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    Alemanha já discute se Merz tem futuro como primeiro-ministro

    Friedrich Merz está lendo "Magnifica Humanitas" (Humanidade Magnífica, na tradução do latim), a primeira encíclica do papa Leão 14 e um alerta para a marcha da inteligência artificial . O premiê alemão está em férias, dentro do que é possível chamar de férias no cargo, e suas leituras têm relativo interesse público. Ainda assim, a escolha mereceu comentários, não pelo conteúdo, mas pelo momento que vive o conservador. Leia mais (08/09/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de agosto de 2026 às 02:00
    Alemanha já discute se Merz tem futuro como primeiro-ministro
    Indivíduo em camiseta azul e boné branco fixa cartaz de campanha eleitoral em poste de rua com árvores ao fundo. Cartaz mostra imagem de boxeador com luvas vermelhas e texto em alemão relacionado a aposentadoria e política. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Friedrich Merz está lendo "Magnifica Humanitas" (Humanidade Magnífica, na tradução do latim), a primeira encíclica do papa Leão 14 e um alerta para a marcha da inteligência artificial . O premiê alemão está em férias, dentro do que é possível chamar de férias no cargo, e suas leituras têm relativo interesse público. Ainda assim, a escolha mereceu comentários, não pelo conteúdo, mas pelo momento que vive o conservador.

    Militante instala cartaz de campanha eleitoral em Berlim com ilustração de Friedrich Merz nocauteado por 'cortar pensões'; a cidade-estado realiza eleições em setembro - John MacDougall/AFP · John MacDougall/AFP
    Militante instala cartaz de campanha eleitoral em Berlim com ilustração de Friedrich Merz nocauteado por 'cortar pensões'; a cidade-estado realiza eleições em setembro - John MacDougall/AFP · John MacDougall/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há 15 meses no comando da maior economia da Europa , estagnada desde a pandemia, Merz soa como um desastre anunciado, a exemplo de seu objeto de leitura. Está com a popularidade no chão , com 83% dos alemães se dizendo insatisfeitos com seu trabalho, começa a lidar com sinais preocupantes de atrito dentro do próprio partido e patina nas reformas.

    Até quando as coisas parecem estar dando certo, algo acontece para atrapalhar. Uma complexa reforma da Previdência, gestada quase que por milagre por uma comissão de políticos e especialistas, caminhava para aprovação até entrar na mira de ministros-presidentes, o equivalente a governadores no país.

    O motivo é o fim da aposentadoria antecipada aos 63 anos, benefício desenhado para atender aqueles com muito tempo de contribuição. Um corte necessário para equilibrar as contas, segundo economistas, e justo, na argumentação do governo, porque o mecanismo estaria privilegiando mais o topo do que a base da pirâmide.

    Leif-Erik Holm, candidato favorito da AfD, lança sua campanha em Stralsund, em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, neste sábado (8) - Christian Mang/Reuters · Christian Mang/Reuters
    Leif-Erik Holm, candidato favorito da AfD, lança sua campanha em Stralsund, em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, neste sábado (8) - Christian Mang/Reuters · Christian Mang/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Faltou, porém, combinar com os eleitores do leste, dos estados que compunham a antiga Alemanha Oriental, até hoje com piores índices sociais . Em dois deles, Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, os partidos da coalizão de Merz devem ser engolidos pela AfD , a sigla de extrema direita do país, em eleições regionais em setembro.

    Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

    Segundo pesquisas de opinião, a margem de vitória, ao menos em Saxônia-Anhalt, seria suficiente para o partido assumir o poder do Parlamento estadual, fato inédito no pós-guerra e com evidentes implicações políticas. Uma delas, já tratada abertamente pela opinião pública alemã, é a possibilidade de precipitar uma queda do governo Merz.

    Homem fala ao microfone em palanque com cartaz de campanha ao fundo. Público observa, incluindo dois homens de costas, um com camiseta preta escrita "NORMAL IS BORING" em rosa.
    Homem fala ao microfone em palanque com cartaz de campanha ao fundo. Público observa, incluindo dois homens de costas, um com camiseta preta escrita "NORMAL IS BORING" em rosa. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mesmo uma vitória sem maioria da AfD seria problemática. Para superar a maior bancada do adversário, a CDU do primeiro-ministro teria de aceitar uma coalizão com a provável participação do partido A Esquerda, outra sigla que desponta nos levantamentos.

    Isso seria um dilema para os democratas-cristãos, que tratam a legenda como uma espécie de equivalente à esquerda da AfD. Por resolução interna, a CDU não cultiva relações parlamentares ou políticas com os dois partidos . No limite da situação, Merz e seus correligionários teriam de decidir entre o passo histórico de deixar acontecer um governo reacionário que ecoa o passado nazista ou suportar trabalhar com um opositor ideológico.

    Certamente entraria na equação o fato de que a sigla populista só cresce nas pesquisas, realizadas semanalmente no país, desde a eleição federal , em fevereiro de 2025.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo Manfred Güllner, diretor do Instituto Forsa, Merz chama a atenção por não contar com o chamado "bônus de primeiro-ministro", um determinado nível de apoio apenas pelo fato de ser premiê, fenômeno característico da política alemã nas últimas décadas.

    Ele não estaria conseguindo reter nem os eleitores tradicionais da CDU. "E, ao contrário do que alguns círculos conservadores afirmam, a maioria desses ex-eleitores não está migrando para a AfD, mas sim para o campo mais à esquerda ou para o grupo dos que se abstêm de votar", afirma o especialista, em uma análise do quadro eleitoral.

    Antes de sair de férias, Merz disse em entrevista à emissora pública ZDF que percebia uma "crise de confiança na democracia como um todo". Um crítico notou, contudo, que, das instituições importantes para a condução da República, a de primeiro-ministro era a única que tinha despencado na confiança da população, pelo menos na Alemanha.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesse atual estado de coisas em Berlim e emparedados pelas pesquisas, não foi difícil para os governadores decidirem se posicionar contra uma das poucas reformas que o premiê esperava entregar como contraponto ao resultado das eleições. Um movimento de consequências não apenas políticas.

    No Bundesrat, a Câmara Alta do país, os estados revisam legislações aprovadas no Bundestag, o Parlamento. Podem não apenas criticar o projeto, como vetá-lo. O eventual fogo amigo pode ampliar as fissuras do governo, expostas recentemente em uma reforma ministerial.

    A renovação do gabinete, provocada por um episódio pessoal, o uso de barriga de aluguel por Jens Spahn , ex-líder parlamentar da CDU que havia votado contra sua liberação, foi vendida por Merz como um ajuste de rota. Transformou-se em títulos antes raros na Alemanha: o jornal conservador Die Welt traçou quatro cenários "para a saída do premiê", enquanto a liberal Der Spiegel procurou detalhar a "revolta palaciana".

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    Ventila-se até o nome de um eventual substituto, Hendrik Wüst, governador da Renânia do Norte-Vestfália. Ao mesmo tempo, grande parte da insatisfação se concentra nos estados onde os democratas-cristãos estão ameaçados pela AfD, não configurando ainda um motim —situação cada vez mais comum na Europa, basta ver o exemplo eloquente do Reino Unido .

    Assustados com a situação, os sociais-democratas do SPD, que compõem a coalizão de governo com a CDU, já pedem moderação aos colegas.

    "Estou firmemente convencido de que Friedrich Merz continuará sendo primeiro-ministro", afirmou Markus Söder, governador da Baviera e líder da CSU, partido regional que trabalha em linha com a CDU. Até porque, disse o político à emissora pública ARD, a saída do premiê "levaria os conservadores ao caos total".

    Ao caos e provavelmente a uma nova eleição federal, em que a AfD formaria a maior bancada no Bundestag. Pelas últimas pesquisas, a sigla soma 28% das intenções de voto, contra 21% dos democratas-cristãos. Ou seja, ruim com Merz, talvez pior sem ele.

    Suas férias, se é que podem ser chamadas de férias, acabam ainda este mês.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/08/alemanha-ja-discute-se-merz-tem-futuro-como-primeiro-ministro.shtml.

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    Militante instala cartaz de campanha eleitoral em Berlim com ilustração de Friedrich Merz nocauteado por 'cortar pensões'; a cidade-estado realiza eleições em setembro - John MacDougall/AFP · John MacDougall/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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