Política

    Ar‑condicionado vira símbolo de disputa ideológica na França

    O Rassemblement National, de Marine Le Pen, defende um “grande plano de climatização” para escolas e hospitais

    Poder360
    5 de setembro de 2026 às 10:58
    Ar‑condicionado vira símbolo de disputa ideológica na França
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    O Rassemblement National, de Marine Le Pen, defende um “grande plano de climatização” para escolas e hospitais

    É difícil imaginar, no Congresso Nacional do Brasil, um defensor da redução dos gastos públicos e do tamanho do Estado, discursando em favor da instalação de aparelhos de ar-condicionado em escolas públicas, enquanto deputados e senadores de esquerda se opõem radicalmente à ideia. Mas na França, com as ondas de calor cada vez mais intensas que assolam o país, é exatamente isso que está acontecendo. Graças ao aquecimento global, o aparelho virou símbolo de uma batalha ideológica entre direita e esquerda, no debate sobre quais políticas públicas a nação deve adotar para aplacar os efeitos do calor extremo.

    Na França, o uso de ar-condicionado em residências e equipamentos públicos sempre foi tratado com cautela. Durante anos, a climatização foi de certa forma associada ao consumo excessivo de energia e a uma forma individualista de responder às mudanças climáticas. A prioridade sempre foi equipar prédios e casas com isolamento, proteção contra o sol e boa ventilação para limitar , sempre que possível, o uso de aparelhos de ar-condicionado.

    Na França, políticos de direita são a favor da instalação de aparelhos de ar-condicionado; e o de esquerda, contra. Na imagem, a cidade de Paris
    Na França, políticos de direita são a favor da instalação de aparelhos de ar-condicionado; e o de esquerda, contra. Na imagem, a cidade de Paris — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    Mas esse ano o país teve o mês de junho mais quente da história , com temperatura média quase 4°C acima da média do mês registrada de 1991 a 2020. Na 2ª metade de junho, o país enfrentou uma onda de calor mais longa e intensa do que o normalmente esperado. De 24 a 25 de junho, a temperatura média nacional em 24 horas ultrapassou pela 1ª vez os 30 °C, o maior valor já registrado .

    O impacto na sociedade foi bem além de um desconforto normal causado por temperaturas elevadas em residências e prédios públicos onde não é comum haver ar-condicionado. Durante um desses períodos de excesso de calor em junho, registrou-se um excesso de mortes em relação ao número esperado, impactando a maioria das faixas etárias, embora mais concentrado nos idosos . Em Paris, tornou-se comum ver bombeiros atendendo chamados para resgatar pessoas mais velhas debilitadas pelo calor em seus apartamentos.

    O calor fez a prefeitura cancelar ou adiar eventos importantes da cidade. A Marche des Fiertés , que reúne dezenas de milhares de pessoas e é um dos principais eventos públicos parisienses, foi remarcada para setembro. Os tradicionais Bals de Pompiers , celebrações muito populares nos dias 13 e 14 de julho, foram cancelados para que os serviços de emergência pudessem permanecer disponíveis .

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    Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    Foi nesse contexto que uma pergunta começou a ganhar dimensão política: devemos instalar mais aparelhos de ar-condicionado na França? E como ficam as escolas e hospitais?

    O Rassemblement National (RN), partido de direita liderado por Marine Le Pen, passou a defender um “ grande plano de climatização ” para escolas, hospitais, outros serviços públicos e financiamento para particulares .

    Mas a posição da esquerda é diferente. A La France insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, criticou a ideia de transformar a climatização em resposta generalizada ao calor e defendeu principalmente a renovação térmica dos edifícios, a proteção solar e a criação de espaços frescos. Mas reconhece que escolas e hospitais podem ser exceção.

    The Conversation
    The Conversation — Foto: Poder360 · Fonte: Poder360

    Marine Tondelier , líder do partido Les Écologistes , afirmou que existem lugares na França onde “não podemos mais prescindir” da climatização, embora tenha insistido que ela não pode ser a única resposta. Essa mudança é relevante.

    A proporção de casas francesas com algum sistema de ar-condicionado vem crescendo rapidamente nos últimos anos . Durante o verão, ventiladores e climatizadores simplesmente desapareceram das lojas . Na maioria delas os estoques acabaram em poucos dias de filas e grande procura .

    Em meu artigo anterior publicado no The Conversation France , argumentei que o consumo pode funcionar como um marcador político. A literatura chama esse fenômeno de consumo político. Ele ocorre quando consumidores deliberadamente evitam ou compram produtos por razões políticas, sociais ou éticas. O boycott corresponde à decisão de não comprar para rejeitar algo considerado inadequado. Já o buycott é o movimento oposto : comprar ou apoiar aquilo que percebemos como alinhado aos nossos valores.

    No caso do ar-condicionado, alguém pode decidir não comprá-lo porque acredita que consumir mais energia é ambientalmente menos responsável. Outra pessoa pode procurar deliberadamente um aparelho mais eficiente. Uma terceira pode defender a climatização de escolas porque considera que proteger crianças do calor é uma prioridade social. As três pessoas estão tomando decisões diferentes diante do mesmo produto. Mas estão de certa forma dizendo algo sobre valores que consideram importantes.

    Na França atual, a polêmica do ar condicionado persiste nos debates publicos, mas o calor e tanto que ja se percebe sinais de convergencia ate entre parece certo afirmar que, após este verão de 2026, até os diferentes campos políticos tenderão a concordar e reconhecer a urgência de adaptar os serviços públicos e proteger os indivíduos mais vulneráveis do calor.

    Jorge Jacob é professor na IÉSEG School of Management .

    Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation, em 28 de agosto de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

    Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-sustentavel/ar%e2%80%91condicionado-vira-simbolo-de-disputa-ideologica-na-franca/.

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    Na França, políticos de direita são a favor da instalação de aparelhos de ar-condicionado; e o de esquerda, contra. Na imagem, a cidade de Paris — Foto: Poder360

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