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    Ainda faltam conhecimento e acesso ao Alzheimer

    Durante a consulta, ela me perguntou três vezes onde eu morava e teve dificuldade para falar o nome dos cinco filhos. Mas a família achava que a memória dela era boa porque lembrava bem dos causos do passado. Ela tinha Alzheimer em uma fase moderada. Leia mais (09/21/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    21 de setembro de 2026 às 11:00
    Ainda faltam conhecimento e acesso ao Alzheimer
    Mãos entrelaçadas de um casal, com unhas femininas pintadas em cores variadas e unhas masculinas sem esmalte. Fundo desfocado mostra braço e roupa casual. — Foto: Folha de S.Paulo

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    Medo do Alzheimer faz com que muitos pacientes evitem procurar ajuda; existe a ideia equivocada de que demência é algo natural do envelhecimento - Rafaela Araújo - 4.jul.26/Folhapress
    Medo do Alzheimer faz com que muitos pacientes evitem procurar ajuda; existe a ideia equivocada de que demência é algo natural do envelhecimento - Rafaela Araújo - 4.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Médico geriatra, é professor da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais

    Durante a consulta, ela me perguntou três vezes onde eu morava e teve dificuldade para falar o nome dos cinco filhos. Mas a família achava que a memória dela era boa porque lembrava bem dos causos do passado. Ela tinha Alzheimer em uma fase moderada.

    Oito em cada dez pessoas com demência não têm um diagnóstico —é o que mostra um estudo brasileiro publicado neste ano. Por isso, esta segunda-feira (21), Dia Mundial do Alzheimer, é uma oportunidade tão importante para divulgar informação . Os familiares —e até profissionais da saúde — consideram o esquecimento algo normal da idade, mas não é. Com isso, o diagnóstico costuma vir apenas anos depois dos sintomas começarem, em uma fase moderada ou avançada.

    Musculação para prevenção e tratamento do Alzheimer
    Musculação para prevenção e tratamento do Alzheimer — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não precisa ser assim. Com uma boa avaliação cognitiva e com exames acessíveis é possível identificar casos no começo. Deixar de diagnosticar significa não tratar: perde-se a oportunidade de remédios nas fases iniciais e de medidas além dos medicamentos —a organização da rotina, o estímulo cognitivo, o planejamento do futuro com o paciente e técnicas de como lidar com as alterações comportamentais (que muitas vezes funcionam melhor que as drogas).

    É uma doença que não tem cura, mas nos últimos anos houve avanços importantes que transformaram o cuidado. Hoje consigo ver a assinatura da Doença de Alzheimer no cérebro por meio de métodos de imagem novos, de proteínas específicas presentes no líquor (um líquido retirado da coluna do paciente) e, mais recentemente, até mesmo do sangue.

    Mas veja bem, esses exames não são indispensáveis para o diagnóstico (ainda). É possível definir esses casos com testes cognitivos, com exames de sangue e de imagem comuns. Os biomarcadores me dão uma maior certeza diagnóstica, principalmente nas fases muito iniciais. Enquanto anteriormente era necessário esperar os sintomas avançarem para um diagnóstico certeiro. Além disso, dão abertura para os novos tratamentos.

    Futebol ajuda a resgatar memórias perdidas com o mal de Alzheimer
    Futebol ajuda a resgatar memórias perdidas com o mal de Alzheimer — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A partir de 2025, foram aprovados no Brasil novos medicamentos que removem as proteínas do Alzheimer do cérebro: são as terapias anti-amilóide (Donanemab, Lecanemab). Indicadas nas fases muito iniciais, reduzem a velocidade que a doença avança. De todos os casos de Alzheimer, apenas os mais iniciais são candidatos. Dos casos iniciais, apenas cerca de 15% terão todas as características necessárias para realizar a medicação, segundo estudo francês deste ano.

    Não dá pra tratar demência da mesma forma que se tratava dez anos atrás. Essas novidades, no entanto, são pouco acessíveis para a maioria da população, seja por custo elevado, seja por falta de infraestrutura.

    A análise das proteínas no líquor e a imagem do PET-scan precisam de centros especializados, quase sempre concentrados em grandes cidades. O exame de sangue talvez venha para democratizar esse acesso. O tratamento com as terapias anti-amiloide custam algumas centenas de milhares de reais e, por causa da complexidade e dos riscos, as infusões venosas são realizadas em clínicas e hospitais específicos, que possuem experiência nesse tipo de medicamento.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Eu tenho a esperança de que, com o tempo, tanto os exames diagnósticos quanto o tratamento se tornem mais baratos e acessíveis. Não duvido que em alguns anos, o médico do posto de saúde possa diagnosticar o Alzheimer com um exame de sangue, em fase inicial. E que esse paciente seja tratado com as novas drogas pelo SUS . Não foi assim que aconteceu com outras terapias caras, que caíram de preço com o tempo e com a concorrência?

    Enquanto essa realidade não chega, o que podemos fazer é ficarmos atentos aos sintomas: esquecimento, dificuldade de fazer as tarefas do dia a dia (tomar remédios sozinhos, cuidar do dinheiro, mexer no telefone) e alterações de comportamento. Se perceber algo diferente, procure uma avaliação cognitiva para um diagnóstico precoce. Mesmo que não dê para usar os novos exames e remédios, podemos melhorar muito a qualidade de vida do paciente e dos familiares com o que temos disponível hoje.

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/ainda-faltam-conhecimento-e-acesso-ao-alzheimer.shtml.

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    Medo do Alzheimer faz com que muitos pacientes evitem procurar ajuda; existe a ideia equivocada de que demência é algo natural do envelhecimento - Rafaela Araújo - 4.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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