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    Aracy Amaral, morta aos 96, não se acanhou na busca por grandes temas nas artes plásticas

    "Arte para quê?", Aracy Amaral ousou perguntar logo no título de seu livro sobre o engajamento da arte brasileira com a sociedade, publicado em 1984. É pelo tom de provocação de muitas perguntas, e pela resiliência em perseguir hipóteses para respondê-las, que ela marcou muitos dos caminhos que atravessam a história da arte brasileira. Leia mais (09/15/2026 - 16h10)

    Folha de S.Paulo
    15 de setembro de 2026 às 19:10
    Aracy Amaral, morta aos 96, não se acanhou na busca por grandes temas nas artes plásticas
    Foto: Folha de S.Paulo

    Contextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos

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    Ocupação Aracy Amaral - André Seiti/Itaú Cultural · André Seiti/Itaú Cultural
    Ocupação Aracy Amaral - André Seiti/Itaú Cultural · André Seiti/Itaú Cultural — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Paulo Miyada é diretor artístico do Museu Bernardo Paz e foi curador-adjunto do 34º Panorama do MAM São Paulo, ao lado de Aracy Amaral

    "Arte para quê?", Aracy Amaral ousou perguntar logo no título de seu livro sobre o engajamento da arte brasileira com a sociedade, publicado em 1984. É pelo tom de provocação de muitas perguntas, e pela resiliência em perseguir hipóteses para respondê-las, que ela marcou muitos dos caminhos que atravessam a história da arte brasileira.

    Morta nesta terça-feira (15) aos 96 anos, Amaral reuniu vocação crítica, rigor historiográfico, compromisso institucional e escrita provocativa de uma forma raramente vista no país. Antes mesmo de se graduar em jornalismo pela PUC-SP , ela testemunhou momentos decisivos da formação da cena artística. Visitou os bastidores e fez entrevistas na montagem da primeira Bienal de São Paulo , em 1951, e atuou como monitora educativa na segunda edição do evento.

    Mostra revê Semana de 22 e o modernismo no Brasil
    Mostra revê Semana de 22 e o modernismo no Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao longo dos anos, escreveu críticas sobre todas as bienais paulistanas até a última década, em uma das frentes de sua profícua atuação na imprensa, do suplemento feminino do jornal A Gazeta ao programa de rádio Vamos Falar de Arte?, na Jovem Pan.

    Convidada a fazer a curadoria da Bienal Internacional de São Paulo , preferiu, antes de aceitar o formato herdado, convocar uma reunião de consulta aos críticos de arte da América Latina, em 1980, para que a mostra assumisse de vez um foco latino-americano.

    "Qual deve ser a função da crítica de arte em países que lutam contra o subdesenvolvimento, realidades nas quais a produção artística pode parecer totalmente supérflua diante dos problemas de sobrevivência que nos rodeiam a todos?", perguntava à época. As respostas, dos críticos e da própria direção da Bienal, ficaram aquém do que ela esperava, e Amaral se demitiu. Sua pergunta, entretanto, segue ecoando nas edições recentes da mostra.

    Veja obras do 39º Panorama de Arte Brasileira
    Veja obras do 39º Panorama de Arte Brasileira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A relação multifacetada de Amaral com a Bienal é um de muitos exemplos de como crítica impressa, trabalho nas instituições e investigação historiográfica andaram juntos, entremeados, ao longo da sua vida. Na pesquisa, atuava por mergulhos de fôlego em grandes temas, percorrendo fontes primárias e montando intricados quadros históricos.

    O primeiro desses mergulhos resultou nos livros "As Artes Plásticas na Semana de 22" e "Blaise Cendrars no Brasil e os Modernistas", ambos publicados em 1970. Cinco anos depois, veio "Tarsila: Sua Obra e Seu Tempo" e, em 1981, "A Hispanidade em São Paulo: Da Casa Rural à Capela de Santo Antônio".

    Sua abordagem do modernismo contrapôs mitos e generalizações com atenção aos fatos, leitura das obras e reconstituição das redes de colaboração intelectual entre pensadores, artistas e apoiadores. Sem os livros de Amaral, seria mais difícil termos leituras enraizadas de Tarsila do Amaral e seus interlocutores no contexto social local, na produção artística do continente e em ambições coletivas do Brasil do século 20.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir de 1964, passou a trabalhar também em museus. Na Universidade de São Paulo, onde foi professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, ajudou a definir o escopo de atuação do MAC- USP , onde ingressou como assistente do diretor Walter Zanini e que dirigiu entre 1982 e 1986.

    No meio tempo, entre 1975 e 1979, dirigiu a Pinacoteca de São Paulo, sendo fundamental para a reelaboração do perfil da instituição. Além de defender a centralidade da pesquisa, do trabalho editorial e da contribuição educativa de museus, Amaral levou a cabo –acompanhando pessoalmente cada etapa, da pesquisa à montagem– mostras que formaram capítulos inteiros da história da arte.

    No MAC, "Tarsila: 50 Anos de Pintura", em 1969, foi a primeira retrospectiva sistemática da artista, "Expo-Projeção 73", em 1973, expandiu o alcance da recém-nascida videoarte, e "Pintura Como Meio", em 1983, reconheceu uma nova geração comprometida com a pintura.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na Pinacoteca, "Projeto Construtivo Brasileiro na Arte", de 1977, seguida de edição no MAM Rio, expandiu o debate sobre um momento decisivo da arte contemporânea. Além disso, realizou mostras internacionais da produção brasileira e participou de edições marcantes do Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, do Panorama do MAM São Paulo e da Bienal do Mercosul em Porto Alegre.

    Tantos títulos, publicações e mostras são só uma pista da extensão do legado de Amaral. São muitas as pessoas que trabalham com arte que têm lembranças agudas de seus comentários, incentivos e desafios. São muitos os estudantes que se surpreenderam com sua escrita franca e desafiadora, muitas as trajetórias impulsionadas por seu clamor de que a arte deve responder ao seu tempo, dirigir-se à sociedade e encontrar dicções originais.

    Quando ela me convidou para contribuir como curador adjunto do 34º Panorama do MAM, em 2015, não sei se fiquei mais desnorteado com a oportunidade ou com a originalidade da proposta de olhar para a produção contemporânea a partir dos zoólitos, peças esculpidas em pedra pelos povos sambaquieiros entre 7 mil e mil anos atrás.

    Depois, me impressionei com sua energia inesgotável, enquanto visitávamos sambaquis e museus no litoral sul do Brasil. Tenho certeza de que muito do que fiz desde então foi motivado pela força dessa pesquisa, que convida a pensar presente, passado e futuro de modo ensaístico e experimental.

    Aracy Amaral, filha de Nadya e Aguinaldo Amaral, irmã de Ana Maria, Suzana e Antonio Henrique, mãe de André e avó de Maria Luiza e Gabriela, família de grandes contribuições artísticas e intelectuais, confiou seu arquivo ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Seguirá visitável em sua vasta obra escrita –que quem a conheceu lê como se escutasse sua voz inquieta.

    Constantemente preocupada com o que via como sinais do desinteresse das novas gerações pela história que nos trouxe até aqui, Amaral nos deixa zelosos da importância de olhares críticos como o que ela emprestou para a arte de seu tempo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/aracy-amaral-morta-aos-96-nao-se-acanhou-na-busca-por-grandes-temas-nas-artes-plasticas.shtml.

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