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    Ao perturbar os gregos, Helena de Troia incitou todos eles à união nacional

    Menos de dois meses depois de estrear, a "Odisseia" já arrecadou US$ 1,5 bilhão nas bilheterias do mundo. Com três horas de duração, tornou-se o filme para maiores de 17 anos -no Brasil, 14? mais visto na história do cinema . Custou US$ 250 milhões e, prevê-se, irá faturar US$ 2 bilhões. Leia mais (09/04/2026 - 16h40)

    Folha de S.Paulo
    4 de setembro de 2026 às 19:40
    Ao perturbar os gregos, Helena de Troia incitou todos eles à união nacional
    Uma mulher de costas e com uma veste leve é desenhada em linhas de curvas sensuais.  — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto"

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    Bruna Barros/Folhapress · Bruna Barros/Folhapress
    Bruna Barros/Folhapress · Bruna Barros/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Menos de dois meses depois de estrear, a "Odisseia" já arrecadou US$ 1,5 bilhão nas bilheterias do mundo. Com três horas de duração, tornou-se o filme para maiores de 17 anos —no Brasil, 14– mais visto na história do cinema . Custou US$ 250 milhões e, prevê-se, irá faturar US$ 2 bilhões.

    O filme é um fenômeno pop. Apoia-se em efeitos especiais de ponta, dramaturgia retumbante, elenco de deidades hollywoodianas, marketing da indústria cultural. Embora seja um produto para o mercado global, não se resume a comércio puro e duro. Sua gênese está num poema de 3.000 anos, feito numa língua morta, desconhecida dos mortais.

    Mas conhecida por Emily Wilson, classicista inglesa de 54 anos, professora da Universidade da Pensilvânia e primeira mulher a transpor a "Odisseia" para o inglês. O diretor Christopher Nolan disse que o primeiro verso da tradução —"fale-me sobre um homem complicado, musa"— lhe serviu de inspiração.

    'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero
    'A Odisseia' é adaptação épica para texto de Homero — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como o poema não tem diálogos nem o filme narrador, a influência da tradução, na prática, foi nula. Enquanto a versão de Emily Wilson arrebata pelo vigor pulsante, o texto de Nolan só deixa de ser pedestre quando soçobra na mediocridade. Ao anunciar o retorno de Ulisses a Ítaca, por exemplo, Telêmaco festeja: "‘Daddy’ está voltando para casa". É ridículo.

    Ainda assim, o filme impulsionou o livro, que bateu a marca de 1 milhão de exemplares vendidos. Emily Wilson não agradeceu a colher de chá de Nolan à sua tradução. Escreveu uma interminável resenha na London Review of Books estraçalhando o filme. O afluxo de leitores ao site da publicação foi tão grande que ele colapsou e saiu do ar.

    A professora é pop. Tatuagens lhe descem pelos braços, um com motivos da "Odisseia" e outro da "Ilíada". Ela observa na resenha que o filme chama os escravos de servos; compara-o a "O Senhor dos Anéis" e "Game of Thrones"; chama Agamemnon de Darth Vader.

    Veja obras de arte que retratam passagens da 'Odisseia', de Homero
    Veja obras de arte que retratam passagens da 'Odisseia', de Homero — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Conta que seus filhos adolescentes se divertiram com o show, "uma queima de fogos de artifício no Quatro de Julho, com a mesma profundidade narrativa e emocional". Reclamou da ausência de cenas de sexo e do aspecto horrível da comida. Foi ferina e maldosa.

    Informa que a "xênia" designava relações idealizadas entre estranhos, que deveriam se tratar com respeito. Nolan a chama de Lei de Zeus e a transforma em caridade filantrópica: "Os ricos devem ser generosos com os pobres e famintos, sem nada fazer para mitigar sua pobreza". Por fim, o filme se apieda de Ulisses, o saqueador de Troia, não de suas vítimas.

    Uma semana depois, Emily Wilson fez algo bizarro: divulgou um comunicado anunciando que retraduziria a "Odisseia". Ora, ela escrevera, mais de uma vez, que obras da Antiguidade só deveriam receber nova versão depois de um longo período, quando uma abordagem distinta se impusesse. E sua festejada tradução da "Odisseia" havia sido publicada ontem, em 2017. O que houve? Trocou a coxia pela ribalta e passou a ver-se como uma celebridade?

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O afinco em aparecer não parou aí. Aproveitou o lançamento do filme para lançar "Crossing the Wine-Dark Sea: Journeys Through Ancient Literature" —atravessando o mar vinho-rubro: viagens pela literatura antiga.

    Com 13 ensaios sobre a Antiguidade greco-latina, o livro é uma introdução de alto nível a obras criadas há milhares de anos, num tempo sobre o qual pouco se sabe ao certo, exceto ser muito diferente da atualidade. Para ela, as novas traduções e edições deveriam se ater ao espírito do passado, ao mesmo tempo em que evidenciem os pontos de contato com o presente.

    Nesse sentido, o ensaio sobre Helena de Troia é formidável. Filha de Zeus e de uma mortal, Leda, Helena é uma diva de destaque na mitologia, dando o ar da graça em Homero, Eurípides, Hesíodo, Virgílio e Ovídio. Casou-se com o rei de Esparta, Menelau, e foi conduzida a Troia pelo príncipe Páris. Os gregos foram buscá-la e ficaram dez anos em guerra.

    Seu grande mistério é o seguinte: ela foi sequestrada por Páris ou o acompanhou porque estava apaixonada? Era uma vítima ou uma vadia? Como Capitu —suspeita pelo marido, Bentinho, de traí-lo com Escobar—, o adultério, ou não, de Helena depende de quem narra sua história.

    Helena é um mito maior que sua ambiguidade. "Hellas" é o nome oficial da Grécia , tanto no idioma de Homero como no atual. Significa terra helênica, dos helenos. "Ela é importante não como pessoa ou mesmo como objeto erótico", escreve Emily Wilson.

    Ao perturbar e inflamar os gregos, Helena os incitou à união nacional.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2026/09/ao-perturbar-os-gregos-helena-os-incitou-a-uniao-nacional.shtml.

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