Brasil

    As mãos que sustentam o futuro também tremem

    Toda sociedade sonha com jovens capazes de transformar o futuro . Poucas se perguntam quais condições oferecemos para conseguirem fazê-lo. O talento pode nascer em qualquer lugar, as oportunidades, infelizmente, ainda não. Leia mais (08/20/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    20 de agosto de 2026 às 11:00
    As mãos que sustentam o futuro também tremem
    Foto: Folha de S.Paulo

    Espaço de debate para temas emergentes da agenda socioambiental

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A baiana Mariana Nunes criou a Rede Autoestima-se como maneira de democratizar a saúde mental - Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress · Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress
    A baiana Mariana Nunes criou a Rede Autoestima-se como maneira de democratizar a saúde mental - Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress · Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Fundou a Rede Autoestima-se, um dos destaques da categoria Jovens Transformadores do Prêmio Empreendedor Social 2024

    Toda sociedade sonha com jovens capazes de transformar o futuro . Poucas se perguntam quais condições oferecemos para conseguirem fazê-lo. O talento pode nascer em qualquer lugar, as oportunidades, infelizmente, ainda não.

    Uma jovem de 19 anos de classe média baixa inicia um projeto comunitário para oferecer aulas de vôlei a crianças de 7 a 12 anos em seu bairro. Do outro lado da cidade, um jovem da mesma idade, morador de um bairro nobre, funda sua primeira startup com o apoio do pai, um empresário de alta renda.

    Mariana Nunes lidera a Rede Autoestima-se
    Mariana Nunes lidera a Rede Autoestima-se — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há também outra jovem da mesma faixa etária que trabalhava no comércio em uma pequena cidade do interior do Nordeste. Ela administrava o estoque, atendia a clientes e organizava os funcionários.

    Diante da insegurança provocada pela escassez de oportunidades, encontrou nos concursos públicos uma possibilidade de mobilidade social, mesmo concorrendo a cargos que não correspondiam às suas habilidades nem aos sonhos que acabaram ficando pelo caminho.

    O que diferencia essas trajetórias? Todos possuem potencial de liderança e, de alguma forma, já o exercem na prática. O que os diferencia é o ponto de partida e a quantidade de recursos financeiros, sociais e acadêmicos aos quais cada um teve acesso.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Lideranças não nascem prontas. Elas são construídas, desenvolvidas e sustentadas ao longo da vida.

    De um lado, temos jovens profundamente impulsionados pela tecnologia, cercados pelo discurso da inovação e do impacto social. Do outro, existem inúmeros talentos ainda encobertos pela precarização, desigualdade social e escassez de recursos, agravadas pela falta de prioridade dada ao desenvolvimento dessas lideranças.

    Há também a romantização dos "CEOs de si", em que a precarização é frequentemente apresentada como empreendedorismo e a sobrevivência passa a ser confundida com liberdade.

    Segundo estudo do Sebrae sobre empreendedorismo, o Brasil já conta com aproximadamente 4,9 milhões de jovens empreendedores, contingente que cresceu 25% em pouco mais de uma década. Hoje, 93% desses jovens empreendem sozinhos e apenas 7% alcançam a posição de empregadores.

    O preço de liderar ainda jovem é muito alto, pois o custo invisível não está apenas nas horas de trabalho ou nas responsabilidades assumidas precocemente. A solidão, a renúncia ao tempo livre, as noites em claro, a pressão constante por corresponder às expectativas e a sensação de que não há espaço para errar compõem esse custo invisível.

    A solução começa por escutá-los. Começa quando compreendemos que por trás de cada liderança existe alguém que sente medo, cansaço, insegurança e, muitas vezes, solidão.

    Desenvolver uma jovem liderança exige mais do que discursos de incentivo. Exige acolhimento, apoio emocional, oportunidades reais, financiamento, mentorias comprometidas e redes de confiança que permaneçam mesmo quando os holofotes se apagam.

    Cada jovem talento que não encontra condições para se desenvolver representa uma possibilidade de futuro que o país escolheu não construir. Quantas lideranças o Brasil nunca chegou a conhecer porque lhes faltaram oportunidades?

    Escrevo esta reflexão não apenas como uma jovem líder, mas como alguém que acompanha diariamente outras jovens lideranças brasileiras na Rede Autoestima-se e conhece de perto o custo invisível de continuar acreditando.

    As mãos que hoje tremem, os olhos que lacrimejam e o coração que bate de medo podem seguir com tranquilidade se aquilo que lhes falta for suprido. Ainda há tempo de construir um país onde jovens não precisem escolher entre sobreviver e sonhar, entre liderar e adoecer, entre transformar o mundo e desistir de si.

    Porque, toda vez que uma liderança encontra as condições para prosperar, não é apenas uma história individual que muda. É um país que escolhe investir no próprio futuro.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/08/as-maos-que-sustentam-o-futuro-tambem-tremem.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    A baiana Mariana Nunes criou a Rede Autoestima-se como maneira de democratizar a saúde mental - Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress · Renato Stockler - 13.set.2024/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)