e sua performance polêmica, apontada como misógina por alguns críticos, grita em vez de sussurrar.

    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Helena Manhartsberger/Divulgação · Helena Manhartsberger/Divulgação
    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Helena Manhartsberger/Divulgação · Helena Manhartsberger/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesse sentido, não há muita sutileza nas obras dos artistas escalados por seus países com casas nos Giardini e no Arsenale, além de outros endereços da cidade. Não muito longe da Atlântida emporcalhada dos austríacos, o pavilhão da Dinamarca também se ancora às avessas numa potência feminina a desviar o mundo da masculinidade tóxica, os jogos vorazes dos "bromances" da "machosfera".

    Maja Malou Lyse, a artista dinamarquesa, se inspirou nas estranhas competições entre homens que apostam corrida com seus espermogramas, vendo quem seria mais fértil a partir da velocidade dos gametas no exame laboratorial, coisa que surgiu nos antros mais sórdidos das redes sociais.

    Ela transformou então o pavilhão de seu país numa espécie de clínica de fertilidade hi-tech de um lado e pôs atrizes pornô para encenar, num filme projetado na sala ao lado, como seria repovoar o mundo colapsado num desses laboratórios, em que frágeis homens do futuro, exauridos, precisam de seus estímulos visuais para melhorar a potência reprodutiva.

    Veja obras da Bienal de Veneza 2026
    Veja obras da Bienal de Veneza 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É um teatro do absurdo. Belas garotas, ou nem tão belas, mas exageradas e moldadas pelo fetiche de grandes peitos e bundas turbinados pelo silicone, tiram a roupa, brincam umas com as outras, se esfregam nos detalhes do cenário. Na acidez corrosiva do humor, Lyse mostra a que ponto chegamos, a vida besta e estéril que nos aguarda se não houver um necessário desvio de rota.

    Noutra ponta desse espectro de fim de mundo, também dobrando a aposta no kitsch surreal, está o artista japonês Ei Arakawa-Nash.

    Ele encheu o pavilhão de seu país com bonecos que lembram os assustadores bebês "reborn", com o mesmo peso de uma criança real —eles seriam talvez os habitantes desse admirável mundo corroído que os artistas em Veneza agora desenham. A diferença é que eles já nascem tortos —cada um tem como data de nascimento a mesma de alguma tragédia, a de um ataque sofrido ou desferido pelo Japão na Segunda Guerra ou dias que marcaram a luta por direitos queer e reprodutivos no país asiático e todos os seus retrocessos.

    Veja obras do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza 2026
    Veja obras do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    São bebês, mas Ei Arakawa-Nash parece querer mostrar que todos são predestinados desde o berço, tendo lugar e hora de vinda à luz como condições determinantes de uma vida trágica, de morte súbita ou agonias em série.

    Logo ao lado, o iraniano Abbas Akhavan, radicado no Canadá, transformou o pavilhão do país norte-americano numa grande estufa, alterando a temperatura do interior e enchendo de água sua sala maior, agora um tanque onde flutuam vitórias-régias. A planta tropical, frágil demais para sobreviver no norte do planeta, ali floresce à custa de mecanismos artificiais, uma vida delicada que respira por aparelhos.

    É nítida a metáfora. Longe de casa, ou do que entendemos por casa, podemos definhar, mas também agonizamos dentro das próprias fronteiras, caso agora de seu Irã natal, alvo de ataques liderados por Estados Unidos e Israel.

    Pessoa sem camisa submersa em água azul, com as mãos estendidas para frente. A imagem está desfocada, dificultando a identificação de detalhes faciais ou do ambiente.
    Pessoa sem camisa submersa em água azul, com as mãos estendidas para frente. A imagem está desfocada, dificultando a identificação de detalhes faciais ou do ambiente. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No pavilhão britânico, Lubaina Himid dá um verniz ultracolorido ao drama dos deslocamentos forçados. Suas pinturas em grandíssima escala retratam cozinheiros, costureiros, jardineiros e arquitetos em ação, agentes da construção de lares reais ou postiços, permanentes ou passageiros, abrigos de emergência.

    Não são contundentes como pintura nem seduzem pela técnica, mas repisam a mensagem de desespero daqueles que vagam pelo mundo sem destino, aqueles que tiveram suas casas destruídas.

    É claríssimo o eco com o espaço dos alemães. Toda a fachada do pavilhão neoclássico do país, de grande imponência fascista, foi revestida com pequenos azulejos típicos do lado oriental de Berlim na era do muro que cortava a cidade.

    Uma pessoa está pendurada pelas mãos em um sino gigante suspenso por uma corrente acima de um rio. Ao fundo, há uma cidade com construções históricas e uma torre alta, sob céu nublado.
    Uma pessoa está pendurada pelas mãos em um sino gigante suspenso por uma corrente acima de um rio. Ao fundo, há uma cidade com construções históricas e uma torre alta, sob céu nublado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É a réplica exata de um prédio de apartamentos, com suas pichações e tudo, que ao longo das décadas se tornou o endereço tradicional de migrantes na capital alemã, como a artista vietnamita Sung Tieu, autora da obra escalada para representar uma Alemanha hoje polifônica e multicultural, mas que não deixa de ser atravessada por um levante agressivo do neonazismo.

    O polêmico pavilhão da Rússia , autorizada a voltar à maior mostra de arte do mundo, que sofreu sanções financeiras e o repúdio do júri oficial da exposição por esse gesto, sintetiza esse estado de nervos.

    Seus artistas ali, malvistos pelos vizinhos, fizeram uma grande festa, com muita vodca e prosecco, para animar uma exposição anódina também sobre flores que resistem às intempéries. No fundo, eles só queriam deixar claro para o establishment que, com guerra ou sem guerra, eles ainda estão aqui.

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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/atrizes-porno-bebes-reborn-e-mulheres-nuas-no-esgoto-marcam-a-bienal-de-veneza.shtml.

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    'Seaworld Venice', que ocupou o pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza de 2026 - Nicole Marianna Wytyczak / Divulgação · Nicole Marianna Wytyczak / — Foto: Folha de S.Paulo

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