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    Após conquistar o mundo, Shein sofre para dar o passo seguinte

    A Shein já foi uma das empresas mais comentadas do varejo . Ela conseguia identificar o que a geração Z queria e, em poucos dias, transformar essas tendências em vestidos de tela de US$ 10 e tops cropped de US$ 5. Leia mais (08/22/2026 - 06h00)

    Folha de S.Paulo
    22 de agosto de 2026 às 09:00
    Após conquistar o mundo, Shein sofre para dar o passo seguinte
    Homem costura tecido branco em máquina industrial em fábrica com várias pessoas ao fundo operando máquinas semelhantes. Pilhas de tecido e ambiente de produção visível. — Foto: Folha de S.Paulo

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    A Shein já foi uma das empresas mais comentadas do varejo . Ela conseguia identificar o que a geração Z queria e, em poucos dias, transformar essas tendências em vestidos de tela de US$ 10 e tops cropped de US$ 5.

    Funcionários costuram roupas da Shein em fábrica na China - Go Nakamura - 27.jul.26/Reuters · Go Nakamura - 27.jul.26/Reuters
    Funcionários costuram roupas da Shein em fábrica na China - Go Nakamura - 27.jul.26/Reuters · Go Nakamura - 27.jul.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Suas roupas eram tão baratas e a renovação de estilos, tão incessante, que a hashtag #Sheinhaul virou um fenômeno no TikTok. A Shein ultrapassou concorrentes maiores, como Zara e H&M, começou a planejar uma IPO (oferta pública inicial de ações) e, em determinado momento, foi avaliada em quase US$ 100 bilhões (R$ 514,7 bilhões).

    Depois de anos de adiamentos, a Shein está perto de abrir o capital —desta vez, por uma fração de sua avaliação máxima . A empresa busca novas formas de crescer após EUA e União Europeia eliminarem isenções tarifárias para produtos de baixo valor que ajudavam a sustentar seu modelo de baixo custo. As vendas caíram acentuadamente nos Estados Unidos, seu maior mercado. E a empresa deu aos investidores poucos detalhes sobre de onde virá um novo crescimento significativo.

    "Para uma empresa que foi tão exaltada por tanto tempo, parece que a festa acabou", comentou Juozas Kaziukenas, analista independente de comércio eletrônico.

    Cliente escolhe produtos da Shein na loja em Paris - Loic Venance - 25.fev.26/AFP · Loic Venance - 25.fev.26/AFP
    Cliente escolhe produtos da Shein na loja em Paris - Loic Venance - 25.fev.26/AFP · Loic Venance - 25.fev.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nenhuma marca de moda chinesa teve tanto sucesso quanto a Shein em se tornar global. Ainda assim, a empresa permanece incomumente reservada.

    Seu fundador e CEO, Sky Xu Yangtian, é tão discreto que, até aparecer em público em fevereiro, era falsa a maioria das fotografias que circulavam na internet e supostamente o mostravam. Até mesmo um alto executivo da Shein no exterior, que falou sob condição de anonimato por não ter autorização para conversar com a imprensa, afirmou nunca ter conhecido Xu nem interagido com ele.

    A Shein recusou pedidos de entrevista. A data e os detalhes de precificação de sua estreia no mercado ainda não foram anunciados, mas a empresa apresentou um prospecto à Bolsa de Valores de Hong Kong no mês passado.

    Mulher idosa com casaco preto e cachecol claro segura casaco branco em arara dentro de loja. Placa ao fundo indica promoção de 40% na loja SHEIN.
    Mulher idosa com casaco preto e cachecol claro segura casaco branco em arara dentro de loja. Placa ao fundo indica promoção de 40% na loja SHEIN. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A varejista se esforçou para se distanciar de suas origens chinesas. Em 2019, estabeleceu sua sede em Singapura e, alguns anos depois, cancelou o registro de sua entidade corporativa chinesa original. O objetivo era, em parte, contornar as regras chinesas para empresas que buscam listar ações no exterior e abrir caminho para uma IPO em Nova York.

    A estratégia fracassou. Nos EUA, a Shein enfrentou intensa fiscalização de parlamentares dos dois principais partidos sobre sua cadeia de suprimentos e suas práticas trabalhistas. Depois de abandonar, em 2024, a tentativa de listar suas ações em Nova York, voltou-se para Londres, onde enfrentou resistência semelhante de organizações não governamentais e outros manifestantes.

    Isso deixou Hong Kong como o último grande mercado viável . Mas, após anos de adiamentos, analistas dizem que a Shein pode ter perdido o momento certo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A guinada para Hong Kong também colocou a Shein na posição incômoda de ter de voltar a abraçar a identidade chinesa que antes tentara minimizar. Na China , a empresa foi criticada por "florescer na China, mas dar frutos no exterior" —frase que sugere que a Shein construiu seu sucesso no país, mas direcionou os lucros para fora dele.

    Então, em fevereiro, o notoriamente esquivo Xu apareceu de repente diante de autoridades da província de Guangdong.

    "Guangdong é a raiz da Shein", declarou ele, anunciando que a empresa investiria cerca de US$ 1,4 bilhão ao longo dos três anos seguintes para construir ali um polo de cadeia de suprimentos.

    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável
    Ilustração para Economia - Governo vai implantar sistema de chamadas verificadas contra fraudes telefônicas - Ferramenta será capaz de indicar se ligação partiu ou não de origem confiável — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    A imprensa chinesa inicialmente cobriu o discurso. Depois, alguns artigos começaram a desaparecer da internet. O jornalista Lu Minghe publicou um aviso mostrando que a Shein havia exigido que sua conta pública no WeChat removesse um artigo sobre a aparição de Xu, alegando "violação de direitos".

    Mesmo enquanto a Shein recalibra sua relação com a China, um problema mais fundamental paira sobre qualquer possível listagem.

    Jianggan Li, fundador da Momentum Works, consultoria que acompanha a Shein de perto, declarou que possíveis investidores lhe contaram ter percebido pouco entusiasmo por parte dos fundadores da empresa.

    "Não houve nenhum esforço para despertar interesse", comentou Li. "Não sinto que a administração tenha um forte desejo de abrir o capital da empresa, além do fato de que os investidores querem sair", afirmou.

    Os investidores querem saber como a Shein poderá continuar crescendo.

    A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, no ano passado, de encerrar uma política que permitia a entrada, sem impostos, de bilhões de dólares em importações de baixo custo nos EUA representou um duro golpe em seu maior mercado individual.

    Em maio de 2025, a Shein começou a aumentar os preços nos Estados Unidos. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida no país caiu 14,3%, para US$ 2 bilhões, informou a empresa. A Europa pode representar um desafio ainda maior. No mês passado, autoridades europeias anunciaram uma tarifa fixa de 3 euros (R$ 18,01) sobre encomendas de comércio eletrônico que antes entravam sem impostos.

    A Europa responde por mais de um terço da receita da Shein. Em seu prospecto, a empresa alertou que, embora ainda fosse cedo demais para avaliar plenamente o impacto da situação na Europa, ele "poderia, em termos gerais, ficar em linha com o impacto observado nos Estados Unidos ou superá-lo".

    Agora, a Shein tenta convencer os investidores de que seu futuro vai além das roupas ultrabaratas, vendendo acesso ao sistema que criou para desenvolver, produzir, comercializar e entregar produtos rapidamente.

    Até o momento, há poucos indícios de que a estratégia para a cadeia de suprimentos esteja dando resultado. Desde que começou a oferecer o serviço em caráter experimental, em 2023, a Shein conquistou apenas cerca de 20 marcas. Segundo a empresa, o programa gerou menos de 1% de sua receita líquida total em 2025.

    Shen Meng, diretor da Chanson & Co., empresa de banco de investimento de Pequim, afirmou que a Shein teve sucesso, em parte, porque se dispôs a comprimir seus próprios custos e margens —concessões que outras marcas que usam sua plataforma talvez não estejam dispostas a aceitar.

    "É difícil enxergar alguma vantagem excepcional na transição da Shein", disse o CEO da empresa.

    A Shein também está se expandindo para móveis, cosméticos, produtos para animais de estimação e eletrônicos. Os produtos que não são do setor de vestuário responderam por mais de um terço de sua receita no primeiro trimestre.

    Outros analistas também demonstram ceticismo quanto à possibilidade de a Shein ter encontrado um segundo ato.

    "Não está claro o que eles conseguirão gerar além de moda ultrarrápida e muito barata", disse Sucharita Kodali, especialista em comércio eletrônico da agência de pesquisa Forrester.

    O primeiro ato da Shein foi extraordinário.

    A empresa foi fundada em 2012 por Xu e três colegas de uma firma de marketing que ajudava exportadores chineses a vender produtos pela internet. Em 2015, encurtou seu nome de Sheinside para Shein.

    Durante a pandemia de Covid-19, com a explosão das compras pela internet, a popularidade da Shein disparou. A empresa inundou a internet com anúncios voltados para consumidores jovens, atraindo-os com preços extremamente baixos e modelos em constante mudança.

    Em 2022, a Shein se tornou a maior varejista de moda online do mundo. Naquele ano, foi avaliada em US$ 98,2 bilhões e recebeu apoio de uma série de grandes investidores de capital de risco.

    O segredo era um sistema criado para encurtar o ciclo tradicional da moda. A Shein usava algoritmos para acompanhar tendências emergentes e, em seguida, fazia pedidos iniciais de algumas centenas de unidades para testar a demanda. O modelo permitia lançar aproximadamente 4.700 novos modelos de roupas por dia. Em comparação, a Zara produz 20 mil por ano, segundo analistas.

    A Shein combinou essa tecnologia com um ecossistema industrial concentrado em Guangdong, onde fiandeiros, tecelões, costureiras e pequenas fábricas podiam produzir rapidamente pedidos de apenas 100 peças.

    Mas a Shein tem enfrentado dificuldades para reproduzir seu modelo chinês de cadeia de suprimentos em países como Turquia e Vietnã, segundo Li, da Momentum Works. Ao mesmo tempo, concorrentes como a Temu surgiram com uma variedade ainda maior de produtos e preços ainda mais baixos.

    Kaziukenas disse ter vasculhado o prospecto da Shein em busca da resposta para uma pergunta que fazia havia anos: "Qual é o futuro da Shein?". E acrescentou: "Não acho que tenhamos obtido essa resposta".

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/apos-conquistar-o-mundo-shein-sofre-para-dar-o-passo-seguinte.shtml.

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