Agiota da "montanha de dinheiro" pagava de influencer com pacote de bondade
Líder de grupo criminoso investigado por extorsão e lavagem de dinheiro usava assistencialismo para mascarar rotina de violência e agiotagem

Sapatos confortáveis, bermuda, sem camisa e a barriga proeminente à mostra. A figura rotineira de Adailton Fernandes de Oliveira , conhecido popularmente como “Dazin”, parecia a de um pacato morador de interior. Contudo, por trás da simplicidade aparente e do carisma ensaiado nas redes sociais, ocultava-se a rotina de um dos líderes mais implacáveis de uma organização criminosa especializada em agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro .
Com atuação ramificada pelo Distrito Federal, Goiás e Tocantins, “Dazin” construiu uma rotina dupla: enquanto estrangulava financeiramente devedores e ostentava fortunas no ambiente privado, cultivava publicamente a imagem de um “padrinho dos pobres” no município de Mimoso (GO). Ele e outros 11 alvos foram presos por equipes da Coordenação de Repressão a Crimes Patrimoniais (Corpatri), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) . As investigações foram conduzidas por investigadores da Divisão de Repressão a Sequestros (DRS).
Imagens obtidas pela coluna Na Mira revelam detalhes da intimidade do agiota e da estratégia populista que utilizava na tentativa de pavimentar aspirações políticas. Para além do luxo privado e da ostentação de notas contadas às dúzias, o cotidiano de Dazin na pacata cidade de Mimoso englobava o cumprimento de uma minuciosa “agenda de benfeitorias”. Pessoas ouvidas pela reportagem confirmaram que Adailton pretendia ingressar na vida política e, para conquistar a simpatia local, mantinha a rotina de oferecer o que apelidou de um verdadeiro “pacote de bondade”.

Nas redes sociais, Dazin informava aos moradores da cidade goiana que realizaria eventos beneficentes , como bingos com cartelas inteiramente gratuitas cujo prêmio principal era uma motocicleta zero-quilômetro. Em outros registros, o homem aparece cumprimentando e abraçando populares enquanto distribui, de forma gratuita, sacos de carne fresca e garrafas de leite para famílias da região. Essa estratégia de assistencialismo financiada pelo crime servia para blindar sua imagem pública e criar uma rede de apoio na comunidade.
A generosidade forjada em Mimoso, contudo, repousava sobre uma engrenagem de violência psicológica e opressão no DF. O contraponto do “pacote de bondades” era sentido por devedores encurralados por juros abusivos de até 20% ao mês.
O estopim para a investigação que desmascarou o esquema ocorreu em março de 2025, com a morte de um comerciante de 68 anos, figura tradicional da Feira dos Goianos, em Taguatinga. Semianalfabeto, o idoso contraiu empréstimos com o grupo e entrou em um turbilhão financeiro sem volta. Para tentar quitar as parcelas diárias e implacáveis cobradas pela quadrilha, o feirante recorria a celulares e contas bancárias de familiares. Submetido a um estresse diário contínuo e incapaz de conter a bola de neve das dívidas, o comerciante sofreu um colapso e veio a óbito.

A crueldade do grupo de Dazin ficou evidente quando a morte do patriarca não interrompeu a cobrança. Os credores transferiram a dívida e direcionaram os ataques aos familiares do idoso falecido, cobrindo-a de mensagens e áudios com ameaças diretas à sua integridade física e vida, coagindo-a a assumir o passivo do pai.
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apurou que o feirante era alvo de dois núcleos de extorsão. O primeiro, composto por cidadãos colombianos voltados a cobranças ostensivas, havia sido desmantelado no ano anterior. O segundo — e mais complexo —, comandado por Adailton, possuía estrutura profissional, lavagem de capitais e suporte qualificado de segurança. Entre os investigados está um sargento reformado da Polícia Militar do Estado de Goiás (PMGO), responsável por prestar logística e atuar na intimidação direta das vítimas.
A rotina de ostentação, filantropia farsa e opressão foi interrompida na manhã dessa quinta-feira (10/9), quando a PCDF deflagrou uma megaoperação conduzida pela Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri) em conjunto com a Divisão de Repressão a Sequestros (DRS).

Em um dos vídeos gravados por uma mulher, Adailton surge sentado em um sofá, debochando do próprio enriquecimento ilícito diante de uma montanha de cédulas de R$ 100 e R$ 50 — o acumulado da cobrança abusiva de juros que ele mesmo apelidou de “serra de dinheiro”.
Nas gravações, a esposa de Adailton o questiona sobre o cansaço do trabalho contínuo: “Não vai descansar, não? E esse tanto de dinheiro aí?”. Sorridente, o agiota responde sem hesitar: “Preciso conferir todo o dinheiro primeiro. Tem que ter ajuda, senão vamos passar a noite toda contando dinheiro”.
Em outro trecho áudio-visual, mantendo o tom irônico, o criminoso celebra a facilidade de suas extorsões, alegando que antes precisava correr atrás do dinheiro, mas que agora o capital “corre atrás dele”, cabendo-lhe apenas “agradecer a Deus demais”. Em tom de desdém, arremata questionando se a população de fato tem dinheiro, concluindo que seu grupo criminoso ajunta valores é “de saco”.
A ação policial resultou no cumprimento de 12 mandados de prisão preventiva — incluindo a captura de Adailton Fernandes de Oliveira — e diversas ordens de busca e apreensão expedidas pela Justiça. As buscas foram realizadas simultaneamente nas cidades de Palmas e Araguaína, no Tocantins, além de Goiânia, Senador Canedo e Formoso, no estado de Goiás.
Por determinação judicial, foram bloqueados até R$ 10 milhões nas contas bancárias dos investigados, além do sequestro de bens móveis e imóveis adquiridos com o proveito das extorsões. Os integrantes da organização criminosa foram indiciados por usura (cobrança ilícita de juros), extorsão, organização criminosa armada, lavagem de dinheiro e coação no curso do processo.
Publicado originalmente por Metrópoles. Leia a matéria completa em https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/agiota-da-montanha-de-dinheiro-pagava-de-influencer-com-pacote-de-bondade.

Reprodução — Foto: Metrópoles
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