Brasil

    Após Espanha, Itália vira protagonista de nova escalada da crise migratória na Europa

    Ao ver a cena de milhares de imigrantes entrando no território espanhol de Ceuta , no fim de julho, o governo italiano colocou em prática uma severa medida contra a Espanha e suspendeu o tratado Schengen, de livre circulação no continente. Nos últimos dias, foi a vez de a Itália entrar na mira de seus vizinhos no debate sobre o ingresso irregular de estrangeiros na União Europeia . Leia mais (08/22/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de agosto de 2026 às 02:00
    Após Espanha, Itália vira protagonista de nova escalada da crise migratória na Europa
    Centenas de migrantes caminham pela praia em direção à câmera, muitos com roupas simples e algumas pessoas segurando guarda-sóis. Um policial com uniforme azul e luvas de proteção está à direita, interagindo com o grupo. No fundo, navios es — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Ao ver a cena de milhares de imigrantes entrando no território espanhol de Ceuta , no fim de julho, o governo italiano colocou em prática uma severa medida contra a Espanha e suspendeu o tratado Schengen, de livre circulação no continente. Nos últimos dias, foi a vez de a Itália entrar na mira de seus vizinhos no debate sobre o ingresso irregular de estrangeiros na União Europeia .

    Migrantes caminham de um acampamento improvisado para abrigos oficiais no exclave espanhol de Ceuta, no norte da África - Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters · Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters
    Migrantes caminham de um acampamento improvisado para abrigos oficiais no exclave espanhol de Ceuta, no norte da África - Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters · Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao menos seis países anunciaram a intenção de retomar o envio de imigrantes que estão à espera de proteção internacional em seus territórios para a Itália. Eles consideram que Roma é responsável pela gestão desses pedidos de asilo, por ter sido o primeiro país da UE em que esses solicitantes chegaram.

    A Itália, por suas fronteiras marítimas, é uma das principais portas de ingresso do bloco, ao lado de Grécia e Espanha. No entanto, poucos meses após a posse, em 2022, o governo Giorgia Meloni interrompeu a maior parte das transferências de solicitantes de asilo por suposta falta de estruturas de acolhimento.

    Não há indícios de uma ação coordenada, mas Alemanha , Suíça , Áustria , Finlândia , Suécia e Holanda voltaram a tocar nesse tema nos últimos dias, indicando que estão se preparando para mandar imigrantes de volta para a Itália .

    Imigrantes cruzam fronteira de Ceuta, território espanhol na África, e rompem bloqueio policial
    Imigrantes cruzam fronteira de Ceuta, território espanhol na África, e rompem bloqueio policial — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    São casos de estrangeiros que entraram de modo irregular nas fronteiras italianas, viajaram até outro país da UE e apresentaram ali um pedido de asilo. Pelas regras do bloco, conhecidas como sistema de Dublin, cabe à Itália analisar esses casos. Isso então permite que o imigrante seja enviado de volta ao território italiano.

    Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo

    O número total pessoas que poderiam ser transferidas à Itália é incerto, mas em 2025 o país foi o que mais recebeu esse tipo de pedido dentro da UE. Segundo o Eurostat, foram 24 mil solicitações às autoridades italianas, das quais apenas 85 transferências foram realmente efetuadas.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A retomada das transferências desses imigrantes tem a ver com o novo Pacto Europeu sobre Imigração e Asilo, que entrou em vigor em junho. Segundo Lena Riemer, professora de direito da Universidade da Europa Central (CEU) em Viena , especializada em asilo e direitos humanos, as novas regras deixaram mais evidente a responsabilidade de países de primeiro ingresso.

    Pela regra antiga, se a Itália ignorasse um pedido de transferência, como vem fazendo desde 2022, o país requerente acabava ficando responsável por ele. Agora, se a Itália se omitir, ela passa a ser automaticamente responsável pelo pedido de asilo. "A mudança legal foi que não dizer nada significa, até certo ponto, um consentimento", diz.

    Para Riemer, o fato de seis países terem se manifestado sobre o tema nesses dias, com a intenção de retomar as devoluções para a Itália, não tem relação com os episódios em Ceuta.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Trata-se de mostrar firmeza, de dizer que não vão mais tolerar países que se negam a receber pessoas de volta. São eles dizendo que existem regras e que é preciso cumpri-las", afirma.

    Para um governo que tem o combate à imigração como bandeira, a chegada de refugiados em busca de asilo é um assunto indigesto, ainda mais devido ao calendário. Os italianos vão às urnas no ano que vem, e Meloni pretende mostrar bons resultados nessa área.

    Para a oposição, a movimentação dos países vizinhos é, sim, efeito da suspensão do tratado Schengen com a Espanha, que ainda está em vigor. Como resposta, também o país ibérico passou a controlar pessoas que atravessam as fronteiras (marítimas e aéreas) vindas da Itália.

    "É clamoroso o bumerangue da propaganda de Giorgia Meloni ao suspender o Schengen contra a Espanha", disse Elly Schlein, líder do Partido Democrático. "Quando eu falei que, com Ceuta, a primeira-ministra criou um precedente perigoso para a Europa, principalmente para a Itália, era isso o que eu queria dizer", afirmou, em referência aos países que anunciaram o envio de imigrantes para o país.

    Meloni, na última sexta (21), respondeu. Rejeitou a ideia de efeito bumerangue e afirmou que o novo pacto "marca uma virada positiva para a Itália" na gestão dos imigrantes do sistema de Dublin. "Com o reforço do princípio de país terceiro seguro, defendido pela Itália, será mais simples efetuar repatriações aceleradas", disse.

    Além de cenas como as em Ceuta, a proximidade de eleições em países da UE acaba por esquentar o debate sobre imigração. Com a popularidade em alta de partidos de ultradireita, governantes sobem o tom e tentam mostrar realizações no tema, justificando restrições com o argumento da segurança nacional. A Alemanha tem pleitos locais e regionais nas próximas semanas, enquanto Itália, França e Espanha têm eleições nacionais em 2026.

    Para a professora Riemer, isso ajuda a entender decisões ligadas ao tratado Schengen. Além do embate entre Itália e Espanha, a Alemanha pediu, nos últimos dias, à Comissão Europeia que prorrogasse checagens em fronteiras até março do ano que vem. "Todo esse debate sobre segurança está sendo instrumentalizado para justificar medidas mais duras", diz.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Semanalmente, os principais fatos do globo, explicados de forma leve e interessante

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/apos-espanha-italia-vira-protagonista-de-nova-escalada-da-crise-migratoria-na-europa.shtml.

    Imagem 1
    1 / 4

    Migrantes caminham de um acampamento improvisado para abrigos oficiais no exclave espanhol de Ceuta, no norte da África - Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters · Violeta Santos Moura - 20.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)