Brasil

    Álcool nos automóveis, não na política

    O Brasil é visto por muitos brasileiros como um país que acumula problemas, sem resolvê-los. Nossa memória muitas vezes se esquece de que, quando confrontados com problemas existenciais, já fomos capazes de chegar a grandes soluções. Um exemplo clássico foi nossa resposta à crise do petróleo dos anos 1970. Naquele tempo ainda não havia o agro para exportar para todo o planeta e gerar divisas que nos permitiriam importar tudo o que nos fosse necessário e ainda acumular reservas que nos tornariam credores líquidos do exterior. Leia mais (09/06/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de setembro de 2026 às 01:00
    Álcool nos automóveis, não na política
    Um funcionário de posto de gasolina está abastecendo um carro de cor prata. Ele usa uma camisa vermelha com detalhes em amarelo e segura a mangueira de abastecimento, que é de cor verde. O carro está estacionado próximo a uma bomba de combu — Foto: Folha de S.Paulo

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    CEO da BRZ Consulting, é coordenadora da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República em Tocantins; ex-senadora pelo estado (2007-22) e ex-ministra da Agricultura (2015-16, governo Dilma)

    Gasolina vendida no Brasil tem 32% de etanol desde 1º de agosto - Allison Sales - 30.mai.25/Folhapress
    Gasolina vendida no Brasil tem 32% de etanol desde 1º de agosto - Allison Sales - 30.mai.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Brasil é visto por muitos brasileiros como um país que acumula problemas, sem resolvê-los. Nossa memória muitas vezes se esquece de que, quando confrontados com problemas existenciais, já fomos capazes de chegar a grandes soluções. Um exemplo clássico foi nossa resposta à crise do petróleo dos anos 1970. Naquele tempo ainda não havia o agro para exportar para todo o planeta e gerar divisas que nos permitiriam importar tudo o que nos fosse necessário e ainda acumular reservas que nos tornariam credores líquidos do exterior.

    Com a multiplicação do preço do petróleo que importávamos, nos vimos na contingência de parar o país para economizar energia. Diante dessa dificuldade, fomos capazes de descobrir o pré-sal e inventar o Proálcool , o maior programa de substituição em larga escala de combustíveis fósseis em todo o mundo.

    Hoje somos exportadores de petróleo e temos a matriz energética mais limpa e sustentável do planeta.

    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil
    Estreito de Hormuz: crise afeta petróleo, fertilizantes e exportações do Brasil — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Atualmente somos o segundo maior produtor de etanol , primeiramente a partir da cana-de-açúcar e, mais recentemente, do milho no Centro-Oeste . Nossa revolução agrícola , outra das grandes realizações da gente brasileira, fez do país um gigante na produção de alimentos e também de fibras e de energia. Graças aos avanços da nossa produtividade, todos esses usos cabem perfeitamente em nossas terras agrícolas, sem que qualquer um deles prejudique o outro.

    O maestro Tom Jobim já dizia que o brasileiro não perdoa o sucesso. Mesmo descontando a generalização, não temos outra explicação para manifestações críticas, seja à adição de álcool à gasolina, seja ao cultivo de milho para produzir etanol.

    A adição de etanol anidro à gasolina vem desde 1975 e já é prática longamente testada por nós, sem qualquer inconveniente técnico. Outros países, por razões ambientais e pela necessidade de reduzir emissões, estão progressivamente aderindo à adição de álcool. Os biocombustíveis vieram para ficar e o Brasil está na vanguarda desse processo.

    Proálcool chega aos 50 anos em meio a transformações no setor
    Proálcool chega aos 50 anos em meio a transformações no setor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas eis que a política começa a invadir um território até então reservado à ciência e à tecnologia. Por razões de ordem econômica facilmente confirmáveis, os órgãos técnicos do governo autorizaram o aumento da adição de etanol de 30% para 32% . O objetivo é aliviar o país dos efeitos dos aumentos de preço ocasionados pelos conflitos no estreito de Ormuz . Bastou isso para que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro ( PL ) se arvorasse defensor dos motores de automóveis e motocicletas, que, segundo ele, sofreriam danos irreversíveis . Para quem nega a realidade da mudança climática , nada mais natural do que preferir gasolina ao álcool. O que soa estranho é que essa crítica pode prejudicar, e muito, os produtores de cana-de-açúcar e de milho, setor cujos interesses o candidato afirma defender.

    Além de Flávio Bolsonaro, um procurador de Uberlândia (MG) propôs ação civil pública para suspender os efeitos da decisão do Conselho Nacional de Política Energética. O Brasil está se tornando um ambiente hostil para a economia privada, com a multiplicação de instâncias de veto e o enfraquecimento da capacidade de decisão do Executivo. Penso que o poder de procuradores individuais, sem audiência do procurador-geral ou de outras instâncias hierárquicas, de barrar decisões do governo é uma anomalia institucional que requer revisão. A fragilização do Executivo não serve ao país nem ao conjunto da sociedade.

    Um simples episódio de política energética pôs à mostra duas enfermidades do país: a irresponsabilidade da política e a disfunção das instituições. É preciso que estejamos alertas para essas questões se quisermos, no futuro, resolver os grandes problemas que nos esperam.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quanto às objeções à produção de etanol a partir do milho, é difícil, mais uma vez, compreender seus motivos. No Centro-Oeste, onde estão se instalando as usinas de etanol, o grão é plantado após a colheita da soja, na mesma área. Não há, portanto, qualquer aumento das áreas cultivadas; há, sim, melhor aproveitamento das já abertas e consolidadas. Além disso, seu uso para produzir etanol não compete com a alimentação, seja humana ou animal, pois, para isso, já existe produção em larga escala.

    O milho de Mato Grosso teria que rodar milhares de quilômetros, em caminhões movidos a diesel, para chegar aos centros de consumo. Desperdício de energia fóssil e encarecimento do produto final, sem ganho para o produtor.

    A sociedade brasileira precisa concentrar suas energias na solução de problemas reais e não as desperdiçar em falsas questões.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/alcool-nos-automoveis-nao-na-politica.shtml.

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    Gasolina vendida no Brasil tem 32% de etanol desde 1º de agosto - Allison Sales - 30.mai.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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