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    'Acampamento Miasma', com sexo e sangue, exorciza a vergonha de ser LGBTQIA+

    O orgasmo e a morte estão ligados. No prazer máximo, como no fim da vida, a individualidade se dissolve e perdemos o controle de nós mesmos -assim, o filósofo Georges Bataille batizou o gozo de "pequena morte". Esse é também o nome do assassino de " Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte ", que sai das profundezas de um lago para perfurar corpos e decepar cabeças de jovens desavisados. Leia mais (08/12/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    12 de agosto de 2026 às 16:00
    'Acampamento Miasma', com sexo e sangue, exorciza a vergonha de ser LGBTQIA+
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Gillian Anderson e Hannah Einbinder em cartaz do filme 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' - Divulgação

    Gillian Anderson e Hannah Einbinder em cartaz do filme 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' - Divulgação · Divulgação
    Gillian Anderson e Hannah Einbinder em cartaz do filme 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O orgasmo e a morte estão ligados. No prazer máximo, como no fim da vida, a individualidade se dissolve e perdemos o controle de nós mesmos —assim, o filósofo Georges Bataille batizou o gozo de "pequena morte". Esse é também o nome do assassino de " Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte ", que sai das profundezas de um lago para perfurar corpos e decepar cabeças de jovens desavisados.

    A semelhança do enredo com outras produções do terror não é coincidência. O novo filme de Jane Schoenbrun é uma espécie de fábula "slasher", subgênero em que sangue espirra para todo o lado. Há uma mensagem sublime, porém, sobre como o cinema —e a cultura, no geral— castrou mulheres e pessoas queer por décadas com narrativas estereotipadas e padronizadas.

    Schoenbrun parece usar o conceito de Bataille para fantasiar sobre uma libertação queer, o gozo, a partir da deglutição desses traumas.

    Veja cenas do filme 'Acampamento Miasma'
    Veja cenas do filme 'Acampamento Miasma' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Somos todos sexualmente ferrados, porque os impulsos sexuais estão presentes desde o início [da vida]. E antes mesmo de aprendermos a falar, já somos moldados pelo mundo ao nosso redor, que é doente, misógino e repleto de uma violência que carregamos dentro de nós", disse Schoenbrun, na sala de um hotel no último Festival de Cannes .

    "Acampamento Miasma" foi coroado com a Palma Queer no evento, o mais importante do cinema, em maio. Gillian Anderson recebeu o troféu por Schoenbrun, e foi ovacionada no palco da festa LGBTQIA+ no calçadão da Riviera Francesa. A atriz, conhecida pelas séries "Arquivo X" e " Sex Education ", protagoniza o longa ao lado de Hannah Einbinder , estrela de " Hacks ".

    Na ficção, as duas vivem um romance intenso e brutal. Einbinder interpreta Chris, uma cineasta incumbida de fazer um novo capítulo para o terror "Acampamento Miasma", sucesso fictício dos anos 1980 espremido à exaustão em várias continuações.

    Personagens LGBTQIA+ invadem filmes e séries de gênero
    Personagens LGBTQIA+ invadem filmes e séries de gênero — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O enredo gira em torno do serial killer Pequena Morte e de uma mocinha bonita e indefesa, que fala pouco e é alvo constante de cantadas. A franquia, claro, envelheceu mal, e precisa ser renovada para os tempos modernos. Quando Chris vai visitar a locação onde "Acampamento Miasma", o filme dentro do filme, foi gravado, ela encontra Billie, atriz que encarnou a mocinha no passado. Excêntrica e sensual, ela mora num chalé isolado na montanha.

    Há um choque geracional conforme as duas se aproximam. Billie coleciona traumas por ter navegado pela indústria cinematográfica numa época cruel para as mulheres . Já Chris, apesar de viver em tempos mais acolhedores, tem um bloqueio criativo e sexual —ela não consegue gozar com outra pessoa.

    "Apesar das décadas que as separam, elas se encontram nessa experiência essencial em comum: são mulheres. Isso, por si só, pode criar um vínculo", diz Anderson, que dá vida a Billie. Enquanto as personagens se envolvem, porém, descobrem que Pequena Morte não vive apenas na ficção.

    Jane Schoenbrun, cineasta que dirige 'Acampamento Miasma', em Cannes - Valery Hache/AFP · Valery Hache/AFP
    Jane Schoenbrun, cineasta que dirige 'Acampamento Miasma', em Cannes - Valery Hache/AFP · Valery Hache/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Apesar das reflexões sobre gênero e o impacto da arte sobre diferentes gerações, "Acampamento Miasma" não se leva muito a sério. O elemento festivo é uma característica que Schoenbrun quis reproduzir dos slashers reais dos anos 1980, que assistia assiduamente enquanto crescia.

    Gostar de terror, porém, significa ver a violência contra mulheres ser saboreada em tela, ou pessoas trans serem vilões. A fórmula se repete em produções como " Psicose ", " O Silêncio dos Inocentes ", " Vestida para Matar " e "Acampamento Sinistro", nos quais os assassinos perturbados se vestem com roupas do gênero oposto.

    "Por crescer nos anos 1990, minha principal associação com a transgeneridade era algo como, ‘isso quer dizer que você é o tipo de cara que esconde o pênis entre as pernas e faz aquela dança bizarra’", lembra Schoenbrun, que se entendeu como uma pessoa transexual não binária aos 32 anos.

    Imagens da quinta temporada de Hacks
    Imagens da quinta temporada de Hacks — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por outro lado, ali estavam pessoas trans, na telona. "Os filmes slasher têm obsessão por gênero, e isso acontece porque eles se tornam uma espécie de lugar seguro para explorarmos tudo aquilo que não se encaixa na narrativa do século 20 de heteronormatividade, homem-mulher e sexo hétero."

    A seção de terror da videolocadora tinha algo de sexual, lembra Schoenbrun. "Você não deveria ir até lá, mas ia. Não deveria ver aquilo, mas via."

    Schoenbrun já usou o terror antes para falar sobre a transexualidade com " Eu Vi o Brilho da TV ", uma jóia para a crítica que recebeu até elogios de Martin Scorsese , tornando-se um hit cult. Desde então, sua figura é relacionada a uma criatividade audaciosa, considerada rara em uma Hollywood que se esforça para conter riscos .

    Duas mulheres vestidas com roupas vermelhas caminham lado a lado em um ambiente com árvores ao fundo. Molduras quadradas brancas sobrepostas criam efeito de profundidade ao redor delas.
    Duas mulheres vestidas com roupas vermelhas caminham lado a lado em um ambiente com árvores ao fundo. Molduras quadradas brancas sobrepostas criam efeito de profundidade ao redor delas. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Talvez por isso, "Acampamento Miasma" é recheado de provocações ácidas ao marasmo criativo da industria americana. "Esse foi meu segundo filme feito com dinheiro de homens brancos de Hollywood. E quase todo esse dinheiro é certamente sujo. E sei que é preciso lidar com essa equação entre arte e comércio", diz Schoenbrun. "Gosto de tentar fazer coisas que podem ampliar uma linguagem dentro de um sistema comercial que é hegemônico. É a única maneira de chegar às pessoas. E eles gostam de ser condenados", afirma, rindo.

    O tom subversivo do longa combina com Einbinder, que encarna a protagonista. Desde que venceu o Emmy por "Hacks", a atriz, judia e bissexual, se tornou uma voz pelos direitos de pessoas queer e contra o que chama de genocídio na Faixa de Gaza .

    "Há muita coisa no filme que aborda a forma como pessoas queer e trans existem na indústria", diz Einbinder. "Ser colocado em uma caixinha e tratado como alguém que está ali só para cumprir uma cota é algo que observo o tempo todo. É uma tentativa superficial de figuras influentes de encenar uma inclusão."

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    Apesar da rebeldia e do sangue, "Acampamento Miasma" tem uma atmosfera idílica em vários momentos, reforçada pelo romance entre Chris e Billie e pelos cenários pintados à mão. O bom presságio está relacionado ao momento em que o filme foi concebido —antes da reeleição de Donald Trump e quando Schoenbrun já estava há um tempo tomando hormônios.

    "O filme é sobre o processo estranho, belo e delicado de vivenciar pela primeira vez, já na casa dos 30 anos, aquilo que a maioria das pessoas vivência na adolescência: descobrir um corpo, uma sexualidade e uma identidade que parecem certas. E justamente porque você viveu muitos anos no extremo oposto, também se trata de desfazer muitos dos traumas", diz.

    Agora, os tempos são mais obscuros para pessoas LGBTQIA+ nos Estados Unidos. Mas, por isso mesmo, Schoenbrun não acha que lançar um filme queer alegre e sensual agora signifique nadar contra a corrente. Apesar de destruidor e sanguinário, Pequena Morte perde o posto de vilão, afinal, para a vergonha.

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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/acampamento-miasma-com-sexo-e-sangue-exorciza-a-vergonha-de-ser-lgbtqia.shtml.

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    Gillian Anderson e Hannah Einbinder em cartaz do filme 'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte' - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

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