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    As elites hereditárias têm culpa pela desigualdade?

    É tentador procurar os culpados pela desigualdade. Em um país no qual poucos concentram grande parte da riqueza, as elites, especialmente aquelas de riqueza ancestral e de longa linhagem, costumam aparecer como uma das candidatas naturais. Se alguns têm muito e tantos têm tão pouco, parece intuitivo concluir que os primeiros são responsáveis pela situação dos segundos.

    UOL
    10 de agosto de 2026 às 20:00
    As elites hereditárias têm culpa pela desigualdade?
    Fotografia de um senhor branco, calvo, olhando para o alto. Atrás dele, um homem branco de cabelos e barbas escuras olha na mesma direção. Sobre o ombro desse homem, um menino de aproximadamente cinco anos, também branco, com cabelos lisos — Foto: UOL

    Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, doutor em economia pela USP e coordenador no Insper. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia, Stanford e Oxford

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    Três integrantes de uma mesma família
    Três integrantes de uma mesma família — Foto: UOL · Fonte: UOL

    É tentador procurar os culpados pela desigualdade. Em um país no qual poucos concentram grande parte da riqueza, as elites, especialmente aquelas de riqueza ancestral e de longa linhagem, costumam aparecer como uma das candidatas naturais. Se alguns têm muito e tantos têm tão pouco, parece intuitivo concluir que os primeiros são responsáveis pela situação dos segundos.

    Apesar de essa conclusão aquecer muitos corações, ela não leva em consideração nuances relevantes.

    Uma pessoa pode nascer em uma família muito rica, daquelas tradicionalíssimas famílias brasileiras cuja riqueza foi acumulada ao longo de gerações, receber diversas heranças materiais e imateriais e chegar à vida adulta ocupando uma posição extremamente privilegiada sem ter participado da criação das instituições que contribuíram para produzir e preservar essas vantagens.

    Nesse sentido, o pertencimento a uma elite hereditária, por si só, não constitui uma culpa. Ninguém escolhe a família em que nasce. Se isso vale para quem nasce na pobreza, vale também para quem nasce no topo. Ser beneficiário de uma estrutura desigual não significa necessariamente ter sido seu arquiteto.

    Contudo, a discussão fica ainda mais interessante agora.

    Porque reconhecer que os membros das dinastias econômicas não precisam carregar uma culpa individual pela desigualdade não significa absolvê-los de qualquer responsabilidade sobre sua reprodução.

    Sociedades são organizadas por regras. Instituições e processos políticos definem quanto será cobrado em impostos sobre renda e patrimônio, quanto será gasto com os mais desfavorecidos e quais regulações, subsídios, benefícios tributários e prioridades orientarão a atuação do Estado.

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    E sabemos o quanto a influência política é distribuída de maneira desigual.

    Aqueles com riqueza elevada financiam campanhas, controlam empresas, ocupam espaços próximos ao poder e possuem acesso muito maior aos responsáveis por formular políticas públicas. Em democracias, um cidadão e um grande grupo econômico possuem formalmente um voto cada um. Porém, sua capacidade de influenciar decisões públicas dificilmente é equivalente.

    É aqui que a discussão sobre culpa deve dar lugar à discussão sobre responsabilidade.

    Quanto maior a capacidade de um grupo de influenciar as instituições, maior sua responsabilidade sobre as instituições que ajuda a preservar.

    Isso não significa imaginar uma sala fechada na qual as elites decidem produzir desigualdade. A realidade costuma ser menos cinematográfica.

    Boa parte da desigualdade pode ser reproduzida por decisões perfeitamente compreensíveis do ponto de vista individual.

    Uma família rica procura a melhor escola privada para seus filhos. Outra procura aumentar o patrimônio que deixará de herança. Um grupo defende benefícios adquiridos. Outros buscam regras ainda mais favoráveis.

    Separadamente, esses e outros comportamentos são uma busca natural pelo autointeresse. Porém, somados, vários deles produzem uma sociedade na qual vantagens acumuladas em uma geração são fortemente transmitidas para a seguinte.

    O texto dessa coluna representa uma continuação da série baseada no meu novo livro: "Os custos das desigualdades –Uma carta às elites", e uma homenagem à música Good People, de Jack Johnson.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2026/08/as-elites-hereditarias-tem-culpa-pela-desigualdade.shtml.

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    Três integrantes de uma mesma família — Foto: UOL

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