Brasil

    Acidente do voo 1907 da Gol mantém dor de parentes 20 anos após tragédia

    Viúva recorda identificação do marido no IML no dia de Nossa Senhora

    UOL
    28 de setembro de 2026 às 03:00
    Acidente do voo 1907 da Gol mantém dor de parentes 20 anos após tragédia
    Mulher de cabelos castanhos e lisos, vestindo vestido rosa, sentada em sofá bege, lendo jornal com manchete sobre resgate de corpos. Ambiente interno com quadro de paisagem na parede e mesa com objetos ao fundo. — Foto: UOL

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    Aqueles dias vêm e voltam à memória repletos de sentimentos.

    Neusa Felipetto Machado, atualmente com 76 anos, viúva de uma das vítimas do acidente do voo 1907 da Gol, mostra jornal com a cobertura da tragéria na época; acidente completa 20 anos na próxima terça-feira (29) - Pedro Ladeira - 22.set.16/
    Neusa Felipetto Machado, atualmente com 76 anos, viúva de uma das vítimas do acidente do voo 1907 da Gol, mostra jornal com a cobertura da tragéria na época; acidente completa 20 anos na próxima terça-feira (29) - Pedro Ladeira - 22.set.16/ — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A voz de Neusa Felipetto Machado, 76, ficou ao menos três vezes embargada ao falar com a reportagem sobre as duas décadas sem Valdomiro Henrique Machado . O casamento de 34 anos entre os dois foi oficialmente interrompido em 12 de outubro de 2006, quando ela reconheceu que aqueles "pés tortos" no IML (Instituto Médico Legal) de Brasília eram do marido.

    "A gente tinha uma brincadeira e eu dizia que seus pés eram tortos", afirma a psicóloga.

    O consultor Machado estava em um Boeing 737, da Gol , que fazia o voo 1907, de Manaus para o Rio de Janeiro, com escala em Brasília . O avião colidiu no ar com um jato executivo Embraer Legacy 600, de matrícula norte-americana, que voava de São José dos Campos (SP) para Fort Lauderdale (EUA). Nenhuma das 154 pessoas a bordo da aeronave comercial sobreviveu.

    Indígenas junto na destroços do avião da Gol, que caiu após choque com um jatinho em 29 de setembro de 2006 - Jorge Araújo 26.nov.2010/Jorge Araújo/Folhapress · Jorge Araújo 26.nov.2010/Jorge Araújo/Folhapress
    Indígenas junto na destroços do avião da Gol, que caiu após choque com um jatinho em 29 de setembro de 2006 - Jorge Araújo 26.nov.2010/Jorge Araújo/Folhapress · Jorge Araújo 26.nov.2010/Jorge Araújo/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    O choque ocorreu às 16h56 do dia 29, a cerca de 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso.

    O Boeing da Gol perdeu cerca de um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e acabou se desintegrando durante a queda em uma área de mata fechada.

    O Legacy ficou sem parte da ponta da asa e sofreu outros danos, mas permaneceu controlável e pousou na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Os dois pilotos foram condenados, mas não cumpriram pena no Brasil, e atualmente moram nos Estados Unidos . Havia mais cinco pessoas na aeronave.

    O estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, na época com 24 anos, um dos 154 mortos no acidente do voo 1907 com um avião da Gol, em 29 de setembro de 2006 - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    O estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, na época com 24 anos, um dos 154 mortos no acidente do voo 1907 com um avião da Gol, em 29 de setembro de 2006 - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Me ligaram no dia 11 à noite. Eu esperava que fosse alguém dizendo que ele tinha sido encontrado deitado, contando piadas aos indígenas, que ele iria aparecer naquela hora. Mas ligaram para dizer que tinham encontrado o corpo, que era para ir ao IML", conta.

    Um ano depois do acidente, Neusa voltou à fazenda Jarinã, a 40 quilômetros do local da queda do avião da Gol, onde a FAB (Força Aérea Brasileira) montou um centro de operações para resgatar os corpos. Para lá levou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, da qual o marido era devoto —coincidentemente, ela o reconheceu no dia de homenagem à santa.

    "O dono da fazenda havia construído uma capela e fizemos uma procissão", conta.

    Três homens estão próximos a destroços de um avião branco com detalhes vermelhos, parcialmente destruído, em uma área de floresta densa. Um grande tronco de árvore está apoiado sobre a fuselagem danificada.
    Três homens estão próximos a destroços de um avião branco com detalhes vermelhos, parcialmente destruído, em uma área de floresta densa. Um grande tronco de árvore está apoiado sobre a fuselagem danificada. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    As lembranças ficam mais fortes sempre que ocorre um acidente aéreo —Neusa conversou com a Folha algumas horas após os destroços de um helicóptero em que estava o cantor Rick e outras quatro pessoas (todos morreram) ter sido achados na última terça-feira (22) , em Santa Catarina.

    "A vida segue, mas a cadeira dele vai estar sempre vazia", afirma a viúva sobre a saudade do marido.

    Neusa ajudou a montar uma associação de parentes das vítimas, hoje um tanto dispersa, que no início se reunia em sua casa.

    Jovem com cabelo escuro e curto sorri para a câmera. Veste camisa branca, gravata listrada em tons de vermelho e azul, e paletó escuro. Fundo escuro sem detalhes visíveis.
    Jovem com cabelo escuro e curto sorri para a câmera. Veste camisa branca, gravata listrada em tons de vermelho e azul, e paletó escuro. Fundo escuro sem detalhes visíveis. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Para algumas dessas pessoas é difícil tocar no assunto até hoje.

    É o caso de Mariana Assad, 76, mãe do estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, morto aos 24 anos no acidente.

    Salma, 70, irmã de Mariana, participava do ensaio de um coral de igreja quando recebeu um telefonema do cunhado dizendo que o voo que traria o sobrinho de Manaus estava atrasado —ele faria uma conexão em Brasília antes de ir para o interior de Goiás , onde moravam os pais.

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    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Coube à tia ir ao aeroporto buscar informações e ficar à frente de momentos polêmicos na época.

    Salma não teve coragem de ver o corpo do sobrinho no IML. Mas sabe que estava praticamente intacto, preso à poltrona 5A pelo cinto de segurança, pelas fotos que depois viu dele ainda na mata.

    "É muito estranho quando chega próximo ao dia [do aniversário do acidente]", afirma. O universitário teria completado 44 anos no último dia 18 —as datas se misturam.

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    Passaram duas décadas e apesar disso, ela se choca com as pessoas que não sabem do acidente. "Participo de vários grupos e preciso contar o que aconteceu com meu sobrinho."

    A tia tem conversado com outras mães e parentes de quem estava naquele avião. Planejam se encontrar na próxima terça-feira (29) no Jardim Botânico de Brasília, onde há uma placa em homenagem às vítimas do voo 1907.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/acidente-do-voo-1907-da-gol-mantem-dor-de-parentes-20-anos-apos-tragedia.shtml.

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    Neusa Felipetto Machado, atualmente com 76 anos, viúva de uma das vítimas do acidente do voo 1907 da Gol, mostra jornal com a cobertura da tragéria na época; acidente completa 20 anos na próxima terça-feira (29) - Pedro Ladeira - 22.set.16/ — Foto: UOL

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