Brasil

    Apesar de momento favorável, percepção negativa sobre economia estanca votos em Lula

    A percepção sobre a economia ajuda a explicar o teto rebaixado das intenções de voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do primeiro turno e o aumento das chances de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Leia mais (10/04/2026 - 11h33)

    Folha de S.Paulo
    4 de outubro de 2026 às 14:33
    Apesar de momento favorável, percepção negativa sobre economia estanca votos em Lula
    À esquerda, homem de perfil com microfone de lapela, fundo azul. À direita, homem com barba e chapéu claro, veste paletó azul e segura microfone, fundo laranja. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    A percepção sobre a economia ajuda a explicar o teto rebaixado das intenções de voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do primeiro turno e o aumento das chances de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

    Os principais candidatos à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). - Getty Images · Getty Images
    Os principais candidatos à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). - Getty Images · Getty Images — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo especialistas, embora a economia atravesse um momento macroeconômico favorável, o governo tem falhado em converter esses indicadores em capital político, abrindo caminho para a reação da oposição.

    Na avaliação de Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados e colunista da Folha , a economia vive um bom momento em termos de atividade, emprego e geração de renda , oferecendo dados concretos que poderiam sustentar uma percepção positiva do eleitorado.

    Esse diagnóstico vai ao encontro da análise do cientista político Antônio Lavareda, para quem o principal erro do governo foi não ter disputado a narrativa econômica.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ao deixar que notícias sobre endividamento, inadimplência e preços elevados dominassem o debate, o Palácio do Planalto permitiu que a percepção sobre a economia ficasse significativamente pior do que a avaliação que os brasileiros fazem de suas próprias vidas e, principalmente, do otimismo com o futuro.

    "O governo nunca enfrentou a narrativa da oposição de que a economia está no rumo errado. Esse tipo de propaganda não existiu", diz Lavareda.

    A oposição, por outro lado, teria sido eficiente em explorar a percepção de que a comida continua cara, com Flávio Bolsonaro aparecendo em supermercados e usando spots na internet e na televisão .

    Trilili Urna Eletrônica
    Trilili Urna Eletrônica — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para Vale, essa estratégia, somada à disseminação de fake news nas redes sociais, dificulta que a população perceba a melhora dos indicadores.

    Ele afirma ainda que há um certo "cansaço" em relação a Lula, que acabou prejudicado também com a recente crise envolvendo o STF. Vale compara esse ambiente a um "mini 2013" institucional, referência aos protestos no país naquele ano . "Neste cenário, a economia de Lula pode muito, mas não pode tudo", diz.

    Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, apesar dos bons indicadores de emprego e renda, o endividamento das famílias tem pesado fortemente na percepção econômica do eleitor.

    "Houve uma disseminação do crédito com a maior bancarização, que vem desde o governo Jair Bolsonaro. Essa conta chegou", diz. "Há também um cansaço em relação ao discurso de Lula, até mais na forma do que no conteúdo."

    Dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) mostram que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, o maior nível da série histórica iniciada em 2010. O índice era de 79% no mesmo mês de 2022. A parcela de famílias inadimplentes chegou a 29,9%.

    Em termos de percepção econômica, embora 43% dos brasileiros avaliem como ótima ou boa a própria situação financeira , quase metade a considera regular, e uma parcela semelhante afirma que o dinheiro disponível não é suficiente para manter o orçamento.

    Segundo pesquisa Datafolha, 45% classificam a situação financeira pessoal e familiar como regular, enquanto 12% dizem que ela é ruim ou péssima.

    Quando a pergunta trata especificamente da renda, 34% afirmam que o dinheiro que ganham, somado ao da família, não é suficiente e às vezes falta. Outros 15% dizem que a renda é muito baixa e traz muitas dificuldades. Ao todo, portanto, 49% relatam algum grau de insuficiência financeira.

    O quadro é particularmente desfavorável entre os segmentos que concentram a maior parte do eleitorado. Apenas 36% dos entrevistados com ensino fundamental consideram sua situação financeira ótima ou boa. O percentual cai para 33% entre aqueles com renda familiar de até dois salários mínimos e para 32% nas classes D e E.

    Há, porém, um paradoxo importante: mesmo entre os grupos que pior avaliam a própria situação atual, predomina a expectativa de melhora: 65% dos integrantes das classes D e E acreditam que sua situação financeira vai melhorar nos próximos 12 meses, assim como 62% dos entrevistados com ensino fundamental. No conjunto da população, 71% esperam alguma melhora.

    Em relação aos preços dos alimentos, fator que pesa entre eleitores mais pobres, segundo levantamento do economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, o poder de compra do salário mínimo em relação à cesta básica melhorou desde 2022.

    Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava o equivalente a 1,8 cesta básica em São Paulo, contra 1,62 em agosto de 2022.

    O mesmo ocorre com a renda do trabalho. O rendimento médio brasileiro chegou a R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto. O valor comprava 4,07 cestas básicas, acima das 3,54 de agosto de 2022.

    Na última pesquisa Datafolha antes da votação , Lula aparece com 47% dos votos totais no segundo turno, contra 46% de Flávio, em empate dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No levantamento anterior, o petista tinha 48%, e o adversário, 45%.

    A curva de Flávio, porém, é ascendente. Em cerca de dez dias, o candidato avançou de forma consistente em praticamente todos os grupos considerados mais sensíveis pelo bolsonarismo, entre eles classe média, Sudeste, homens e evangélicos.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    As principais notícias da semana sobre o cenário jurídico e conteúdos exclusivos

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/apesar-de-momento-favoravel-percepcao-negativa-sobre-economia-estanca-votos-em-lula.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Os principais candidatos à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). - Getty Images · Getty Images — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)