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    Artistas com deficiência assumem protagonismo em cena no festival Acessa BH

    Enquanto muita gente enxerga nas muletas um sinal de fraqueza e limitação, a bailarina Fernanda Maciel vê nelas um símbolo de beleza e potência. Foi pensando nisso que ela decidiu posicionar esses objetos no centro do palco durante a peça "Entre Ellas", produção da companhia de dança Kinesis e um dos destaques do Festival Acessa BH ?projeto que joga luz sobre trabalhos de artistas com deficiência. Leia mais (09/17/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    17 de setembro de 2026 às 13:00
    Artistas com deficiência assumem protagonismo em cena no festival Acessa BH
    Dois artistas de dança contemporânea performam em palco escuro. Um está sentado em cadeira de rodas, vestindo roupa marrom, enquanto a parceira, com vestido rosa, está ajoelhada no chão com um braço estendido para o lado. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Enquanto muita gente enxerga nas muletas um sinal de fraqueza e limitação, a bailarina Fernanda Maciel vê nelas um símbolo de beleza e potência. Foi pensando nisso que ela decidiu posicionar esses objetos no centro do palco durante a peça "Entre Ellas", produção da companhia de dança Kinesis e um dos destaques do Festival Acessa BH –projeto que joga luz sobre trabalhos de artistas com deficiência.

    Cena da peça 'Nuvem de Pássaros' - Brunno Martins/Divulgação · Brunno Martins/Divulgação
    Cena da peça 'Nuvem de Pássaros' - Brunno Martins/Divulgação · Brunno Martins/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Aos 20 anos, Maciel sofreu uma lesão na medula que fez necessário o uso de muletas para se deslocar. Por meio da gestualidade, o espetáculo narra justamente o processo de se tornar uma pessoa com deficiência.

    Maciel começa a performance se contorcendo sobre o chão em movimentos lentos, como se tentasse expurgar uma dor lancinante. A cena parece uma metáfora para o instante em que a artista se percebeu uma pessoa com deficiência.

    "É um processo doloroso, em que há luto, mas também existe luta. O luto acontece porque é uma coisa que não tem como voltar. Não é algo que se resgata", afirma Maciel. "Já a luta existe para nos reconhecermos do modo como somos e lutarmos para que as pessoas nos aceitem dessa forma."

    Veja imagens de peças do festival Acessa BH
    Veja imagens de peças do festival Acessa BH — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O segundo momento da performance parece evidenciar a transformação da dor em resistência. Nessa hora, Maciel e sua colega de cena, a também bailarina Grazielle Mendes, se entrelaçam a muletas como se os objetos fossem uma extensão delas mesmas.

    "Eu fiz das muletas algo para além de uma tecnologia de apoio para andar. É um elemento que vai se incorporando ao meu próprio corpo e que faz parte da criação da dança."

    A ideia é um desdobramento do conceito de "Mulet(an)dança" que ela desenvolve no doutorado em educação na Universidade Federal de Minas Gerais. "É a ideia de que a intimidade com a muleta nos transforma em um corpo só", diz Maciel, artista que almeja atribuir beleza a um objeto ainda visto de forma negativa.

    Caio Blat durante peça inclusiva no Acessa BH de 2025
    Caio Blat durante peça inclusiva no Acessa BH de 2025 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Assim como a muleta pode ser vista como algo criativo, cênico e artístico, o corpo de uma pessoa com deficiência também o pode. Ele consegue ser belo e ter uma outra estética para ser incorporado à arte."

    Apesar de esforços como esse, a inserção de artistas com deficiência no mercado encontra percalços. De acordo com Maciel, a invisibilização desses profissionais em espetáculos ainda é grande.

    "A cena artística da dança é corponormativa. Você raramente vê ator com uma deficiência presente numa peça de teatro", diz ela, para quem existe um pensamento limitado sobre o trabalho desses profissionais.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Uma dança comigo não vai ter salto e pirueta, mas isso não faz dela uma dança menor, com uma estética que não pode ser fluida e considerada bela."

    Ela acrescenta que outro problema é o chamado "cripface", ou seja, a prática de escalar artistas sem deficiência para papéis em que essa é uma das características do personagem. "Eu realmente não vejo sentido nisso, porque estão tirando oportunidades dos artistas com deficiência."

    Para dar visibilidade ao trabalho desses profissionais, os irmãos Daniel e Lais Vitral idealizaram o festival Acessa BH, há dez anos. A mostra acontece em Belo Horizonte até o dia 27 de setembro, reunindo espetáculos, performances, sessões de cinema e lançamentos de livros.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "A gente teve a ideia de pensar um projeto que fosse não só acessível para o público, mas que trouxesse esse profissional para uma posição de destaque que a gente não está acostumado a ver", diz Lais, que assina a curadoria do Acessa ao lado do irmão.

    "A gente vive num mundo extremamente preconceituoso, onde há esse capacitismo de achar que pessoas com deficiência não são capazes e profissionais."

    Diante desse problema, a produtora cultural considera a arte um instrumento importante de conscientização, com o poder de influenciar as pessoas e trazer temas urgentes para o debate.

    É isso o que faz Benedita Casé na peça "Surda", uma das produções presentes no festival. Sobre o palco, a atriz encena a vida de Júlia Spadaccini, escritora e roteirista que criou o texto do espetáculo usando como base a própria vida.

    Aos 19 anos, ela recebeu o diagnóstico de perda auditiva, episódio que é o fio condutor da peça. Essa história se entrelaça à vivência de Casé, artista que teve perda na audição quando era bebê.

    "O que me tocou muito no texto foi a forma com que a Júlia escreveu. A peça é uma aula sem parecer uma aula. Ela provoca muito, faz o público pensar e refletir", afirma Casé, para quem produções como essa ajudam a desmistificar preconceitos.

    "A arte serve para isso e é uma das coisas mais bonitas do teatro. É fazer com que as pessoas saiam completamente diferentes, pensando na nossa relação com o outro e em como a gente vive."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/artistas-com-deficiencia-assumem-protagonismo-em-cena-no-festival-acessa-bh.shtml.

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