Brasil

    As vagas de violência e delírio no livro e na série 'Cem Anos de Solidão'

    Muitos anos depois de morto, diante de um pelotão de fuzilamento de críticos de televisão, Gabriel García Márquez haveria de recordar aquela tarde em que seus filhos o levaram para conhecer o gelo do seriado "Cem Anos de Solidão", da Netflix. Leia mais (08/28/2026 - 15h03)

    Folha de S.Paulo
    28 de agosto de 2026 às 18:03
    As vagas de violência e delírio no livro e na série 'Cem Anos de Solidão'
    A ilustração faz, em letra cursiva, uma síntese da árvore genealógica da família Buendia. — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto"

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    Bruna Barros/Folhapress · Bruna Barros/Folhapress
    Bruna Barros/Folhapress · Bruna Barros/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Muitos anos depois de morto, diante de um pelotão de fuzilamento de críticos de televisão, Gabriel García Márquez haveria de recordar aquela tarde em que seus filhos o levaram para conhecer o gelo do seriado "Cem Anos de Solidão", da Netflix.

    O escritor colombiano escreveu 22 roteiros e fundou uma escola de cinema onde deu aulas. Por conhecer milhares de filmes, achava que o livro não deveria chegar às telas: "O romance, à diferença do cinema, dá ao leitor margem para a criação, permite que imagine os personagens, os ambientes e as situações".

    Morreu em 2014, aos 87 anos, depois de quase meio século recusando propostas milionárias para vender os direitos de " Cem Anos de Solidão ". Passaram-se cinco anos e, pronto, seus dois filhos fecharam negócio com a Netflix.

    Veja imagens de 'Cem Anos de Solidão', da Netflix
    Veja imagens de 'Cem Anos de Solidão', da Netflix — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Era razoável torcer o nariz para a série resultante da transação. O romance não precisou da TV para fazer sucesso. Estima-se que tenha vendido 50 milhões de exemplares, em 40 idiomas, desde o lançamento, em 1967. No Brasil, a tradução de Eric Nepomuceno para a Record está na 140ª edição.

    Razoável supor que a corporação tentacular não teria talento para filmar seu aluvião de desvarios: as seis gerações da família Buendía, com nomes que se repetem por um século; 69 personagens, de um padre que levita a um bebê comido por formigas; pragas que levam todos em Macondo a não dormir nunca nem lembrar de nada; a água que ferve sem fogo; o tesouro cujo brilho atravessa o solo; objetos que se movem por conta própria; a chuva que cai por quatro anos, 11 meses e dois dias.

    O último de seus 17 capítulos, cada um com cerca de uma hora, está no ar desde quarta-feira (26) —e o que soava razoável revelou-se puro preconceito. A um custo estimado de US$ 50 milhões, falada em espanhol, gravada na Colômbia com um elenco nativo, a série é suntuosa, lenta, cativante, na contramão do ramerrame televisivo vigente.

    Veja cenas do curta-metragem em que atores latino-americanos leem trechos de 'Cem Anos de Solidão'
    Veja cenas do curta-metragem em que atores latino-americanos leem trechos de 'Cem Anos de Solidão' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não há sentido em comparar o romance ao seriado. São diferentes o formato, a linguagem, a tecnologia, a gente que fez um e outro. E a história mudou. Os anos da Revolução Cubana e da Guerra do Vietnã, das revoltas estudantis e da pílula, dos brucutus cucarachas e guerrilhas castristas, pouco têm a ver com a reação imperial capitaneada por Trump.

    O romance é obra de um homem só. García Márquez retomou e recriou a tradição literária para materializar, no entender do poeta chileno Pablo Neruda, "a maior revelação na língua espanhola desde o ‘Dom Quixote’ de Cervantes".

    O seriado é fruto do trabalho de uma multidão de colombianos. Não tem as chagas do secular subdesenvolvimento latino-americano. Destoa da linha de montagem de mercadorias do streaming. Sua narração é barroca. Usando uma paleta com as cores da alvorada e do crepúsculo, a iluminação cria ambientes diáfanos. Rebela-se contra nossa mesmice continental. Dispõe do crucial: 17 horas para contar a tragédia do incestuoso clã Buendía.

    Romance e série fazem da fictícia Macondo a alegoria de sociedades que, como a paulista e a carioca, no dizer de Lévi-Strauss, vão do viço à decrepitude sem parar no apogeu. Primeiro há a natureza, o rio de "pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos". Como as coisas não tinham nome, era preciso apontá-las com o dedo.

    Logo chega a trupe de ciganos do mago Melquíades, que traz o ímã. Vêm a Bíblia e a igreja, delegados e juízes, conservadores e liberais, a exploração e a luta de classes, libertários que viram caudilhos. Em meio a vagas de violência e delírio, o coronel Aureliano lidera 32 levantes armados e perde todos.

    Chega também a Macondo o imperialismo: a United Fruit Company, empresa americana que geriu repúblicas bananeiras na América Central e no Caribe. Ela sintetiza os ciclos coloniais de produção de matéria prima: pau-brasil, cana-de-açúcar, metais, café, soja, agronegócio.

    O episódio mais marcante é o sexto da segunda temporada, no qual o exército, a serviço da United Fruit, massacra 3.000 trabalhadores, enche um trem com cadáveres e os joga no mar. O episódio, baseado numa carnificina real, inicia a decadência de Macondo.

    A saga é contada por um narrador clássico: onisciente, invisível, com acesso à alma dos personagens. No último capítulo, porém, se descobre que ele é outro, está dentro da trama. A reviravolta, analisada por Mario Vargas Llosa em "História de um Deicídio", não será contada aqui –para evitar o spoiler e incentivar a leitora a ler e assistir a " Cem Anos de Solidão ".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2026/08/as-vagas-de-violencia-e-delirio-de-cem-anos-de-solidao.shtml.

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    Bruna Barros/Folhapress · Bruna Barros/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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