Além da guinada à direita: o que as pesquisas revelam sobre a democracia na América Latina
Quando os brasileiros forem às urnas neste domingo (4), votarão em uma América Latina que parece caminhar para a direita. Nos últimos dois anos, candidatos conservadores acumularam vitórias eleitorais na região. Duas pesquisas de opinião, porém, sugerem que há mais coisas acontecendo além desse rótulo. Leia mais (10/03/2026 - 14h59)

Historiadora e jornalista especializada em América Latina, foi correspondente da Folha em Londres e em Buenos Aires
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Quando os brasileiros forem às urnas neste domingo (4), votarão em uma América Latina que parece caminhar para a direita. Nos últimos dois anos, candidatos conservadores acumularam vitórias eleitorais na região. Duas pesquisas de opinião, porém, sugerem que há mais coisas acontecendo além desse rótulo.
O AmericasBarometer, levantamento do Lapop/Vanderbilt em 21 países da região, registra uma recuperação disseminada do apoio à democracia : cerca de dois terços dos entrevistados dizem preferi-la a qualquer outra forma de governo, seis pontos percentuais a mais do que em 2023.
O novo Latinobarómetro, realizado em 17 países e divulgado na última sexta-feira (2), também encontra sociedades que, embora insatisfeitas com suas instituições, não parecem dispostas a prescindir delas. Ou seja, o eleitor médio parece não fazer uma associação imediata entre eleger um líder de direita e escolher um autocrata como Nayib Bukele ou Daniel Noboa .

Os países ajudam a entender esse aparente paradoxo.
El Salvador talvez seja o caso mais revelador. Desde 2023, o apoio à democracia cresceu sete pontos. O país tem a menor taxa de vitimização por crime do AmericasBarometer, 8%, e Nayib Bukele, com 83%, é o presidente mais popular da pesquisa.
A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

Ao mesmo tempo, os salvadorenhos são os que mais aceitam uma concepção de democracia em que o presidente eleito governe com menos obstáculos da oposição , com um Executivo inflado e capaz de submeter ao seu poder instituições que, pela cartilha democrática, deveriam ser livres, como a Justiça e o Legislativo .
Para muitos deles, sugerem os pesquisadores, eleições e capacidade de entregar resultados conferem legitimidade democrática, mesmo que não se perceba que um Executivo inflado prejudique a democracia. Um presidente eleito que reduziu drasticamente a violência pode ser percebido como a demonstração de que a democracia funciona —ainda que instituições destinadas a limitar seu poder sejam enfraquecidas.
A palavra "democracia" assume outros contornos no Cone Sul. No Chile , na Argentina e no Uruguai , o apoio ao regime está mais associado à defesa das liberdades civis, da separação de Poderes e dos direitos das minorias. A presença da Argentina nesse grupo interessa: o país elegeu Javier Milei , mas isso não fez desaparecer das respostas dos argentinos uma concepção liberal da democracia .
As prioridades também mudam conforme se atravessa o continente. A economia continua sendo uma preocupação central na região; no Equador , a insegurança pesa especialmente . Sociedades diferentes cobram coisas diferentes de seus governos —e podem julgar o funcionamento da democracia pela capacidade de entregar essas demandas específicas, não necessariamente as demandas democráticas.
No caso de Equador e Peru , por exemplo, a democracia passa a ser considerada um valor importante se fizer cair os altos níveis de violência, não se for garantir a independência dos Poderes ou a defesa dos direitos humanos.
Salvadorenhos querem viver sem medo; equatorianos cobram segurança; argentinos podem eleger Milei sem necessariamente abrir mão dos contrapesos; e latino-americanos que mal confiam em seus partidos ainda dizem precisar deles.
Talvez o que esteja mudando na América Latina não seja uma ideia única de democracia. O que parece atravessar a região é uma cobrança mais elementar: que a democracia funcione.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sylvia-colombo/2026/10/alem-da-guinada-a-direita-o-que-as-pesquisas-revelam-sobre-a-democracia-na-america-latina.shtml.

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, discursa ena capital San Salvador - Jose Cabezas - 23.ago.26/Reuters · Jose Cabezas - 23.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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