Anarquia que corrói STF não vai acabar antes da eleição
Disputas recentes entre magistrados do Supremo revelam politização galopante da corte

Editor da Ilustríssima, formado em administração de empresas com mestrado em comunicação pela UFRJ. Foi editor de Opinião da Folha
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Instaurou-se a anarquia no Supremo Tribunal Federal, que caminha em ritmo acelerado de politização, sem disfarçar motivações eleitorais, na direção de um muro. A situação já seria bastante complexa com os enfrentamentos recentes entre duas alas de magistrados, mas há evidências que ampliam o quadro de enfermidade institucional.
São inquietantes, para dizer o mínimo, os sinais de que ministros usufruem de relações e vantagens que deixam no ar desconfianças acerca de busca por enriquecimento pessoal. Embora seja o mais rumoroso dos desvios, o envolvimento de integrantes da corte, familiares e pessoas próximas com os interesses de Daniel Vorcaro, do Banco Master , não é o único caso de falência moral no topo da Justiça.
Situações aparentemente menores, mas muito relevantes, vêm forjando um novo normal promíscuo na esfera pública. No Supremo, tornou-se corriqueiro aceitar favores duvidosos, viajar em jatinhos, frequentar festinhas e divertir-se às custas de empresários com causas a julgar —para não falar do subterfúgio da advocacia familiar paralela.

Oito ministros têm parentes advogados com processos na própria corte. Que padrão ético se deve exigir de magistrados que detêm tanto poder e dão a palavra final sobre interesses políticos e econômicos bilionários?
Há ainda um problema estrutural. O desenho institucional concentrou enorme poder nas mãos de 11 pessoas que nem sempre atuam de forma colegiada. Decisões monocráticas produzem consequências para todo o país, enquanto a judicialização da política embaralha direito, poder e interesses eleitorais.
Tudo somado, rivalidades egoicas, politização aberta e indícios de corrupção ética compõem um cenário preocupante. Como colocar ordem numa corte em que a fragilidade de princípios, os casuísmos e a falta de espírito público conspiram para sua implosão?

Edson Fachin tentou fazer de um código de ética uma das marcas de sua presidência. A proposta encontrou resistência, e a guerra interna praticamente a inviabilizou. O Supremo não quer estabelecer regras de conduta mais claras para si mesmo.
Seja qual for o presidente eleito, a instituição será submetida a pressões por mudanças. Lula já se posicionou a favor de mandatos para ministros e de uma alteração no sistema de indicações, com a participação de um colegiado.
A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha
Flávio Bolsonaro terá poder considerável para realizar a fantasia autoritária de subjugar a corte. O próximo presidente poderá indicar os substitutos de Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes . Há ainda a vaga deixada por Barroso : Lula indicou Jorge Messias, mas o Senado rejeitou o nome . Se a cadeira permanecer sem dono, o vencedor da eleição poderá indicar 4 dos 11 ministros.
Há ainda a discussão sobre a possibilidade de o Senado debater o impeachment de magistrados. Alexandre de Moraes , que condenou Jair Bolsonaro acertadamente, mas se viu no meio de um escândalo com Vorcaro, é forte candidato. É uma questão política que ronda uma instituição com telhados de vidro.
O STF precisa de mudanças que reduzam poderes individuais, estabeleçam padrões éticos sólidos e contribuam para firmar uma credibilidade que derrete à luz do dia. Antes da decisão eleitoral, parece impossível enfrentar esse quadro de descontrole.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcosaugustogoncalves/2026/09/anarquia-que-corroi-stf-nao-vai-acabar-antes-da-eleicao.shtml.

Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Edson Fachin - Pedro Ladeira - 12.ago.26/Folhapress · Pedro Ladeira - 12.ago.26/Folhapress — Foto: UOL
Compartilhe
Espalhe essa notícia

