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    As engrenagens da ordem mundial dos EUA estão se soltando

    Em 16 de agosto, Donald Trump anunciou uma redução significativa nos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul . Em 19 de agosto, anunciou o que, cinco dias depois, viria a ser chamado de " Operação Pária Econômico " contra o Irã , definida como um esforço para "cortar as linhas de sustentação econômica que mantêm o regime iraniano". Em 21 de agosto, as negociações comerciais dos EUA com o Canadá fracassaram, depois que os americanos fizeram novas exigências que limitariam a liberdade canadense de fechar acordos comerciais com outros países e de manter suas regras de proteção à língua

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 14:30
    As engrenagens da ordem mundial dos EUA estão se soltando
    Homem branco de cabelo loiro penteado para trás, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, olhando para o lado direito. — Foto: Folha de S.Paulo

    Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics

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    Trump troca alianças e instituições por pressão econômica e militar em sua política externa - Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP · Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP
    Trump troca alianças e instituições por pressão econômica e militar em sua política externa - Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP · Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 16 de agosto, Donald Trump anunciou uma redução significativa nos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul . Em 19 de agosto, anunciou o que, cinco dias depois, viria a ser chamado de " Operação Pária Econômico " contra o Irã , definida como um esforço para "cortar as linhas de sustentação econômica que mantêm o regime iraniano". Em 21 de agosto, as negociações comerciais dos EUA com o Canadá fracassaram, depois que os americanos fizeram novas exigências que limitariam a liberdade canadense de fechar acordos comerciais com outros países e de manter suas regras de proteção à língua francesa. Em 28 de agosto, Trump anunciou " O maior acordo de petróleo da história mundial! ", que daria aos EUA controle de 55% da produção de uma nova empresa venezuelana destinada a desenvolver 17 campos com um "potencial comprovado" de 65 bilhões de barris.

    É um esforço impressionante em apenas duas semanas. O comportamento, em si, não é surpreendente. Mas ele revela o tipo de mundo em que Trump acredita. É um mundo em que os EUA não têm aliados, mas satélites; um mundo em que os EUA podem fazer o que quiserem, quando quiserem e com quem quiserem; um mundo em que só o poder importa; e, acima de tudo, um mundo em que os EUA acreditam ser os únicos detentores do poder, concentrado nas mãos de um homem que, não por acaso, é um valentão.

    Não foi sempre assim. Em 1969, Dean Acheson, secretário de Estado do presidente Harry S. Truman entre 1949 e 1953, publicou "Presente na Criação: Meus Anos no Departamento de Estado" , livro no qual expôs a lógica da política externa americana no pós-Segunda Guerra Mundial. No prólogo, ele descreve "uma história de grandes concepções, grandes realizações e alguns fracassos... Seu herói é o povo americano, liderado por dois homens de rara qualidade, o presidente Truman e o general Marshall". Em seguida, explica que "a enormidade da tarefa diante de todos eles" era "criar metade de um mundo, uma metade livre", a partir do caos, "sem explodir o mundo inteiro no processo. O que foi feito é realmente impressionante". Sim, foi.

    EUA e Irã retomam ataques após fim de cessar-fogo
    EUA e Irã retomam ataques após fim de cessar-fogo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por causa do que criaram naquele momento, a então sitiada "metade livre" venceu a Guerra Fria, o último dos grandes impérios europeus, a União Soviética, caiu, e boa parte do mundo passou a sonhar com paz e prosperidade. Quando Trump escrever sua autobiografia, espero que a chame de "Presente na destruição". Isso não significa que ele tenha sido pessoalmente responsável pela morte desses sonhos. Mas certamente é o homem que agora está pregando seus caixões.

    Basta considerar as quatro ações que ele tomou nas duas semanas mencionadas brevemente acima. Vivemos em um mundo sem leis e imprevisível. Trump não criou esse mundo. Mas certamente é seu principal agente de transformação. Comecemos pela história das Coreias do Sul e do Norte. A Guerra da Coreia começou quando o Norte invadiu o Sul, em 1950. O conflito deixou, no total, cerca de 5 milhões de mortos. Os próprios EUA perderam 37 mil soldados nos três anos de guerra. O armistício que vigora até hoje —e que não constitui uma verdadeira paz— foi o resultado desse conflito.

    Ao explicar sua decisão de reduzir os exercícios militares , Trump cita sua "relação muito boa com Kim Jong-un ", líder hereditário de um regime comunista. E não se trata de qualquer regime comunista: a Coreia do Norte é o país mais totalitário do mundo. A Coreia do Sul, por outro lado, é resultado de um dos maiores milagres econômicos do mundo e hoje é uma democracia classificada pela Freedom House (Casa da Liberdade) —organização sem fins lucrativos com sede em Washington, D.C., dedicada à defesa e à promoção da democracia. Os exercícios nunca provocaram uma guerra. Mas deixar a Coreia do Sul isolada pode provocá-la.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Passemos agora à guerra comercial contra o Canadá . Isso também é impressionante. Por trás dela estão três crenças tipicamente trumpistas: o Canadá não é um país soberano; superávits comerciais são predatórios; e mudanças constantes nas políticas comerciais não têm custo. O resultado dessas crenças é, inevitavelmente, a desordem. Mas, para Trump, o caos é uma oportunidade, não um problema. Ele gosta disso. Mais uma vez, vale contrastar essa visão com aquilo que Acheson celebrava. As grandes criações da era Truman incluíram o Plano Marshall e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT). Para Trump, porém, essas iniciativas são idealismos ingênuos. A guerra comercial com o Canadá vai funcionar? Não. Ela pode levar a uma guerra entre esses antigos amigos e vizinhos? Quem sabe?

    Há ainda a próxima etapa da guerra contra o Irã . Com as hostilidades recentemente retomadas, voltamos a nos perguntar que novas perturbações virão. Uma coisa é certa: o resultado esteve muito longe daquele prometido quando o conflito começou, em fevereiro. Qualquer reabertura do Estreito de Hormuz é frágil. Também é difícil enxergar um resultado positivo de longo prazo dessa guerra para os EUA ou seus aliados, sejam eles os países do Golfo ou outros. É provável que a "Operação Pária Econômico" faça a diferença? Na minha opinião, não, por três razões: primeiro, o regime iraniano sobreviveu a um longo período de hostilidade e agora a uma guerra; segundo, seus líderes sabem o que provavelmente lhes acontecerá se perderem o poder; e, terceiro, quando cancelou o acordo nuclear de Barack Obama, em 2018, Trump prometeu que seu então novo programa de "pressão máxima" resolveria a questão. Não resolveu. Será que essa nova versão conseguirá mais? Como argumenta Paul Krugman, a China provavelmente garantirá que isso não aconteça.

    Por fim, temos o novo acordo com a Venezuela , uma expressão tão tradicional do colonialismo do século 19 quanto se poderia imaginar. Tenho certeza de que muitos venezuelanos estão satisfeitos com o fato de Nicolás Maduro estar em uma prisão americana . Mas eles provavelmente esperavam a derrubada da ditadura , não um novo senhor colonial com as mãos sobre seu petróleo. Isso sequer funcionará para os EUA? Duvido. Quem poderá garantir a segurança dos novos investidores privados?

    Ao tentar entender a visão de mundo de Trump, é impossível procurar ideias ou princípios. Tampouco se trata de um retorno ao realismo à maneira de Palmerston. O que vemos, na verdade, é a antítese daquilo que foi criado depois da Segunda Guerra Mundial. Estamos todos "presentes na destruição". A desordem de hoje é o presente de Trump para o mundo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2026/09/as-engrenagens-da-ordem-mundial-dos-eua-estao-se-soltando.shtml.

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    Trump troca alianças e instituições por pressão econômica e militar em sua política externa - Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP · Brendan Smialowski - 31.ago.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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