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    As caras impolíticas do poder

    Count Binface ("Conde Cara de Lata de Lixo") é o nome adotado pelo comediante Jon Harvey, candidato ao Parlamento britânico , com ascensão tão meteórica na corrida eleitoral que ameaça a vaga distrital disputada por Nigel Farage , político de destaque da direita. O nome é literal: Harvey catalisa a atenção pública com uma espécie de capacete em forma de lata de lixo, que lhe cobre inteiramente o rosto. Estapafúrdias são também suas propostas: proibir que se coma pipoca nos cinemas, tabelar sorvetes e outras. Leia mais (08/08/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de agosto de 2026 às 16:00
    As caras impolíticas do poder
    Dois homens de terno escuro, um com gravata azul clara e outro com gravata vermelha, posam lado a lado sorrindo e mostrando polegares para cima. Ao fundo, parte de um escudo com cores azul, branco e vermelho é visível. — Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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    Donald Trump e Javier Milei durante a cúpula 'Escudo das Américas', em Miami - Saul Loeb - 7.mar.26/AFP · Saul Loeb - 7.mar.26/AFP
    Donald Trump e Javier Milei durante a cúpula 'Escudo das Américas', em Miami - Saul Loeb - 7.mar.26/AFP · Saul Loeb - 7.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Count Binface ("Conde Cara de Lata de Lixo") é o nome adotado pelo comediante Jon Harvey, candidato ao Parlamento britânico , com ascensão tão meteórica na corrida eleitoral que ameaça a vaga distrital disputada por Nigel Farage , político de destaque da direita. O nome é literal: Harvey catalisa a atenção pública com uma espécie de capacete em forma de lata de lixo, que lhe cobre inteiramente o rosto. Estapafúrdias são também suas propostas: proibir que se coma pipoca nos cinemas, tabelar sorvetes e outras.

    Do outro lado do Atlântico Norte, no Colorado, o pastor pentecostal de direita Victor Marx foi declarado vencedor nas primárias republicanas para o governo do estado. Comoveu seus pares ao revelar que matou uma pessoa pela primeira vez aos sete anos de idade por insistência de um padrasto abusivo e que não tem certeza de quantos assassinou desde então. Desfia relatos de como penetrou em zonas de guerra para resgatar cristãos e de como salvou mulheres e adolescentes do tráfico sexual. Ele se autodefine como um "um alto risco humanitário".

    Guardadas as diferenças de "estilo" (o britânico segue uma tradição satírica; o americano, a da violência armada), essas duas figuras são tecnicamente outsiders da política profissional. Seria temerário, porém, classificá-los como apolíticos, juízo corriqueiro, já que terminam entrando no jogo convencional e, em geral, na lateral direita.

    Quem são os líderes de direita na América do Sul
    Quem são os líderes de direita na América do Sul — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Vale, por isso, trazer à baila o conceito de impolítica, destacado em pensadores italianos contemporâneos como Roberto Esposito e Massimo Cacciari, para designar aquilo que escapa à política como organização do poder . Em "Impolítica", Esposito contrapõe-se à ideia de que ela seja caminho absoluto para a construção de uma sociedade equilibrada, mostrando que há dimensões da vida refratárias à absorção por instituições ou ideologias.

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    Em suma, impolítica não designa nenhuma forma nova de ação política, mas uma perspectiva crítica para o limite de qualquer grande ou pequena política. É que as democracias parlamentares não distinguem, no interior da categoria "povo", indivíduos comuns dos poderosos, pertencentes às frações da classe dominante. Nessa neutralização da diversidade, desaparece a tensão dos interesses distintos, assim como a relevância da política. O que dá lugar ao apoliticismo ou ao "nojo da política", não como falta de convicção em alguma coisa, mas como recusa consciente da representação parlamentar . O abstencionismo do voto é uma das consequências.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Abre-se assim o portão a candidaturas antissistema. Só que isso é pura retórica, uma astúcia do próprio sistema para se perpetuar. O grotesco generalizado em Trump, Milei , Espriella , Bukele e seus acólitos naturaliza-se na vida política em estilos que vão das palhaçadas benignas de um Binface até o medonho autorretrato de Victor Marx.

    E emerge então um efeito colateral da impolítica: o desrespeito ao equilíbrio institucional nos diversos tipos de inter-relação. A prepotência do Departamento de Estado norte-americano na interlocução internacional é marca nefasta da troca de política civilizada por arrogância. Jogada na lata de lixo, a diplomacia dá lugar à grosseria imperial.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/muniz-sodre/2026/08/as-caras-impoliticas-do-poder.shtml.

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    Donald Trump e Javier Milei durante a cúpula 'Escudo das Américas', em Miami - Saul Loeb - 7.mar.26/AFP · Saul Loeb - 7.mar.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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