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    América Latina ganha peso na disputa global entre China e EUA

    China amplia presença econômica e política na América Latina enquanto Donald Trump reforça estratégia de domínio do Hemisfério Ocidental

    Metrópoles
    20 de agosto de 2026 às 07:30
    América Latina ganha peso na disputa global entre China e EUA
    Foto: Metrópoles

    A América Latina voltou a ocupar um espaço estratégico na disputa por influência entre China e Estados Unidos . Em meio ao avanço da presença econômica chinesa na região e à tentativa de Donald Trump de reafirmar o domínio norte-americano sobre o Hemisfério Ocidental, Pequim reforçou, na terça-feira (18/8), o discurso de que os países latino-americanos devem ter liberdade para definir suas próprias alianças.

    Ao receber o presidente do Equador, Daniel Noboa, em Pequim, o líder chinês, Xi Jinping, afirmou que “o desenvolvimento e a revitalização dos países latino-americanos e caribenhos não devem ser interrompidos” e que o direito de escolher parceiros de cooperação “não deve ser violado”.

    A declaração ocorre em um momento em que comércio, infraestrutura, minerais estratégicos e tecnologia transformam a América Latina em uma das principais frentes da crescente rivalidade entre as duas potências.

    VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto
    VINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    “O desenvolvimento e a revitalização dos países latino-americanos e caribenhos não devem ser interrompidos, e o direito desses países de escolherem seus parceiros de cooperação de forma independente não deve ser violado”, disse o líder do Partido Comunista Chinês.

    A disputa já não se limita à tradicional rivalidade comercial entre as duas maiores economias do mundo.

    Portos, redes de telecomunicações, projetos de energia, exploração mineral, infraestrutura logística e tecnologias consideradas estratégicas passaram a integrar o tabuleiro geopolítico.

    Presidentes Lula (Brasil) e Xi Jinping (China) assinam 37 acordos bilaterais. Declaração conjunta abre crise com Taiwan Metropoles
    Presidentes Lula (Brasil) e Xi Jinping (China) assinam 37 acordos bilaterais. Declaração conjunta abre crise com Taiwan Metropoles — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Na avaliação de Allan Gallo, professor de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH), a competição atual se diferencia da rivalidade ideológica do século 20.

    Segundo ele, a disputa passou a envolver principalmente “infraestrutura, cadeias de suprimento e padrões técnicos”, em outras palavras, quem controla ou opera estruturas essenciais para transportar mercadorias, transmitir dados e acessar recursos naturais.

    “A competição avança sobre instalações construídas para mover contêineres, transmitir dados ou extrair minerais, sem necessariamente envolver bases militares”, explicou ao Metrópoles . EUA reforça discurso de domínio Enquanto Pequim defende publicamente a autonomia dos países latino-americanos para escolher seus parceiros, o governo de Donald Trump vem recuperando uma linguagem mais assertiva sobre a posição dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. Na última semana, o Departamento de Estado norte-americano divulgou um vídeo afirmando que o domínio dos EUA sobre as Américas “nunca mais será questionado”. A postura se soma a declarações e medidas do governo Trump que recolocaram a Doutrina Monroe no centro da política externa americana. Recentemente, o método norte-americano deixou de parecer apenas retórico e passou a se apresentar como coerção direta. Leia também Mundo China se opõe à interferência externa no Brasil, diz Xi Jinping a Lula Mundo Xi defende “independência e autossuficiência” da América Latina Mundo Tarifaço: China pede para entrar em ação do Brasil contra EUA na OMC Mundo Governo Trump acusa Brasil de ajudar China a burlar tarifas dos EUA China amplia presença na região A estratégia chinesa na América Latina ganhou força, especialmente a partir da década de 2010, quando Pequim passou a ocupar espaços em investimentos e financiamento de infraestrutura.

    América Latina ganha peso na disputa global entre China e EUA - destaque galeria
    América Latina ganha peso na disputa global entre China e EUA - destaque galeria — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Durante a visita de Noboa, China e Equador reforçaram a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, conhecida como Nova Rota da Seda. Xi defendeu a implementação de projetos conjuntos em setores como energia, minerais, infraestrutura e finanças, além da ampliação da cooperação em economia digital, desenvolvimento verde, novas energias e inteligência artificial.

    Para Gallo, a expansão chinesa ocorreu inicialmente em um contexto no qual havia uma demanda latino-americana por investimentos que não estava sendo atendida por outras potências.

    “A expansão chinesa dos anos 2010 preencheu um vazio de financiamento de infraestrutura que ninguém mais queria bancar”, disse.

    China se opõe à interferência externa no Brasil, diz Xi Jinping a Lula
    China se opõe à interferência externa no Brasil, diz Xi Jinping a Lula — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Segundo o professor, a China já responde por cerca de 13% das exportações e 22% das importações da região e superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial da América do Sul.

    A diferença, segundo ele, está também na forma de atuação. “Os EUA voltaram oferecendo pressão e condicionalidade, enquanto a China continua oferecendo capital e velocidade.”

    O professor avalia que, enquanto essa diferença permanecer, Pequim não precisa necessariamente ampliar agressivamente sua presença. “A China não precisa avançar, basta não recuar”, afirmou.

    Trump e Xi Jinping
    Trump e Xi Jinping — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    China se opõe à interferência externa no Brasil, diz Xi Jinping a Lula

    A política comercial de Trump tornou-se uma das principais ferramentas de pressão sobre países latino-americanos.

    O Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 27 de julho para contestar sobretaxas impostas pelos Estados Unidos. O processo questiona duas medidas: uma tarifa adicional de 25%, estabelecida após investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), e outra sobretaxa de 12,5%, relacionada a uma investigação sobre suposto uso de trabalho forçado.

    Somadas, as medidas podem elevar a tarifa sobre determinados produtos brasileiros a até 37,5%.

    Washington já aceitou o pedido brasileiro para iniciar consultas na OMC e informou estar disponível para discutir o tema com representantes de Brasília. Ainda não há, porém, uma data definida para as conversas.

    A disputa ganhou uma dimensão adicional com a decisão da China de solicitar participação nas consultas entre Brasil e Estados Unidos.

    Em documento enviado à OMC, Pequim afirmou ter “interesse comercial substancial” no caso. O governo chinês argumentou que medidas americanas relacionadas à investigação sobre trabalho forçado também atingem produtos de origem chinesa vendidos nos Estados Unidos.

    Pelas regras da OMC, países que demonstrarem interesse comercial substancial podem solicitar participação nas consultas de uma disputa. A entrada da China, contudo, depende da aceitação de Brasil e Estados Unidos.

    Em documento divulgado pela Casa Branca, Washington classificou o Brasil, além de Argentina, Chile, Colômbia e Peru, como parte dos chamados “corredores latino-americanos” de uma suposta rede de triangulação de produtos chineses.

    Segundo os Estados Unidos, o Brasil seria uma “plataforma regional de produção e logística de maior porte”, capaz de facilitar o redirecionamento de fluxos comerciais ou a transformação de produtos em determinadas categorias.

    A China, por sua vez, está submetida a uma tarifa americana de 50% sobre determinadas importações. O Brasil também está entre os países submetidos a uma das maiores cargas tarifárias impostas pela administração Trump.

    Para Vitor de Pieri, professor e especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a importância adquirida pela América Latina precisa ser compreendida dentro de uma transformação mais ampla da ordem internacional.

    “Estamos diante de uma transição de um sistema fortemente marcado pela primazia norte-americana para uma configuração mais multipolar, na qual a China se consolidou como um dos principais polos econômicos, tecnológicos e políticos do mundo”, afirmou.

    Nesse cenário, a região deixa de ser vista apenas como fornecedora de matérias-primas e passa a ocupar posição estratégica nas cadeias globais de alimentos, energia, minerais críticos, infraestrutura, logística, tecnologia e transição energética.

    O especialista, porém, ressalta que Pequim apresenta oficialmente sua política para a América Latina não como uma estratégia de confronto com Washington, mas sob os conceitos de cooperação Sul-Sul, multipolaridade, soberania e não intervenção.

    Isso não significa, segundo De Pieri, ausência de interesses estratégicos. A China precisa garantir mercados, fontes de energia, alimentos, minerais e espaço para suas empresas e cadeias produtivas. A diferença estaria nos instrumentos utilizados.

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    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/mundo/america-latina-china-eua.

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