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    Acordo de Paz com Farc faz 10 anos pressionado por ataques de Espriella e expansão de grupos armados

    Há dez anos, o presidente da Colômbia , Juan Manuel Santos , e o líder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Rodrigo Londoño, apertaram as mãos diante de uma multidão vestida de branco em Cartagena . Leia mais (09/25/2026 - 23h00)

    Folha de S.Paulo
    26 de setembro de 2026 às 02:00
    Acordo de Paz com Farc faz 10 anos pressionado por ataques de Espriella e expansão de grupos armados
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Juan Manuel Santos, então presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, último líder das extintas Farc, cumprimentam-se após assinarem acordo de paz em Cartagena - Luis Acosta - 26.set.2016 / AFP

    Juan Manuel Santos, então presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, último líder das extintas Farc, cumprimentam-se após assinarem acordo de paz em Cartagena - Luis Acosta - 26.set.2016 / AFP · Luis Acosta - 26.set.2016 /
    Juan Manuel Santos, então presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, último líder das extintas Farc, cumprimentam-se após assinarem acordo de paz em Cartagena - Luis Acosta - 26.set.2016 / AFP · Luis Acosta - 26.set.2016 / — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há dez anos, o presidente da Colômbia , Juan Manuel Santos , e o líder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Rodrigo Londoño, apertaram as mãos diante de uma multidão vestida de branco em Cartagena .

    "O que nós assinamos hoje é uma declaração do povo colombiano diante do mundo de que nos cansamos da guerra", afirmou o político conservador no dia 26 de setembro de 2016.

    "Ofereço minhas sinceras desculpas a todas as vítimas do conflito", continuou, enquanto era aplaudido de pé, o ex-guerrilheiro conhecido como Timochenko.

    Assinatura do acordo de paz com as Farc
    Assinatura do acordo de paz com as Farc — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    O documento acabou com uma guerra de 52 anos entre o Estado colombiano e a guerrilha marxista e rendeu o Nobel da Paz daquele ano a Santos . Mas foi só o primeiro capítulo de uma jornada que terminaria —ou começaria, a depender do ponto de vista— quase dois meses depois.

    Menos de uma semana após o evento, a atmosfera de otimismo deu lugar à incredulidade quando a população rejeitou o texto por uma diferença de apenas 54 mil votos (50,2% a 49,8%). O documento em vigor foi assinado em novembro, em uma cerimônia modesta de menos de uma hora no Teatro Colón, em Bogotá .

    Colômbia rejeita acordo de paz
    Colômbia rejeita acordo de paz — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O início trôpego já anunciava as dificuldades para implementar os compromissos. Mesmo assim, seria difícil prever que, uma década depois, o país estaria enfrentando uma nova escalada de violência sob o governo de um presidente que prometeu "estripar" líderes de esquerda, em suas palavras.

    Determinar o legado do acordo é um desafio. Por um lado, há uma conquista incontornável: mais de 13 mil pessoas deixaram as armas, das quais cerca de 85% seguem em processos de reincorporação à vida civil. Por outro, a violência persiste no país com a expansão de grupos armados e o consequente aumento de massacres e deslocamentos.

    Desde 2016, nenhum governo conseguiu frear o crescimento de combatentes. De acordo com a Força Pública da Colômbia, havia 6.519 membros nas três principais organizações armadas do país em 2017, número que passou para 24.610 combatentes distribuídos em quatro grupos em 2025 —quase o quádruplo em oito anos.

    Colômbia ainda busca mais de 200 mil desaparecidos
    Colômbia ainda busca mais de 200 mil desaparecidos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A cifra de pessoas que passaram por deslocamentos forçados, um amargo efeito colateral nos anos de guerra, quase dobrou desde 2016, chegando a mais de 290 mil no ano passado, de acordo com a Unidade para as Vítimas, entidade encarregada de coordenar a reparação às vítimas do conflito. Cresceu na mesma proporção o número de mortos em massacres, que foi de 137 em 2016 para 256 em 2025, segundo o Indepaz (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz).

    Para muitos especialistas, a culpa do que pode ser lido como fracasso no acordo está na velocidade de implementação do texto. O Kroc, instituto de estudos para a paz da Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos , calcula que, em 2025, apenas 36% das 578 cláusulas do acordo final foram completamente implementadas, enquanto 8% não foram nem sequer iniciadas.

    Isso quando o limite para executar o que foi estipulado é 2031, 15 anos após a assinatura. "A janela para cumprir as promessas do acordo dentro do prazo estabelecido está se fechando, deixando as vítimas mais marginalizadas do conflito ainda aguardando que o processo produza resultados tangíveis", disse o instituto em maio.

    Dois homens de camisa branca apertam as mãos no centro de um palco, cercados por outros homens também vestidos de branco que aplaudem. A frente do palco tem uma faixa com as cores da bandeira da Colômbia. Pessoas na plateia seguram celulare
    Dois homens de camisa branca apertam as mãos no centro de um palco, cercados por outros homens também vestidos de branco que aplaudem. A frente do palco tem uma faixa com as cores da bandeira da Colômbia. Pessoas na plateia seguram celulare — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Para Paola Molano Ayala, mestre em direito internacional pela Universidade de Nova York, alguns dos mais importantes acordos cumpridos —além, é claro, da própria desmobilização das Farc e do consequente fim da guerra—, foram os previstos nos Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial.

    Entre 2018 e 2024, a iniciativa descrita pelo acordo reduziu, em média, em mais de 15 pontos percentuais o índice de pobreza multidimensional nos 170 municípios mais impactados pelo conflito, segundo a Agência de Renovação do Território.

    "Para formular esses programas de desenvolvimento, houve uma participação muito ampla na qual as comunidades puderam expressar suas necessidades, formular planos e, a partir disso, criar caminhos que orientassem o Estado a intervir na transformação desses territórios afetados pela violência", diz a advogada, que atuou como assessora no Gabinete do Alto Comissariado para a Paz.

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    Na outra ponta, um dos principais pontos não cumpridos, segundo ela, foi a proteção de ex-guerrilheiros. O mais recente relatório da Missão de Verificação das Nações Unidas na Colômbia, divulgado em julho, destaca que 493 ex-combatentes foram mortos desde a assinatura do Acordo de Paz.

    Soma-se a esse caldo o aumento nos índices de criminalidade geral, consequência da resposta inadequada às novas ameaças de segurança, segundo Ayala. "Os territórios que as Farc controlavam não foram totalmente ocupados pelas instituições, e isso permitiu um ressurgimento da violência", afirma.

    A oposição ao acordo não é nova, como mostra o plebiscito que rejeitou o texto e que, para Andrei Gómez Suárez, especialista em resolução de conflitos armados, foi um dos maiores erros do presidente Santos.

    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background.
Foto:  Mario / adobe stock
    An Italian passport with a smartphone over a tourist magazine of South America, on a light background. Foto: Mario / adobe stock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Pensar que as pessoas iriam votar 'sim' porque ninguém vota contra a paz foi uma leitura muito simplista da complexidade que significa fazer uma pergunta tão difícil ao país", afirma o autor do livro "El Triunfo del No" (Icono, 2016), sem tradução no Brasil. "A partir desse ponto, temos problemas sérios, porque a implementação começa sem legitimidade suficiente."

    Em 2017, Fernando Londoño, correligionário de Iván Duque, que viria a ser eleito presidente no ano seguinte, afirmou que o primeiro desafio de seu partido, o Centro Democrático, seria "rasgar em pedaços aquele maldito pedaço de papel que eles chamam de acordo final com as Farc".

    Assinou o acordo com as Farc e iniciou sua implementação após a rejeição do texto original no plebiscito. Criou a estrutura institucional para executar os compromissos.

    Defendeu mudanças no acordo e priorizou uma agenda de segurança. A implementação avançou em ritmo lento, segundo o Instituto Kroc.

    Declarou a implementação do acordo como prioridade e ampliou investimentos, mas concentrou sua política de segurança na estratégia de “paz total”, com negociações com outros grupos armados.

    Assumiu em agosto e passou a encerrar processos de diálogo herdados do governo Petro. A nova gestão terá de decidir como dará continuidade à implementação do acordo.

    Como candidato, Duque se justificou pelo colega: "Sempre defendi que não se trata de destruir ou rasgar os acordos, mas sim de fazer modificações importantes naquilo que afeta o Estado de Direito", afirmou em entrevista ao jornal El País.

    Os ventos pareciam mudar em 2022, quando a Colômbia elegeu seu primeiro presidente de esquerda , Gustavo Petro . Vocal defensor do acordo, o ex-guerrilheiro tampouco conseguiu avançar nos compromissos de forma satisfatória —em vez disso, direcionou os esforços do governo à sua promessa de "paz total".

    A estratégia de negociar com grupos armados remanescentes, no entanto, acabou se revelando um ciclo vicioso: quanto mais o acordo de 2016 era relegado a segundo plano, menos os grupos armados se animavam a conversar com o governo.

    "Quando se observa falta de comprometimento por parte do Estado, passa-se a ideia de que a paz é uma política de governo —ou seja, se o presidente a deseja, ele a implementa, se não a deseja, não a implementa", afirma Suárez.

    Em negociações do governo Petro das quais participou, o pesquisador na Universidade de Sussex diz que essa era uma das principais desconfianças dos grupos armados.

    "E quando a Presidência de Petro terminar? Quem cumprirá suas promessas?", perguntavam os combatentes, segundo ele. "Explicávamos que eram compromissos de Estado, mas, observando as políticas que o atual presidente está implementando, diríamos que ele não está cumprindo os compromissos assumidos pelo Estado colombiano", diz.

    O presidente Abelardo de la Espriella , que venceu Iván Cepeda em junho deste ano por uma margem parecida com a registrada no plebiscito de 2016, quer destinar 12,94 trilhões de pesos colombianos (R$ 20,5 bilhões) para a implementação do acordo no orçamento do ano que vem, valor 37% menor do que os 20,56 trilhões de pesos (R$ 32,5 bilhões) de 2026.

    Apesar disso tudo, é possível ser otimista com o acordo colombiano.

    "Em geral, 50% dos processos de paz fracassam cinco anos após a assinatura do acordo", afirma Suárez. "O caso da Colômbia é complexo, porque hoje, dez anos depois, não se pode dizer —eu não diria— que a paz com as Farc fracassou ou chegou ao fim."

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/acordo-de-paz-com-farc-faz-10-anos-pressionado-por-ataques-de-espriella-e-expansao-de-grupos-armados.shtml.

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    Juan Manuel Santos, então presidente da Colômbia, e Rodrigo Londoño, último líder das extintas Farc, cumprimentam-se após assinarem acordo de paz em Cartagena - Luis Acosta - 26.set.2016 / AFP · Luis Acosta - 26.set.2016 / — Foto: Folha de S.Paulo

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