Aos 84, Benedita da Silva segue como referência na luta das mulheres negras
A eleição nacional do último domingo trouxe-me um engasgo na garganta. Não apenas pelo resultado saído das urnas, que se anunciava esperado -algo aferido pelas pesquisas de intenção de voto, embora estas tenham deixado a população mais confusa do que esclarecida. Leia mais (10/07/2026 - 17h00)

Jornalista e escritor, é autor de "Carolina, uma Biografia" e do romance "Toda Fúria"
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A eleição nacional do último domingo trouxe-me um engasgo na garganta. Não apenas pelo resultado saído das urnas, que se anunciava esperado —algo aferido pelas pesquisas de intenção de voto, embora estas tenham deixado a população mais confusa do que esclarecida.
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O que de fato me causou estranheza foi, como carioca, o resultado para o governo do estado e para o Senado . Não sei se mais alguém tomou o susto que tomei. Ao final da contagem dos votos, o primeiro colocado nas pesquisas, Eduardo Paes (PSD), passou de preferido da população para (quase) derrotado no primeiro turno. Não resta a menor dúvida de que o bolsonarismo seja um fenômeno. O que se põe em xeque é o fato de as pesquisas de opinião, com profissionais tão habilitados, não mensurarem isso.

Penso que, até mesmo para um eleitor habituado a eleições e à política fluminense, este resultado leva a uma reavaliação –não há questionamento ao papel das urnas eletrônicas, incontestavelmente seguras . Falo do aferimento das pesquisas, que cada vez mais levam o cidadão a confiar em algo que efetivamente não está acontecendo.
A segunda questão diz respeito à campanha para o Senado. Diferentemente de São Paulo, onde as pesquisas indicavam uma desaceleração das candidaturas aliadas ao presidente Lula, no Rio de Janeiro Benedita da Silva (PT) se mostrava forte e imbatível. Sua derrota tem mais a ver com tendência do que com resultados.
Conheço Benedita desde quando se elegeu vereadora, em 1982, com o lema: "Mulher, negra e favelada". Destacou-se na Câmara do Rio de Janeiro na defesa da favela e da população marginalizada, atuação que a projetou na Associação dos Moradores do Morro Chapéu Mangueira e na Associação de Favelas do Estado.
Após sua eleição histórica, Benedita, também conhecida como Bené —no seio familiar por Dita—, foi eleita para outras funções legislativas: deputada federal e senadora. Na Assembleia Constituinte, cuja "Constituição Cidadã", como a denominou Ulysses Guimarães, completa agora 38 anos de promulgação, foi titular da Subcomissão dos Negros, das Populações Indígenas e Minorias. Sua atuação no Parlamento sempre foi pautada com destaque nas fileiras do PT.
Em 2002, assumiu o governo do estado do Rio de Janeiro, por nove meses, tornando-se a primeira mulher a ocupar a cadeira no emblemático Palácio Guanabara, uma mulher negra ocupando o prédio que foi antiga residência da princesa Isabel e do Conde d’Eu. Também foi ministra da Assistência e Promoção Social no início do governo Lula, em 2003. Essa trajetória diz muito de quem é Benedita da Silva. Eu a conheci por intermédio do poeta Hermógenes de Almeida, brutalmente assassinado ao deixar uma festa no bairro da Abolição. É tudo muito simbólico.
O resultado das urnas no domingo me levou a relembrar a trajetória de Benedita. Ao mesmo tempo, cumpre dizer que é uma injustiça do povo fluminense não honrar a parlamentar com sua volta ao Senado, o que seria o desfecho de uma brilhante carreira na vida pública, já que está com 84 anos.
Sua vida e luta política estão narradas na biografia "BeneDita" (Editora Mauad), publicada em 1997, de autoria da jornalista norte-americana Medea Benjamin e da escritora brasileira Maisa Mendonça, livro lançado no mesmo ano nos Estados Unidos e no Reino Unido, com prefácio do reverendo Jesse Jackson.
Benedita da Silva não é somente uma mulher negra que saiu de uma vida precarizada para o mundo —ela é uma referência. Tem legado como uma das mais destacadas lideranças políticas do país, elevando-se pela honradez, integridade de caráter e ética pública. Portanto, reverenciá-la nestas rápidas linhas é, antes de tudo, dizer: Bené, sua luta nos representa.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2026/10/aos-84-benedita-da-silva-segue-como-referencia-na-luta-das-mulheres-negras.shtml.

Benedita da Silva durante campanha eleitoral - Tércio Teixeira- 13.set.26/AFP · Tércio Teixeira- 13.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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