Ampliar o alcance da Lei Maria da Penha é oportunismo do STF
Mulheres adultas brigam e processam vizinhos, sem precisar que o Estado as trate como incapazes

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Não tenho a menor dúvida sobre qual lado estou: sempre o das mulheres. A parte mais difícil é manter o bom senso, a lucidez e não engolir oportunismo barato mesmo quando ele vem carimbado de boas intenções. Foi o que o STF fez ao ampliar o escopo da cobertura da Lei Maria da Penha . Uma decisão recebida com festa, mas um baita equívoco. Ao transformar uma lei pensada para asfixiar a violência íntima num guarda-chuva genérico contra qualquer atrito cotidiano, a corte desidrata a proteção de quem realmente precisa dela para não morrer.

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A raiz do problema é o clássico movimento de pêndulo do Judiciário brasileiro: para corrigir uma decisão míope e insensível na origem, cria-se uma tese genérica que desvirtua a lei e produz um espantalho. O caso nasceu em Minas Gerais, onde uma mulher relatou perseguições e ameaças de morte feitas por um vizinho. O TJ-MG, apegado a um formalismo tacanho, negou medidas protetivas alegando que não havia relação íntima entre as partes. Errou o tribunal estadual ao ignorar a gravidade da violência real, que exigia a resposta imediata por meio de instrumentos que o Código Penal e a lei contra o stalking já previam. Mas, para reparar a omissão mineira, o STF acionou o pêndulo e preferiu esticar a Maria da Penha até transformá-la num elástico disforme.
A Maria da Penha é um marco civilizatório porque foi desenhada para romper um ciclo específico: a violência que acontece no silêncio do lar, alimentada pela dependência econômica, pela chantagem emocional e pelo histórico de intimidade. Com a decisão do STF, as medidas poderão ser concedidas em situações ocorridas fora do ambiente doméstico, "desde que a violência seja motivada pelo gênero da vítima". Mais genérico e vago impossível.

Equiparar o inferno da violência doméstica com desavenças cotidianas de vizinhança desidrata a força do instituto, infantiliza a mulher, como se qualquer atrito com um homem fosse obrigatoriamente fruto de menosprezo estrutural de gênero. Mulheres adultas brigam, discordam e processam vizinhos na esfera civil e penal comum, sem precisar que o Estado as trate como incapazes tuteladas.
Para além do desvio conceitual, há a realidade nua e crua. O sistema simplesmente não suporta essa farra de competências. A imensa maioria dos municípios brasileiros nem sequer tem uma delegacia da mulher. Onde elas existem, funcionam no limite do colapso, com o efetivo defasado, escassez de gente capacitada para acolhimento, falta de viaturas até para intimidar agressores, quanto mais para monitorar o comprimento de medidas protetivas. O resultado prático já é trágico hoje. Papéis assinados por juízes que viram peças de ficção, enquanto mulheres são assassinadas com medidas protetivas na mão.
É óbvio que a intenção do STF não é que a lei passe a arbitrar picuinha de condomínio. Mas ao abrir mão do rigor e criar um conceito aberto demais, o tribunal entrega um instrumento perfeito para que possa ser usado também para isso. O resultado prático é que se desvia um aparato que já opera no osso para resolver atrito de corredor.
O perigo dessa distorção é visível também na política. A lei contra esse tipo de violência de gênero nasceu para coibir abusos reais, ameaças à integridade física, difamação sexual e intimidação misógina. No entanto, vem sendo usada com frequência como salvo-conduto para blindar parlamentares do escrutínio público e do embate legítimo de ideias. O plenário é, por natureza, um ambiente áspero e de fricção.
Transformar a cobrança contundente da oposição ou uma discordância programática dura em crime contra a mulher, cria uma blindagem indevida e passa a mensagem de que somos frágeis demais para o jogo democrático.
Defender as mulheres exige seriedade, orçamento e foco. Precisamos de delegacias estruturadas, policiais treinados e fiscalização rigorosa para fazer cumprir o que a lei já prevê antes que o pior aconteça. Transformar a Maria da Penha em síndica de condomínio não deixará a convivência em sociedade mais civilizada.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/08/ampliar-o-alcance-da-lei-maria-da-penha-e-oportunismo-do-stf.shtml.

Protesto em São Paulo contra o aumento dos casos de feminicídio - Bruno Santos - 7.dez.25/Folhapress · Bruno Santos - 7.dez.25/Folhapress — Foto: UOL
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