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    Agora na Lei Rouanet, bets avançam no setor cultural e viram dilema para artistas

    Nem só de futebol vivem as bets. Os milhões das empresas de apostas online chegaram ao financiamento de projetos na cultura, de festivais a turnês musicais, tanto como patrocínio direto, como via Lei Rouanet . Leia mais (08/09/2026 - 04h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de agosto de 2026 às 07:00
    Agora na Lei Rouanet, bets avançam no setor cultural e viram dilema para artistas
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    Cartaz da Sisal, a Sport Italia Società, empresa de jogos de azar, feito pela Din & Din, agência de publicidade de Carlo Dinelli, em 1960 - Reprodução

    Cartaz da Sisal, a Sport Italia Società, empresa de jogos de azar, feito pela Din & Din, agência de publicidade de Carlo Dinelli, em 1960 - Reprodução · Reprodução
    Cartaz da Sisal, a Sport Italia Società, empresa de jogos de azar, feito pela Din & Din, agência de publicidade de Carlo Dinelli, em 1960 - Reprodução · Reprodução — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nem só de futebol vivem as bets. Os milhões das empresas de apostas online chegaram ao financiamento de projetos na cultura, de festivais a turnês musicais, tanto como patrocínio direto, como via Lei Rouanet .

    Esse rápido avanço tem preocupado autoridades, que, alertas aos possíveis efeitos danosos das bets, correm para aumentar a fiscalização e, possivelmente, secar essa fonte com uma regulação mais restrita.

    Para muitos artistas, o patrocinio vem com um dilema —garantir o financiamento dos seus projetos e associar suas imagens a uma prática controversa ou rejeitar esses montantes e correr o risco de perder espaço num mercado tão competitivo.

    A Betano, via Lei Rouanet, foi um dos principais patrocinadores do Réveillon na praia de de Copacabana, no Rio de Janeiro, neste ano - Divulgação/Riotur · Divulgação/Riotur
    A Betano, via Lei Rouanet, foi um dos principais patrocinadores do Réveillon na praia de de Copacabana, no Rio de Janeiro, neste ano - Divulgação/Riotur · Divulgação/Riotur — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A música é a principal vitrine hoje. Só a Superbet, a primeira a ter sido regulamentada no país, no final de 2024 , já apoiou eventos como Rock in Rio , o Carnaval do Rio de Janeiro e o Lollapalooza , e afirma ter gasto quase R$ 150 milhões em patrocínio de cultura neste ano e no ano passado, nas duas principais metrópoles do país.

    Com a Lei Rouanet, o montante é menor, mas ainda significativo, com R$ 11,8 milhões destinados de 2025 para cá em projetos como o Réveillon na praia de Copacabana, a Oktoberfest em Blumenau , em Santa Catarina, festas com batalha de DJs e exibição de filmes em praias do litoral paulista.

    Desde a Copa do Mundo —evento que escancarou a problemática desses jogos de azar, sobretudo com a polêmica envolvendo a CazéTV, no YouTube —, prefeituras e governos estaduais têm feito decretos que restringem a publicidade dessas casas.

    Entenda como é marketing de bets
    Entenda como é marketing de bets — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Diante de um eventual impedimento à publicidade e divulgação da marca em eventos, "esses investimentos perdem sentido para a empresa", diz o CEO da Superbet, Alexandre Fonseca. A empresa, ele diz, "deixará de investir em eventos de grande porte no Rio de Janeiro e em São Paulo" e tampouco poderá expandir essa atuação a outras cidades.

    Em meio ao Mundial, a campanha "Block no Tigrinho" , liderada pelo movimento 342 Artes, ganhou força nas redes sociais, com nomes como Caetano Veloso , Emicida e Camila Pitanga alertando sobre os riscos das bets.

    Eles fazem coro a outros artistas que também protestam, mesmo participando de eventos com dinheiro dessas empresas. Durante o festival Village, no Rio de Janeiro, por exemplo, com apoio da Superbet, o público notou que o logo da patrocinadora, próximo ao telão, foi coberto antes da cantora Marisa Monte subir no palco. Anitta , que também se apresentou no evento, provocou desconforto entre executivos da Superbet após ter dito, nas redes, que se recusava a atrelar seu nome ao setor .

    Moradores da periferia são os mais viciados em jogos online
    Moradores da periferia são os mais viciados em jogos online — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Já no festival Arena Brasileira, com dinheiro da mesma casa, um dos destaques foi Caetano Veloso —a fundadora do 342 Artes, da campanha antibets, é a empresária e produtora Paula Lavigne , sua mulher.

    "O avanço das bets foi tão rápido e tão profundo que elas passaram a ocupar lugares centrais da vida cultural brasileira, apesar das consequências que já conhecemos", diz Lavigne. "Existe uma diferença importante entre quem tem condições de recusar esse tipo de associação e quem, muitas vezes, não tem essa possibilidade."

    "A posição da 342 não é a de apontar o dedo para artistas e trabalhadores da cultura que dependem desses espaços para exercer seu trabalho", ela afirma, lembrando que é uma situação que exige debate público e regulação. "Quando artistas que têm essa possibilidade estabelecem limites, eles ajudam a ampliar a discussão e a mostrar que outros caminhos são possíveis."

    Multidão grande acompanha show com palco iluminado em tons de azul e vermelho na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, ao entardecer. Prédios e montanhas ao fundo sob céu parcialmente nublado com luz dourada do pôr do sol.
    Multidão grande acompanha show com palco iluminado em tons de azul e vermelho na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, ao entardecer. Prédios e montanhas ao fundo sob céu parcialmente nublado com luz dourada do pôr do sol. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segundo a empresária, o contrato de Caetano o protegeu desse tipo de exposição, sem que o nome do artista aparecesse ligado à Superbet.

    Entre os sertanejos, o empresário de Simone Mendes afirmou que ela recusou um contrato de R$ 64 milhões para divulgar bets. Ana Castela declarou que não divulga casas de apostas.

    O debate se estende agora ao fomento via Lei Rouanet. De acordo com a plataforma Salic, do Ministério da Cultura, foram R$ 6 milhões captados com casas de apostas no ano passado, e, neste ano, até agora, já foram R$ 5,8 milhões.

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    "Como era esperado, as bets chegaram também aos mecanismos de incentivo ao esporte e à cultura. Até então, nada fora da legalidade", diz Thiago Alvim, da plataforma Prosas , que auxiliou a reportagem na filtragem dos dados. O montante ainda é pequeno em relação ao valor total captado no ano passado, de R$ 3,4 bilhões.

    "Mas, no momento em que o país se mobiliza para restringir a publicidade das apostas como forma de limitar os danos já observados na sociedade, elas encontraram um caminho para ampliar a presença de suas marcas. E com abatimento integral no imposto de renda a pagar."

    "A entrada de um novo segmento e, portanto, de novos interlocutores é sempre boa para o setor, que amplia recursos e acessos", diz Cris Olivieri, advogada especializada no setor cultural. "Mas alguns, como as bets, carregam o impacto negativo na sociedade em razão de sua atividade, podendo gerar questionamentos de governança."

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Neste caso, podemos olhar de duas formas. Não receber recursos de bets para não divulgar e reforçar uma atividade de impacto social complexo, ou receber as verbas e as transformar em projetos relevantes para a sociedade", afirma a advogada.

    A Lei Rouanet opera com base na adesão voluntária dos patrocinadores e em critérios técnicos, sem que o conteúdo das propostas seja submetido a apreciação subjetiva.

    No entanto, o sistema prevê e aplica limitações publicitárias e operacionais a setores econômicos específicos. Há uma instrução normativa, por exemplo, que proíbe a promoção e divulgação de marcas de produtos de tabaco em projetos beneficiados.

    A campeã na Rouanet é a Kaizen Gaming, que representa a Betano, com R$ 5 milhões destinados à última festa de Réveillon em Copacabana. Para a próxima festa de Ano-Novo, porém, o patrocínio não será mais possível —um decreto da prefeitura carioca proibiu bets em eventos contratados, patrocinados ou realizados pelo poder público municipal.

    Fora da lei de fomento, a Betano afirma que investiu, em 2025, cerca de R$ 30 milhões em patrocínios sociais e culturais, sem especificar os valores para as áreas separadamente.

    Além da Superbet e da Betano, outras empresas de apostas online se colocam na cultura. É o caso da Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, UX Entertainment, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet. Entre os projetos patrocinados via Rouanet estão festas em Maresias, Guarujá, a Oktoberfest, em Blumenau, além de peças de teatro e patrocínios a planos de atividades de instituições.

    O Ministério da Cultura afirma à reportagem que está atento aos potenciais efeitos danosos do setor de jogos e que "já se debruça ativamente sobre o tema". A pasta estuda as possibilidades jurídicas e normativas na Lei Rouanet para regular e restringir formalmente o incentivo fiscal via patrocínio de empresas de apostas online a projetos culturais viabilizados pelo mecanismo.

    "O MinC reforça a posição do governo do Brasil quanto à necessidade de fiscalização, controle e regulamentação rigorosa do mercado de apostas online", afirma a pasta.

    "Entendemos e respeitamos a preocupação do poder público em restringir mensagens ostensivas", diz Fonseca, o CEO da Superbet, que critica as normas que vêm surgindo em municípios como Rio de Janeiro e Belo Horizonte .

    "Em vez de restringir a mensagem, essas normas acabam restringindo a marca. Restrições tão amplas terminam alcançando também os patrocínios institucionais que ajudam a viabilizar grandes eventos."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/agora-na-lei-rouanet-bets-avancam-no-setor-cultural-e-viram-dilema-para-artistas.shtml.

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