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    Além do cansaço: acabar com a escala 6x1 é imperativo

    O único dia de folga do regime 6x1 é consumido na tentativa de compensar o déficit de sono e a fadiga, esvaziando o direito ao lazer

    Metrópoles
    9 de setembro de 2026 às 19:43
    Além do cansaço: acabar com a escala 6x1 é imperativo
    Foto: Metrópoles

    A alteração constitucional proposta pela PEC 221/2019 é uma urgência humanitária, sanitária e social. Do ponto de vista jurídico, a fixação do limite de 44 horas semanais no artigo 7º, XIII da Constituição Federal consagra teto máximo de prestação laboral, e não um piso mínimo.

    A ordem constitucional prioriza a dignidade da pessoa humana, o valor social do trabalho e a proteção à saúde. Rotinas exaustivas sem descanso adequado comprometem a recuperação do trabalhador. Na prática, o único dia de folga do regime 6×1 é consumido na tentativa de compensar o déficit de sono e a fadiga, esvaziando o direito ao lazer e à convivência familiar.

    As evidências epidemiológicas reforçam essa gravidade. Em 2025, o Brasil registrou cerca de 4 milhões de afastamentos do trabalho por acidentes e enfermidades ocupacionais.

    HUGO BARRETO/METRÓPOLES
    HUGO BARRETO/METRÓPOLES — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Destes, 546 mil ocorreram por transtornos mentais, recorde histórico impulsionado por ansiedade, depressão e Burnout, enquanto 445 mil referiram-se a lesões ergonômicas, como dorsalgias e hérnias. A escala 6×1 é incompatível com as Normas Regulamentadoras NR-1 (Princípio da Precaução) e NR-17 (Ergonomia), demonstrando que o cansaço acumulado é o principal preditor de acidentes graves.

    Sob a ótica de gênero, há também uma dimensão fundamental. A jornada de 44 horas baseou-se historicamente no modelo de provedor masculino sustentado pelo trabalho doméstico feminino não remunerado.

    Dados da Oxfam Brasil apontam que 90% do trabalho de cuidado no país é feito informalmente pelas famílias, das quais quase 85% são mulheres.

    Foto de Gláucio Araújo de Oliveira
    Foto de Gláucio Araújo de Oliveira — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    A escala 6×1 impõe uma sobrecarga de dupla jornada que limita a saúde e a carreira das trabalhadoras. A redução da jornada permite redistribuir esse cuidado e promove a inclusão de grupos minorizados.

    A infância e a juventude também são beneficiadas. Amparado no artigo 227 da Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o MPT ressalta que o descanso dos pais garante o direito à convivência familiar.

    Para os adolescentes trabalhadores, dados do IBGE (PNAD Contínua 2024) indicam que a frequência escolar cai de 97% no geral para 81,8% entre jovens de 16 e 17 anos ocupados, sendo que cerca de 30% trabalham mais de 40 horas semanais, inviabilizando os estudos.

    Carteira de trabalho, agência do trabalhador, escala 6x1
    Carteira de trabalho, agência do trabalhador, escala 6x1 — Foto: Metrópoles · Fonte: Metrópoles

    Além disso, a escala exaustiva induz fraudes, como a “pejotização” e o dumping social. A transição para escalas como 5×2 ou 4×3 eleva o valor do salário-hora e fortalece a arrecadação do FGTS e do INSS.

    Por fim, o artigo 8º do texto aprovado na Câmara dos Deputados retira os limites de jornada e o controle de ponto para profissionais com nível superior e salário a partir de 2,5 vezes o teto do Regime Geral de Previdência Social.

    Sustentamos que a alta qualificação não elimina a subordinação nem o risco de esgotamento e defendemos a manutenção de um núcleo mínimo indisponível de proteção à saúde e ao descanso.

    Em síntese, reafirmamos que a superação da escala 6×1 alinha o país às diretrizes do trabalho decente da Organização Internacional do Trabalho e consolida a dignidade humana como pilar do desenvolvimento social e econômico.

    Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/colunas/juris/alem-do-cansaco-acabar-com-a-escala-6x1-e-imperativo.

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