Assim nasce um cometa de curto período
Astrônomos usam telescópios Gemini Norte e James Webb para flagrar transição

Salvador Nogueira fala de onde viemos, onde estamos e para onde vamos
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Em meio ao zoológico de objetos que compõem o Sistema Solar, há aqueles pequenos corpos que habitam as regiões mais distantes e frias, dentre os quais alguns acabam por descer ao setor mais ensolarado e ver seus gelos sublimarem por ação da radiação —são os cometas , que normalmente detectamos quando já estão nesse processo de decomposição gradual, formando uma coma e uma cauda. Agora, um grupo de astrônomos conseguiu flagrar o processo de transformação em seu início, ao observar o objeto conhecido como 450P/Loneos.
Descoberto pelo Observatório Lowell, nos Estados Unidos, em 2004, ele pertence à classe dos centauros — nome dado os objetos que trafegam em meio às órbitas dos planetas gigantes, entre Júpiter e Netuno. Imagina-se que eles tenham origem além de Netuno, vindos do cinturão de Kuiper, e se encontrem entre os planetas após interações gravitacionais próximas.
É um tráfego perigoso —como tentar atravessar uma rodovia—, e muitas vezes esses objetos acabam passando perto dos planetas gigantes. O encontro afeta a órbita de alguns deles a ponto de levá-los às regiões mais internas do sistema. Assim nascem os cometas de curto período, que completam uma volta em torno do Sol em no máximo 20 anos.

O 450P/Loneos está quase lá. Sua órbita tem período de 22 anos e seu periélio (ponto de máxima aproximação do Sol) ocorre a 5,4 unidades astronômicas (UA é a distância Terra-Sol) e foi durante esse período que os astrônomos liderados por Charles Schambeau, da Universidade da Flórida Central, nos EUA, observaram o astro, usando o telescópio Gemini Norte, no Havaí, e o Telescópio Espacial James Webb.
Eles notaram um princípio de atividade cometária no objeto —a formação de uma coma, uma sutil atmosfera causada pela sublimação dos materiais voláteis que compõem a superfície do astro. É uma novidade para o 450P/Loneos. Retrocedendo no tempo para saber onde o centauro esteve nos anos que precederam sua descoberta, os astrônomos constataram que ele passou a 4,6 milhões de km (0,03 UA) de Saturno em 1992, encontro que foi suficiente para baixar seu periélio à posição atual. Ali, ele não está muito distante de onde Júpiter trafega, a 5,2 UA do Sol, e é inevitável que em um ponto futuro os dois astros também façam um encontro, o que pode atirá-lo ainda mais para dentro do sistema, tornando-se efetivamente um cometa de curto período.
Ao estudar e caracterizar sua evolução, os astrônomos poderão pela primeira vez observar o que acontece a um objeto desses durante esse processo de transformação, em que um centauro se converte em um cometa. Eles chegaram a simular a história orbital pregressa do objeto durante os últimos 500 anos e viram que o que está acontecendo com ele agora é mesmo novidade.
As observações da coma do 450P pelo Webb indicam que ela é feita de dióxido de carbono sendo sublimado pela radiação solar. Há decerto muita água no astro, mas ela segue firmemente congelada naquelas condições. Isso deve mudar quando, daqui a alguns séculos ou milênios (um piscar de olhos na astronomia ), o astro se deslocar para regiões ainda mais internas do sistema. E assim nasce um cometa de curto período.
O estudo de Schambeau e seus colegas foi aceito para publicação no periódico Planetary Science Journal.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/blogs/mensageiro-sideral/2026/09/assim-nasce-um-cometa-de-curto-periodo.shtml.

Imagem feita em várias faixas de infravermelho pelo Webb mostra coma e cauda se desenvolvendo no 450P/Loneos - Schambeau et al. · Schambeau et al. — Foto: UOL
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