Apostas e a palavra do Estado
O Estado brasileiro cobrou R$ 30 milhões de cada empresa autorizada a explorar apostas por cinco anos. Recebeu R$ 2,55 bilhões em 85 outorgas . Agora, a MP 1.394/2026 determina a extinção dessas autorizações em 30 dias e afasta a devolução dos valores e a indenização. A distância entre o compromisso assumido e a decisão de encerrá-lo é o centro do problema de segurança jurídica. Leia mais (10/09/2026 - 08h00)

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Diretor-executivo da Associação do Livre Mercado
O Estado brasileiro cobrou R$ 30 milhões de cada empresa autorizada a explorar apostas por cinco anos. Recebeu R$ 2,55 bilhões em 85 outorgas . Agora, a MP 1.394/2026 determina a extinção dessas autorizações em 30 dias e afasta a devolução dos valores e a indenização. A distância entre o compromisso assumido e a decisão de encerrá-lo é o centro do problema de segurança jurídica.
Proteger menores e enfrentar a dependência em jogos são deveres públicos. Mas a qualidade de uma política depende também de sua implementação e de seus resultados. Por isso, desmontar em semanas um mercado que começou a operar sob regras federais em janeiro de 2025 exige demonstrar por que medidas menos drásticas seriam insuficientes.

A autorização não é uma garantia de legislação imutável. Seu prazo e seu preço, contudo, orientaram investimentos, contratações e compromissos com fornecedores.
A questão, portanto, é exigir que uma ruptura dessa magnitude seja acompanhada de uma transição compatível com os compromissos criados pelo próprio Estado.
A MP previu dez dias para retirar sites, aplicativos, publicidade e sinais de patrocínio. Embora exista uma transição formal, sua brevidade comprimiu decisões que já atingiram trabalhadores e contratos de toda uma cadeia.

Os efeitos da ruptura já aparecem nas projeções de companhias internacionais de capital aberto. A Flutter, listada em Nova York, informou à SEC que a paralisação no Brasil até o fim de 2026 reduziria sua receita em cerca de US$ 70 milhões (R$ 351,6 milhões) e seu Ebitda ajustado em US$ 20 milhões (R$ 100,2 milhões). A Entain, listada em Londres e dona da Sportingbet, manteve sua faixa de projeção de resultado, mas passou a esperar desempenho próximo do piso.
Para o Brasil, a repercussão pode chegar por menos compras de serviços, contratações e investimentos. Matrizes que distribuem recursos entre países passam a avaliar o risco de uma autorização onerosa perder utilidade muito antes do prazo.
O governo calcula, ainda, uma frustração de R$ 6,8 bilhões até 2027 apenas com o tributo específico do setor e a taxa de fiscalização. Há também a migração de consumidores para a clandestinidade. Segundo monitoramento da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias), foram identificados 1.689 novos endereços ilegais em 26 de setembro, dia seguinte à edição da MP.
O dado revela uma oferta clandestina pronta para disputar a demanda remanescente. Se parte dos consumidores continuar apostando fora do ambiente fiscalizado, o país poderá perder receitas e instrumentos de proteção sem eliminar os danos que motivaram a proibição.
Uma resposta consistente deve enfrentar a publicidade abusiva, restringir movimentações bancárias a operadores ilegais e ampliar a prevenção e o tratamento da dependência. Deve também apresentar evidências sobre a eficácia dessas ações e sobre as consequências de encerrar o mercado autorizado.
Cabe ao Congresso examinar se a ruptura é necessária e proporcional, se o tratamento das outorgas respeita os compromissos assumidos e se os prazos permitem uma transição efetiva. Quando o poder público exige que empresas cumpram regras, precisa explicar com igual rigor como tratará os compromissos que ele próprio criou.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/apostas-e-a-palavra-do-estado.shtml.

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