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    Após dez anos, júri decide que cabeleireira não matou o marido

    Três tiros, duas versões e uma pergunta que ficou sem resposta por quase dez anos: homicídio ou suicídio? A controvérsia em torno da morte do policial militar Alan Damasceno Castro , aos 27 anos, chegou ao fim com a absolvição da mulher dele, a cabeleireira Ranielly Antunes Castro. Leia mais (08/25/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    25 de agosto de 2026 às 11:00
    Após dez anos, júri decide que cabeleireira não matou o marido
    Homem e mulher abraçados em sala de estar. Ao fundo, três quadros pendurados na parede, incluindo uma foto de duas crianças e uma pintura de paisagem. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Três tiros, duas versões e uma pergunta que ficou sem resposta por quase dez anos: homicídio ou suicídio? A controvérsia em torno da morte do policial militar Alan Damasceno Castro , aos 27 anos, chegou ao fim com a absolvição da mulher dele, a cabeleireira Ranielly Antunes Castro.

    O casal Alan Damasceno e Ranielly Antunes; o PM morreu com três tiros há dez anos - Divulgação/Redes Sociais · Divulgação/Redes Sociais
    O casal Alan Damasceno e Ranielly Antunes; o PM morreu com três tiros há dez anos - Divulgação/Redes Sociais · Divulgação/Redes Sociais — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Acusada de matar o marido durante uma discussão, Ranielly, 36, sempre negou o crime. Disse que Alan atirou contra si mesmo e que o que ocorreu foi uma tragédia. A perícia, porém, nunca conseguiu determinar de forma definitiva qual das duas versões era verdadeira. O laudo apontou que as duas hipóteses, homicídio ou suicídio, eram compatíveis com as provas colhidas durante a investigação.

    A morte ocorreu por volta das 23h de 25 de outubro de 2016 em Osasco , na Grande São Paulo. Alan havia acabado de chegar em casa, ainda fardado, quando começou uma discussão com Ranielly. Segundo a cabeleireira, o policial a acusava de traição, o que ela negava.

    Em algum momento, Alan foi atingido por três tiros disparados pela sua própria arma, uma pistola semiautomática calibre .40. Morreu a caminho do hospital, em decorrência de uma hemorragia interna.

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    Ao denunciar a cabeleireira, o Ministério Público sustentou que Ranielly, inconformada com as acusações de traição, teria pegado a arma do policial e efetuado os três disparos antes que ele tivesse chance de perceber o que estava acontecendo.

    "Ranielly matou Alan por não aceitar que ele questionasse sua fidelidade", afirmou o promotor Marco Antonio de Souza na denúncia apresentada em 2023.

    A dinâmica dos disparos, entretanto, tornou o caso mais complexo.

    O primeiro tiro atingiu a parte frontal do pescoço, abaixo e atrás do queixo. Segundo a perícia, o disparo foi feito a alguns centímetros da pele, com a pistola levemente inclinada para a esquerda. O ferimento não provocou a morte imediata.

    Os outros dois tiros atingiram a parte superior do tórax. Nesses casos, as características encontradas indicaram que o cano da arma estava encostado na pele.

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    Durante a discussão, dizem os advogados Fernando Pessoa Furegatti de Assis e Lindenberg Pessoa de Assis, Alan teria agredido Ranielly. Ela então ameaçou denunciá-lo à Corregedoria da Polícia Militar .

    O policial teria ido até a cozinha, sacado a arma e disparado contra o próprio pescoço. Ferido, teria pedido à mulher que o matasse. Ranielly se recusou. Em vez disso, pegou a arma que estava no chão, colocou-a sobre uma mesa e saiu para pedir ajuda aos vizinhos.

    A versão da defesa afirma que, antes que o socorro chegasse, Alan conseguiu se levantar, pegou novamente a pistola, retirou o colete à prova de balas e fez mais dois disparos contra o próprio tórax.

    Um laudo assinado pelo perito criminal Sérgio de Paula Moura, em novembro de 2016, deu algum respaldo à primeira parte dessa narrativa. Na avaliação do perito, Alan havia feito o primeiro disparo contra si mesmo.

    O problema eram os dois tiros seguintes.

    Para o perito, era improvável que o policial tivesse conseguido realizá-los sozinho. Seria necessário, segundo ele, "auxílio material direto para o posicionamento da pistola".

    Um laudo complementar produzido no ano seguinte pelo médico legista Hermógenes Biondi Santos também não resolveu a questão. O especialista considerou possível, em tese, que a sequência descrita pela defesa tivesse ocorrido, mas classificou como "pouco provável" que Alan tivesse conseguido se levantar após o primeiro disparo, caminhar cerca de cinco metros, pegar a arma novamente, retirar o velcro do colete e efetuar os outros dois tiros.

    Havia ainda outro elemento sem resposta definitiva: foram encontrados resíduos de chumbo tanto nas mãos de Alan quanto nas de Ranielly.

    A falta de uma conclusão pericial levou o próprio Ministério Público a mudar de posição durante o processo.

    Em dezembro de 2023, o mesmo promotor que havia denunciado a cabeleireira pediu que ela não fosse levada a julgamento. Para ele, não havia elementos suficientes para escolher uma das duas versões.

    "Não há nenhuma prova oral, técnica ou documental que permita preferir-se uma das versões em detrimento da outra", afirmou à Justiça. Os indícios de homicídio, acrescentou, não tinham solidez suficiente.

    A juíza Élia Kinosita, porém, rejeitou o pedido. Entendeu que havia elementos para que a questão fosse decidida pelo Tribunal do Júri.

    Ranielly chegou ao julgamento sustentando a mesma versão que apresentou desde o início: não matou o marido.

    "Não posso pagar por algo que não fiz. Estou com medo", disse ela à Folha antes do júri.

    Também carregava uma espécie de arrependimento pelo que, na sua visão, poderia ter feito naquela noite.

    "Deveria ter corrido e retirado a arma de perto dele após o primeiro tiro. Talvez estivesse vivo."

    Mãe de dois filhos, Ranielly foi absolvida em uma decisão apertada: quatro jurados votaram pela sua absolvição contra três que optaram pela condenação. O julgamento foi realizado na semana passada.

    "Após dez anos da data do falecimento de seu ex-marido, Ranielly finalmente pôde dormir com a consciência tranquila", disse à Folha o advogado Fernando Pessoa Furegatti de Assis. "A Justiça foi feita."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/08/apos-dez-anos-juri-decide-que-cabeleireira-nao-matou-o-marido.shtml.

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