Ao menos 43 empresas deixaram o Brasil nos últimos 11 anos
Lista tem 16 norte norte-americanas, 6 britânicas e 4 japonesas; companhias citam reestruturações, concorrência e condições da economia

Lista tem 16 norte norte-americanas, 6 britânicas e 4 japonesas; companhias citam reestruturações, concorrência e condições da economia
Pelo menos 43 empresas ou grupos empresariais estrangeiros deixaram o país nos últimos 11 anos e meio. A lista inclui companhias dos setores automobilístico, de alimentação, eletrônicos, varejo de beleza e moda, medicamentos e até mesmo cimento, louças e metais.
O levantamento realizado pelo Poder360 considera empresas que encerraram a produção, fecharam fábricas ou venderam seus negócios no país de maio de 2015 a setembro de 2026.

Negócios dos EUA lideram as saídas no período. Ao todo, foram 16 retiradas de empresas norte-americanas. Britânicos têm 6, seguidos por japoneses (4), alemães (3) e franceses (3). Companhias de Espanha, Colômbia e Suíça registraram duas saídas cada. China, Holanda, Índia, Israel e México têm uma saída cada.
Os motivos que levam às saídas são variados. Na maioria das vezes, as companhias justificam a decisão como parte de uma reestruturação global, revisões de portfólio ou mudanças de estratégia de negócios.
Houve também episódios em que prejuízos e problemas financeiros das próprias companhias foram decisivos, assim como crises globais que impactaram determinados mercados e comportamentos de consumo de maneira mais abrangente.

Dezessete das saídas, por exemplo, foram no período em que o país enfrentava a pandemia de covid-19, que prejudicou a economia nacional como um todo de forma mais severa.
Mas há casos em que as condições do mercado e da economia brasileira pesaram para os desinvestimentos. Nos últimos anos, empresas associaram o abandono do mercado brasileiro a altos impostos e custos de importação, riscos na economia local, Custo Brasil e preço do dólar.
Em contrapartida, houve episódios em que as empresas encontraram no mercado brasileiro forte concorrência, alto nível de atividade econômica e até mesmo comportamentos de consumo distintos dos seus países de origem.
Apesar de as empresas evitarem críticas diretas ao país ou associar as saídas exclusivamente à economia brasileira, houve casos em que as condições econômicas do país foram determinantes.
Um episódio simbólico é a saída da Ford , em 2021, que levantou debates sobre a alta e complexa carga tributária e os custos de logística no país. Na ocasião, a montadora citou o ambiente econômico desfavorável e os efeitos negativos da pandemia na economia brasileira.
A Mercedes-Benz já havia seguido uma lógica semelhante ao deixar o país no ano anterior . A montadora alemã enfrentou queda nas vendas e atribuiu sua saída à situação econômica do país. Na ocasião, a alta do dólar também pesou.
No segmento de cosméticos, a britânica Lush foi uma das que criticou abertamente o Brasil ao deixar o país pela 2ª vez, em 2018. “Apesar do crescente aumento de vendas, a alta carga tributária e a prolongada recessão econômica, somados à instabilidade política, tornou impossível à Lush continuar investindo e lucrar no país” , disse a empresa à época.
Empresas como a Sony , que deixou o Brasil em 2020, e a Holcim , gigante do setor de cimento que foi embora do país em 2021, foram mais sutis nas suas saídas. A fabricante de eletrônicos japonesa disse ter considerado o “ambiente de mercado e as perspectivas para os negócios no Brasil naquele momento” .
Já a companhia franco-suíça de cimento, ao vender seu negócio para a CSN , falou em se “concentrar em países com moeda forte e mais rentabilidade”.
A startup de venda de ingressos online Eventbrite criticou a regulação brasileira quando encerrou sua operação no país, em dezembro de 2025. “O cenário regulatório em constante mudança no Brasil afetou a capacidade da Eventbrite de entregar a experiência fluida que se espera da plataforma” , disse a empresa.
O economista Samuel Pessôa , pesquisador do BTG Pactual e da FGV, afirma que a decisão de uma empresa deixar o Brasil costuma levar em conta uma soma de fatores. Ele cita como exemplos um “ pacote ” que inclui juros elevados do país, alto custo de capital, legislação trabalhista com alto nível de litigância e complexidade tributária.
Ao analisar o sistema de impostos que afasta as empresas do Brasil, Pessôa avalia que a reforma tributária tem potencial de melhorar o cenário no país a partir de 2030.
“A reforma tributária é um bom fator. Quando ela tiver plenamente operando, menos empresas sairão e acho que empresas virão para cá. Fazer negócio no Brasil ficará muito melhor” , disse o economista ao Poder360 .
Em linha com o que vem defendendo o setor produtivo, Pessôa entende que próximo governo precisará “atacar” principalmente os juros elevados e a baixa taxa de crescimento da produtividade de trabalho: “É essa agenda que vai fazer o Brasil ficar mais interessante para investimento”.
Empresas norte-americanas como Walmart , Forever 21 e Glovo encontraram no Brasil condições diferentes das que esperavam.
A gigante do varejo, por exemplo, teve de enfrentar forte concorrência do mercado varejista local e dos hipermercados, já estabelecidos na cultura de consumo dos brasileiros.
Além disso, o Walmart não conseguiu emplacar no Brasil sua abordagem “preço baixo todo dia” . “O brasileiro gosta de promoções e nunca entendeu a estratégia” , disse à época a companhia, que acabou vendendo seus negócios para um fundo em 2019.
A Forever 21 é outro exemplo de varejista norte-americana que não conseguiu engrenar no Brasil. Conhecida pelos preços baixos nos EUA e na Europa, a marca enfrentou impostos altos e custos de importação e infraestrutura que encareceram seu produto no país.
A loja também não teve sucesso em dar escala ao seu modelo fast fashion , além de ter enfrentado forte concorrência das chinesas Shein e Shoppee. Saiu do Brasil em 2022 , depois de 8 anos.
Já a startup espanhola de entregas Glovo encontrou no país um setor mais concorrido do que imaginava. Depois de apenas 1 ano no país, decidiu sair em 2019. Justificou dizendo que o mercado brasileiro é extremamente competitivo e que, para obter o sucesso planejado originalmente, precisaria de mais investimento e tempo.
Apesar das saídas, as empresas ainda mantêm seus produtos e serviços no mercado brasileiro por meio de importações e estoques. Dos 43 casos levantados pela reportagem, ainda é possível acessar os produtos de 16 empresas no país.
Há ainda alguns casos em que as saídas foram por venda ou transferência de controle dos grupos empresariais. Além da Holcim e do Walmart, a marca de bebidas japonesa Kirin , ex-dona da Schin , vendeu seus negócios no Brasil para a Heineken em 2017, e a norte-americana AES, do setor de energia elétrica, foi vendida para a Auren Energia em 2024.
Um dos casos mais recentes é o da norte-americana General Mills , que concluiu em 3 de setembro a venda das suas operações para o grupo 3Corações , por R$ 800 milhões.
O negócio inclui as marcas locais Yoki e Kitano, mas deixa de fora a marca de sorvetes Häagen-Dazs, que também pertence à empresa norte-americana e deixará de ser distribuída no Brasil depois de quase 30 anos.
Publicado originalmente por Poder360. Leia a matéria completa em https://www.poder360.com.br/poder-economia/ao-menos-43-empresas-deixaram-o-brasil-nos-ultimos-11-anos/.

Na maioria das vezes, as companhias justificam a decisão como parte de uma reestruturação global, revisões de portfólio ou mudanças de estratégia de negócios — Foto: Poder360
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