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    Ainda há uma alternativa ao caos global

    Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres como secretário-geral da ONU . A decisão já vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de expectativa. Leia mais (09/22/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    23 de setembro de 2026 às 02:00
    Ainda há uma alternativa ao caos global
    Homem fala em púlpito diante de grande audiência sentada em fileiras de cadeiras em ambiente formal, possivelmente conferência ou assembleia internacional. — Foto: Folha de S.Paulo

    Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'

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    O secretário-geral da ONU, o português António Guterres, fala à Assembleia Geral da organização, em Nova York - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters
    O secretário-geral da ONU, o português António Guterres, fala à Assembleia Geral da organização, em Nova York - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres como secretário-geral da ONU . A decisão já vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de expectativa.

    Num banco a poucos metros de mim, Samantha Power, então embaixadora dos Estados Unidos , rascunhava o seu discurso para a ocasião, em que falou de Timor-Leste e do malogrado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello . Outros representantes falaram da reforma da instituição, de direitos humanos ou dos objetivos de desenvolvimento do milênio.

    Era outro mundo. Poucos dias depois, fui ao Museu de História Natural da cidade, onde um especialista em estatística garantia que Hillary Clinton seria eleita presidente dos EUA. Sendo assim, caberia a ela nomear para a Suprema Corte o substituto (ou substituta) do juiz conservador Antonin Scalia.

    Líderes mundiais discursam na 81ª Assembleia Geral da ONU
    Líderes mundiais discursam na 81ª Assembleia Geral da ONU — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Falava-se da possibilidade de que essa nova composição, mais progressista, pudesse vir a aplicar uma moratória federal na pena de morte. O ambiente na cidade era de otimismo. Cinco sedes de campanha de Hillary distribuíam ingressos para o que imaginavam ser a sua festa de vitória. Tentei também, por interesse histórico, conseguir bilhetes para a festa de Donald Trump ; mas foi impossível, a própria campanha parecia não acreditar na sua vitória.

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    Na verdade, não acreditei. Como europeísta, tinha vivido a fundo a história do referendo do brexit e da surpresa da vitória de última hora, no fio da navalha, da opção de saída da União Europeia, que então todos julgavam impossível. A partir daí, a minha atitude perante a história da nossa última década foi sempre de "otimismo trágico": a cada passo esperando o pior e tentando dele extrair algum sentido.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quer isso dizer que houve ali uma bifurcação na história. O planeta para que foi eleito António Guterres, e no qual ele teria sido um extraordinário secretário-geral, não é o mundo que aconteceu na prática. Este é o mundo de Vladimir Putin , Binyamin Netanyahu e outros genocidas. As Nações Unidas acabaram por se resumir a um papel defensivo.

    E agora? A comparação com outros ciclos históricos sugere-me que o pior ainda está para vir. Afinal, estamos ainda nos anos 20. É nos anos 30 que as piores tragédias acontecem.

    Os líderes autoritários ainda estão em ascendência, e a partir do momento em que estão no poder, o conflito acaba por ser inevitável. Como sugeri numa coluna de há uns meses , já vivemos numa terceira guerra mundial, mas aos pedaços. Aqui há uns tempos, Bret Stephens, no New York Times, escreveu o mesmo : a terceira guerra mundial já começou, só que ainda não demos por isso.

    E daí, a história muitas vezes ainda arranja maneira de nos surpreender. Um cenário bondoso para o nosso futuro começaria por uma vitória do Estado de Direito no Brasil, já nas próximas semanas, e na continuidade da estratégia de poderes médios que Mark Carney, premiê do Canadá, tem apresentado.

    O artigo recente de Lula, Carney, António Costa (Conselho Europeu) e William Ruto, presidente do Quênia, sugere uma boa via de futuro para o multilateralismo.

    Ainda há esperança. Por uma nesga, que nos cabe alargar.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/09/ainda-ha-uma-alternativa-ao-caos-global.shtml.

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    O secretário-geral da ONU, o português António Guterres, fala à Assembleia Geral da organização, em Nova York - Brendan McDermid/Reuters · Brendan McDermid/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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