Aos 81 anos, ONU atravessa sua maior crise existencial
Podemos esperar mais drama, e não surpresas, quando o presidente Lula discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU , em Nova York, na próxima terça-feira (22). O americano Donald Trump deve, mais uma vez, partir para o ataque contra a instituição anfitriã que tanto contribuiu para consolidar o poder dos Estados Unidos no pós-guerra e ainda reflete a influência desproporcional dos países que emergiram vitoriosos do conflito. Leia mais (09/16/2026 - 23h00)

É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Podemos esperar mais drama, e não surpresas, quando o presidente Lula discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU , em Nova York, na próxima terça-feira (22). O americano Donald Trump deve, mais uma vez, partir para o ataque contra a instituição anfitriã que tanto contribuiu para consolidar o poder dos Estados Unidos no pós-guerra e ainda reflete a influência desproporcional dos países que emergiram vitoriosos do conflito.
Lula deve salpicar sua fala com a palavra soberania e defender a reforma do Conselho de Segurança da ONU, composto de EUA, China, Rússia, França e Reino Unido. Os três mais poderosos membros do Conselho —EUA, China e Rússia— estão entre os maiores caloteiros da instituição, embora o governo americano tenha enviado um cheque de US $725 milhões nesta quarta (16), reduzindo sua dívida para US$ 1,31 bilhão.
Cortes de despesas não resolveram a crise financeira da ONU, mas é difícil precificar a crise de legitimidade do único organismo global de cooperação em guerra e paz. Fundada sobre o choque com os horrores da 2ª Guerra Mundial, a ONU atravessa 2026 impotente diante dos conflitos na Ucrânia , no Oriente Médio e no Sudão .

Sucessivos governos americanos não se abstiveram de brandir o poder de veto, aliado ao peso econômico e militar do país, mas não atacavam a autenticidade dos princípios da ordem internacional que inspiraram a criação da ONU.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Em fevereiro de 2003, testemunhei a chegada do general Colin Powell, então secretário de Estado de George W. Bush, para fazer a histórica apresentação ao Conselho de Segurança, em que dizia ter provas de que o Iraque estava fabricando armas de destruição em massa, o argumento pela invasão do país, seis semanas depois. Rússia, China e França não se convenceram, mas, nos corredores, era palpável o senso de inevitabilidade da guerra. Powell morreu envergonhado de ter usado, num fórum global, o que chamou de provas falsas fornecidas por órgãos de inteligência.
Mesmo o ex-presidente Joe Biden , um democrata à esquerda de seus antecessores, usou o poder de veto e blindou Israel durante a invasão de Gaza, bloqueando sucessivas propostas de cessar-fogo, e o mundo assistiu impotente às atrocidades contra civis palestinos.
O Partido Republicano que elegeu e reelegeu Trump trabalhou metodicamente para retirar apoio e financiamento a organismos como a Organização Mundial de Saúde e a Unesco em nome de uma vaga agenda antiglobalista que se estende também à microgerência, como insistir em banir a palavra "diversidade" de documentos, ações que nada têm a ver com políticas globais.
O poderoso vice-chefe de gabinete da Casa Branca Stephen Miller, que um ex-assessor militar de Trump apelidou de Rasputin, definiu como o chefe vê o papel dos EUA no mundo. Questionado na CNN logo após a invasão da Venezuela, Miller disse que podemos falar à vontade sobre formalidades, mas o mundo real "é governado pela coerção."
Ao abrir mão da influência sobre a manutenção da estabilidade global, o trumpismo ignora o quanto se beneficiou —a baixo custo— de seu poder na ONU e dá sinais de distância do público. Em julho passado, o Instituto Gallup registrou que apenas 27% dos americanos expressam confiança nas instituições do país como a Presidência e a Suprema Corte. E a imagem da ONU? O Pew Research Center apurou, em agosto, que 54% dos adultos nos EUA confiam na organização.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lucia-guimaraes/2026/09/aos-81-anos-onu-atravessa-sua-maior-crise-existencial.shtml.

Sessão da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York - Zhang Fengguo - 8.set.26/Xinhua · Zhang Fengguo - 8.set.26/Xinhua — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

