As hipóteses da menopausa
A menopausa permanece como um verdadeiro quebra-cabeça para a biologia evolutiva. À primeira vista, ela parece contradizer um dos princípios centrais da seleção natural: se a evolução favorece indivíduos que deixam mais descendentes, por que uma fêmea sobreviveria por décadas depois de perder completamente sua capacidade reprodutiva? Leia mais (09/30/2026 - 10h00)

O que pensam os jovens cientistas no Brasil? Por Instituto Serrapilheira
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Doutora em ciências morfológicas e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
A menopausa permanece como um verdadeiro quebra-cabeça para a biologia evolutiva. À primeira vista, ela parece contradizer um dos princípios centrais da seleção natural: se a evolução favorece indivíduos que deixam mais descendentes, por que uma fêmea sobreviveria por décadas depois de perder completamente sua capacidade reprodutiva?
Durante muito tempo, acreditou-se que a menopausa fosse exclusiva da espécie humana e que os anos vividos após o fim da fertilidade se devessem aos avanços da ciência e da medicina . Essa interpretação sustentava a chamada hipótese da longevidade, com uma explicação lógica: as mulheres nascem com um estoque limitado de gametas, a serem ovulados com o passar dos anos. Com o prolongamento da vida, essa reserva se esgota, restando um período pós-reprodutivo.

A hipótese da longevidade foi posta em xeque quando se soube que cetáceos, como orcas, belugas e baleias-piloto, também passam por uma longa fase pós-reprodutiva. Em 2023, outro achado surpreendeu os cientistas : as fêmeas de chimpanzés na floresta de Ngogo, em Uganda, vivem cerca de 15 anos após o fim da fertilidade e apresentam alterações hormonais compatíveis com a menopausa.
Orcas e baleias-piloto vivem em grupos familiares muito estáveis, nos quais as fêmeas permanecem ao lado de seus parentes durante toda a vida. As matriarcas lideram deslocamentos, conhecem áreas de alimentação utilizadas por décadas e aumentam as chances de sobrevivência de seus descendentes. Esses achados ajudam a sustentar a hipótese das avós, segundo a qual as fêmeas mais velhas, que não se reproduzem, investem sua energia cuidando dos filhos e netos, aumentando a sobrevivência dos descendentes que já carregam seus genes.
Contudo, a hipótese das avós não é aplicável às comunidades de chimpanzés de Ngogo, nas quais as fêmeas idosas vivem afastadas de suas filhas, que deixam o bando na juventude. Uma alternativa para explicar esse fenômeno seria a hipótese do conflito reprodutivo: em um ambiente com oportunidades limitadas de reprodução, fêmeas jovens e idosas poderiam disputar alimentos e cuidados com os filhotes. Cessar a reprodução mais cedo ajudaria a diminuir a competição entre as gerações.
Mais recentemente, uma pesquisa integrou dados demográficos, anatômicos, morfológicos e ecológicos de várias espécies de cetáceos e constatou que não existe uma hipótese única capaz de explicar todos os achados. A menopausa teria surgido da interação entre vários fatores: a evolução da longevidade nos animais analisados; o estoque limitado de óvulos, que permaneceu igual ao das ancestrais; os riscos crescentes da gravidez em idades avançadas; o longo período de dependência dos filhos; o valor das fêmeas mais velhas em espécies muito sociais, nas quais elas são fontes de cuidado, experiência, liderança e apoio.
Por que a menopausa evoluiu somente em tão poucas espécies de mamíferos? A resposta ainda está sendo construída, mas os resultados atuais indicam que a menopausa não é uma mera falha do nosso envelhecimento. A vida pós-reprodutiva seria uma decorrência da combinação de uma expectativa de vida alongada e um sistema social que se beneficia da importância das fêmeas para além da reprodução.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/ciencia-fundamental/2026/09/as-hipoteses-da-menopausa.shtml.

Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo
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