Ao atacar CNBB, Flávio Bolsonaro abre mão de disputar o católico indeciso
A reação de Flávio Bolsonaro no último domingo (27), ao acusar setores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de atuarem em conluio com o PT na disseminação da notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida, revela que sua campanha entrou no modo redução de danos. Leia mais (09/28/2026 - 16h57)

Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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A reação de Flávio Bolsonaro no último domingo (27), ao acusar setores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de atuarem em conluio com o PT na disseminação da notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida, revela que sua campanha entrou no modo redução de danos.
Segundo relatório do Instituto Democracia em Xeque , a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida acumulou 977,6 mil publicações e 8,5 milhões de interações em cerca de 55 horas. Foi o terceiro maior volume de menções entre os eventos políticos de 2026 monitorados pelo instituto. O tema dominou o noticiário no fim de semana e, mais importante ainda, criou engajamento e mobilização em uma parcela da população que ainda não estava pensando nas eleições .
Nas primeiras 48 horas da polêmica, Flávio permaneceu na defensiva, negando o boato e reafirmando que não havia qualquer plano de destronar Nossa Senhora Aparecida do lugar de padroeira do Brasil . Para fazer isso, sua campanha mapeou as redes de disseminação da notícia falsa que motivou a controvérsia e insistiu no argumento.

No domingo, no entanto, faltando apenas uma semana para a eleição, essa estratégia foi abandonada e o candidato deu um passo além. Foi para cima da própria CNBB , acusando "gente de dentro" da conferência de ter ajudado o PT na disseminação da história. A CNBB reagiu horas depois, negou participação na produção ou circulação de desinformação e respondeu que "a mentira não se combate com outra mentira".
Ao abrir uma nova frente com a CNBB, Flávio deu a indicação de que sua campanha está lendo o voto católico como já cristalizado nesta reta final.
A acusação à CNBB funciona a partir de uma retórica cifrada, que faz sentido no bolsonarismo , mas cuja repercussão fora dele é mais difícil. A fala do candidato ressoa para setores católicos que já desconfiam da CNBB e fazem imediatamente a associação entre episcopado, esquerda e Teologia da Libertação . Para esse público, as entrelinhas são perfeitamente legíveis.
Mas isso não se aplica ao católico que não estava com o voto convicto em ninguém. A história de Nossa Senhora alcançou esse eleitor de maneira muito mais direta, porque mobiliza um símbolo religioso elementar, reconhecível e afetivamente carregado. Já o ataque à CNBB exige um repertório prévio. É preciso saber o que está sendo dito sem que seja dito explicitamente.
Não faltam católicos conservadores próximos a Flávio Bolsonaro e ao PL para quem a acusação à CNBB encontra ressonância. Mas essa é uma conversa muito mais interna ao catolicismo politizado.
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Por isso, ao escolher responder à crise abrindo uma divergência dentro do próprio catolicismo, Flávio parece ter optado por consolidar os setores que já compreendem essa linguagem, em vez de disputar o público católico mais amplo que a notícia alcançou.
Talvez sua campanha esteja operando com a hipótese de que já chegou perto do teto entre os católicos. A atitude soa precipitada, mas agora já está feita e Flávio Bolsonaro passou a falar apenas com os católicos que dominam o idioma bolsonarista.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-toniol/2026/09/ao-atacar-cnbb-flavio-bolsonaro-abre-mao-de-disputar-o-catolico-indeciso.shtml.

Flávio Bolsonaro segura uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida em visita ao Mercado Municipal de São Paulo, na região central da cidade, nesta segunda-feira (28) - Bruno Santos/Folhapress · Bruno Santos/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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