Agora na Lei Rouanet, bets avançam no setor cultural e viram dilema para artistas
Empresas de apostas ampliam presença em festivais e turnês

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Cartaz da Sisal, a Sport Italia Società, empresa de jogos de azar, feito pela Din & Din, agência de publicidade de Carlo Dinelli, em 1960 - Reprodução

Nem só de futebol vivem as bets. Os milhões das empresas de apostas online chegaram ao financiamento de projetos na cultura, de festivais a turnês musicais, tanto como patrocínio direto, como via Lei Rouanet .
Esse rápido avanço tem preocupado autoridades, que, alertas aos possíveis efeitos danosos das bets, correm para aumentar a fiscalização e, possivelmente, secar essa fonte com uma regulação mais restrita.
Para muitos artistas, o patrocinio vem com um dilema —garantir o financiamento dos seus projetos e associar suas imagens a uma prática controversa ou rejeitar esses montantes e correr o risco de perder espaço num mercado tão competitivo.

A música é a principal vitrine hoje. Só a Superbet, a primeira a ter sido regulamentada no país, no final de 2024 , já apoiou eventos como Rock in Rio , o Carnaval do Rio de Janeiro e o Lollapalooza , e afirma ter gasto quase R$ 150 milhões em patrocínio de cultura neste ano e no ano passado, nas duas principais metrópoles do país.
Com a Lei Rouanet, o montante é menor, mas ainda significativo, com R$ 11,8 milhões destinados de 2025 para cá em projetos como o Réveillon na praia de Copacabana, a Oktoberfest em Blumenau , em Santa Catarina, festas com batalha de DJs e exibição de filmes em praias do litoral paulista.
Desde a Copa do Mundo —evento que escancarou a problemática desses jogos de azar, sobretudo com a polêmica envolvendo a CazéTV, no YouTube —, prefeituras e governos estaduais têm feito decretos que restringem a publicidade dessas casas.

Diante de um eventual impedimento à publicidade e divulgação da marca em eventos, "esses investimentos perdem sentido para a empresa", diz o CEO da Superbet, Alexandre Fonseca. A empresa, ele diz, "deixará de investir em eventos de grande porte no Rio de Janeiro e em São Paulo" e tampouco poderá expandir essa atuação a outras cidades.
Em meio ao Mundial, a campanha "Block no Tigrinho" , liderada pelo movimento 342 Artes, ganhou força nas redes sociais, com nomes como Caetano Veloso , Emicida e Camila Pitanga alertando sobre os riscos das bets.
Eles fazem coro a outros artistas que também protestam, mesmo participando de eventos com dinheiro dessas empresas. Durante o festival Village, no Rio de Janeiro, por exemplo, com apoio da Superbet, o público notou que o logo da patrocinadora, próximo ao telão, foi coberto antes da cantora Marisa Monte subir no palco. Anitta , que também se apresentou no evento, provocou desconforto entre executivos da Superbet após ter dito, nas redes, que se recusava a atrelar seu nome ao setor .

Já no festival Arena Brasileira, com dinheiro da mesma casa, um dos destaques foi Caetano Veloso —a fundadora do 342 Artes, da campanha antibets, é a empresária e produtora Paula Lavigne , sua mulher.
"O avanço das bets foi tão rápido e tão profundo que elas passaram a ocupar lugares centrais da vida cultural brasileira, apesar das consequências que já conhecemos", diz Lavigne. "Existe uma diferença importante entre quem tem condições de recusar esse tipo de associação e quem, muitas vezes, não tem essa possibilidade."
"A posição da 342 não é a de apontar o dedo para artistas e trabalhadores da cultura que dependem desses espaços para exercer seu trabalho", ela afirma, lembrando que é uma situação que exige debate público e regulação. "Quando artistas que têm essa possibilidade estabelecem limites, eles ajudam a ampliar a discussão e a mostrar que outros caminhos são possíveis."

Segundo a empresária, o contrato de Caetano o protegeu desse tipo de exposição, sem que o nome do artista aparecesse ligado à Superbet.
Entre os sertanejos, o empresário de Simone Mendes afirmou que ela recusou um contrato de R$ 64 milhões para divulgar bets. Ana Castela declarou que não divulga casas de apostas.
O debate se estende agora ao fomento via Lei Rouanet. De acordo com a plataforma Salic, do Ministério da Cultura, foram R$ 6 milhões captados com casas de apostas no ano passado, e, neste ano, até agora, já foram R$ 5,8 milhões.

"Como era esperado, as bets chegaram também aos mecanismos de incentivo ao esporte e à cultura. Até então, nada fora da legalidade", diz Thiago Alvim, da plataforma Prosas , que auxiliou a reportagem na filtragem dos dados. O montante ainda é pequeno em relação ao valor total captado no ano passado, de R$ 3,4 bilhões.
"Mas, no momento em que o país se mobiliza para restringir a publicidade das apostas como forma de limitar os danos já observados na sociedade, elas encontraram um caminho para ampliar a presença de suas marcas. E com abatimento integral no imposto de renda a pagar."
"A entrada de um novo segmento e, portanto, de novos interlocutores é sempre boa para o setor, que amplia recursos e acessos", diz Cris Olivieri, advogada especializada no setor cultural. "Mas alguns, como as bets, carregam o impacto negativo na sociedade em razão de sua atividade, podendo gerar questionamentos de governança."

"Neste caso, podemos olhar de duas formas. Não receber recursos de bets para não divulgar e reforçar uma atividade de impacto social complexo, ou receber as verbas e as transformar em projetos relevantes para a sociedade", afirma a advogada.
A Lei Rouanet opera com base na adesão voluntária dos patrocinadores e em critérios técnicos, sem que o conteúdo das propostas seja submetido a apreciação subjetiva.
No entanto, o sistema prevê e aplica limitações publicitárias e operacionais a setores econômicos específicos. Há uma instrução normativa, por exemplo, que proíbe a promoção e divulgação de marcas de produtos de tabaco em projetos beneficiados.
A campeã na Rouanet é a Kaizen Gaming, que representa a Betano, com R$ 5 milhões destinados à última festa de Réveillon em Copacabana. Para a próxima festa de Ano-Novo, porém, o patrocínio não será mais possível —um decreto da prefeitura carioca proibiu bets em eventos contratados, patrocinados ou realizados pelo poder público municipal.
Fora da lei de fomento, a Betano afirma que investiu, em 2025, cerca de R$ 30 milhões em patrocínios sociais e culturais, sem especificar os valores para as áreas separadamente.
Além da Superbet e da Betano, outras empresas de apostas online se colocam na cultura. É o caso da Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, UX Entertainment, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet. Entre os projetos patrocinados via Rouanet estão festas em Maresias, Guarujá, a Oktoberfest, em Blumenau, além de peças de teatro e patrocínios a planos de atividades de instituições.
O Ministério da Cultura afirma à reportagem que está atento aos potenciais efeitos danosos do setor de jogos e que "já se debruça ativamente sobre o tema". A pasta estuda as possibilidades jurídicas e normativas na Lei Rouanet para regular e restringir formalmente o incentivo fiscal via patrocínio de empresas de apostas online a projetos culturais viabilizados pelo mecanismo.
"O MinC reforça a posição do governo do Brasil quanto à necessidade de fiscalização, controle e regulamentação rigorosa do mercado de apostas online", afirma a pasta.
"Entendemos e respeitamos a preocupação do poder público em restringir mensagens ostensivas", diz Fonseca, o CEO da Superbet, que critica as normas que vêm surgindo em municípios como Rio de Janeiro e Belo Horizonte .
"Em vez de restringir a mensagem, essas normas acabam restringindo a marca. Restrições tão amplas terminam alcançando também os patrocínios institucionais que ajudam a viabilizar grandes eventos."
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/agora-na-lei-rouanet-bets-avancam-no-setor-cultural-e-viram-dilema-para-artistas.shtml.

Cartaz da Sisal, a Sport Italia Società, empresa de jogos de azar, feito pela Din & Din, agência de publicidade de Carlo Dinelli, em 1960 - Reprodução · Reprodução — Foto: UOL
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