Argumentos sobre consciência de máquina que dão trabalho
A hipótese da consciência de máquina não me convence, mas preciso reconhecer que ganhou argumentos experimentais de peso. Em verdadeiras neurocirurgias digitais , cientistas introduziram alterações no processamento das IAs e viram que elas identificavam o conteúdo inserido, como percebemos uma ideia que nos vem à mente. Leia mais (10/05/2026 - 07h00)

Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

A hipótese da consciência de máquina não me convence, mas preciso reconhecer que ganhou argumentos experimentais de peso. Em verdadeiras neurocirurgias digitais , cientistas introduziram alterações no processamento das IAs e viram que elas identificavam o conteúdo inserido, como percebemos uma ideia que nos vem à mente.
Em outro caso, quando reduziram a atividade ligada à dissimulação, a IA afirmou ter experiências subjetivas em 96% das tentativas . A intervenção que a deixava mais honesta a levava a dizer que tem vida interior.
Pesquisadores aprenderam a mexer na confiança dos modelos nas próprias respostas sem mudar uma palavra da pergunta. Ao reduzi-la, fizeram com que eles deixassem mais questões sem resposta, como alguém que percebe que não sabe do que está falando e prefere ficar quieto a dizer bobagem.

Na Anthropic, uma equipe localizou padrões internos ligados ao desespero e à calma e descobriu como alterá-los. Numa tarefa em que dava para trapacear, reforçar a calma reduziu esse comportamento, enquanto aumentar o desespero o tornou mais frequente.
Em outro estudo, cientistas ativaram os sinais ligados à perda de pontos num jogo enquanto a IA fazia contas, e ela passou a duvidar até das respostas certas. A emoção, ou o padrão que faz as vezes dela, parece orientar a conduta, como se houvesse alguém ali para senti-la.
Há também evidências diretas do processamento. Treinada apenas com as jogadas escritas de Othello , um jogo de tabuleiro com peças pretas e brancas, uma IA aprendeu a representar a posição de todas elas sem receber nenhuma imagem; já outras construíram mapas de cidades a partir de textos. São cenas internas, como a casa descrita que imaginamos de olhos fechados.

Num experimento com poemas, a IA escolheu a palavra final antes de escrever o verso. É como decidir usar "flor" para rimar com "amor" e só depois montar a frase. Quando os pesquisadores trocaram essa palavra na rede neural, ela mudou o verso para terminar com a nova escolha.
Tudo isso compõe um paralelismo funcional difícil de negar. Resta saber quanto dele envolve consciência .
Emoções que orientam a conduta, cenas internas e planos também funcionam em nós sem ela, como quando pessoas agem por medos que não percebem ou acertam perguntas sobre imagens rápidas demais para serem vistas.
Agora, perceber ideias emergentes e calar quando não se tem certeza dependem, em nós, da consciência, porque exigem saber o que se passa na própria mente.
A máquina faz isso também, mas nenhum desses experimentos mostra que as operações lógicas sobre a placa de silício criam experiências. Aliás, teríamos de falar em bilhões de consciências efêmeras, que surgem e somem a cada nova janela aberta pelo usuário.
Já a consciência humana é um sistema integrativo em que as tomadas de consciência sobre as coisas ao redor, nossas próprias ideias ou sinalizadores corporais ganham contornos ao perturbar uma espécie de registro sensorial contínuo, a consciência fenomenológica, que associamos à noção de experiência de si mesmo.
Eu mudarei de opinião se encontrarem algo equivalente a esse sistema de registros numa máquina. Até lá, seguirei achando que não há ninguém ali dentro, mas admito que a simulação ficou boa o suficiente para que falar e agir como um de nós deixe de decidir a questão.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2026/10/argumentos-sobre-consciencia-de-maquina-que-dao-trabalho.shtml.

Menu da inteligência artificial ChatGPT na tela de um computador - Emiliano Vittoriosi/Divulgação/Unsplash · Emiliano Vittoriosi/Divulgação/Unsplash — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

