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    As hipóteses da menopausa

    A menopausa permanece como um verdadeiro quebra-cabeça para a biologia evolutiva. À primeira vista, ela parece contradizer um dos princípios centrais da seleção natural: se a evolução favorece indivíduos que deixam mais descendentes, por que uma fêmea sobreviveria por décadas depois de perder completamente sua capacidade reprodutiva? Leia mais (09/30/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    30 de setembro de 2026 às 13:00
    As hipóteses da menopausa
    Quatro figuras humanas estilizadas nadam em um mar escuro sob um céu claro com um sol vermelho no horizonte. Uma figura está parcialmente fora da água, enquanto as outras três estão submersas, com bolhas ao redor. O estilo é minimalista e a — Foto: Folha de S.Paulo

    O que pensam os jovens cientistas no Brasil? Por Instituto Serrapilheira

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    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira
    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutora em ciências morfológicas e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

    A menopausa permanece como um verdadeiro quebra-cabeça para a biologia evolutiva. À primeira vista, ela parece contradizer um dos princípios centrais da seleção natural: se a evolução favorece indivíduos que deixam mais descendentes, por que uma fêmea sobreviveria por décadas depois de perder completamente sua capacidade reprodutiva?

    Durante muito tempo, acreditou-se que a menopausa fosse exclusiva da espécie humana e que os anos vividos após o fim da fertilidade se devessem aos avanços da ciência e da medicina . Essa interpretação sustentava a chamada hipótese da longevidade, com uma explicação lógica: as mulheres nascem com um estoque limitado de gametas, a serem ovulados com o passar dos anos. Com o prolongamento da vida, essa reserva se esgota, restando um período pós-reprodutivo.

    Mulheres buscam respostas para áreas negligenciadas da ciência feminina
    Mulheres buscam respostas para áreas negligenciadas da ciência feminina — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A hipótese da longevidade foi posta em xeque quando se soube que cetáceos, como orcas, belugas e baleias-piloto, também passam por uma longa fase pós-reprodutiva. Em 2023, outro achado surpreendeu os cientistas : as fêmeas de chimpanzés na floresta de Ngogo, em Uganda, vivem cerca de 15 anos após o fim da fertilidade e apresentam alterações hormonais compatíveis com a menopausa.

    Orcas e baleias-piloto vivem em grupos familiares muito estáveis, nos quais as fêmeas permanecem ao lado de seus parentes durante toda a vida. As matriarcas lideram deslocamentos, conhecem áreas de alimentação utilizadas por décadas e aumentam as chances de sobrevivência de seus descendentes. Esses achados ajudam a sustentar a hipótese das avós, segundo a qual as fêmeas mais velhas, que não se reproduzem, investem sua energia cuidando dos filhos e netos, aumentando a sobrevivência dos descendentes que já carregam seus genes.

    Contudo, a hipótese das avós não é aplicável às comunidades de chimpanzés de Ngogo, nas quais as fêmeas idosas vivem afastadas de suas filhas, que deixam o bando na juventude. Uma alternativa para explicar esse fenômeno seria a hipótese do conflito reprodutivo: em um ambiente com oportunidades limitadas de reprodução, fêmeas jovens e idosas poderiam disputar alimentos e cuidados com os filhotes. Cessar a reprodução mais cedo ajudaria a diminuir a competição entre as gerações.

    Mais recentemente, uma pesquisa integrou dados demográficos, anatômicos, morfológicos e ecológicos de várias espécies de cetáceos e constatou que não existe uma hipótese única capaz de explicar todos os achados. A menopausa teria surgido da interação entre vários fatores: a evolução da longevidade nos animais analisados; o estoque limitado de óvulos, que permaneceu igual ao das ancestrais; os riscos crescentes da gravidez em idades avançadas; o longo período de dependência dos filhos; o valor das fêmeas mais velhas em espécies muito sociais, nas quais elas são fontes de cuidado, experiência, liderança e apoio.

    Por que a menopausa evoluiu somente em tão poucas espécies de mamíferos? A resposta ainda está sendo construída, mas os resultados atuais indicam que a menopausa não é uma mera falha do nosso envelhecimento. A vida pós-reprodutiva seria uma decorrência da combinação de uma expectativa de vida alongada e um sistema social que se beneficia da importância das fêmeas para além da reprodução.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/ciencia-fundamental/2026/09/as-hipoteses-da-menopausa.shtml.

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    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo

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