Brasil

    A violência é o laço que une toda a América Latina nas obras de arte da feira Artbo

    Uma bandeira branca se destaca na parede como um raio de luz, mas quem chega perto vê bordada ali a palavra "violência". Outro quadro de tecido branco, um retalho de feltro delicadíssimo, também deixa ver, em contraste sutil, essa mesma palavra. São peças quase iguais, mas feitas por artistas em países e épocas distintas. O primeiro trabalho, mostrado pela galeria Rolf Art, de Buenos Aires , é da argentina Cristina Piffer. O segundo, na Carmen Araujo Arte, de Caracas , é do venezuelano Pedro Terán. Leia mais (09/28/2026 - 19h00)

    Folha de S.Paulo
    28 de setembro de 2026 às 22:00
    A violência é o laço que une toda a América Latina nas obras de arte da feira Artbo
    Obra 'Ella Parpadeó Dentro y Fuera de la Historia, de Cristina Piffer, exibida pela galeria Rolf Art, na feira Artbo, em Bogotá — Foto: Folha de S.Paulo

    Silas Martí é jornalista e crítico de arte. Editor de Ilustrada, foi correspondente em Nova York e escreve sobre arte, arquitetura e design

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Obra 'Ella Parpadeó Dentro y Fuera de la Historia', de Cristina Piffer, exibida pela galeria Rolf Art, na feira Artbo, em Bogotá - Divulgação · Divulgação
    Obra 'Ella Parpadeó Dentro y Fuera de la Historia', de Cristina Piffer, exibida pela galeria Rolf Art, na feira Artbo, em Bogotá - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma bandeira branca se destaca na parede como um raio de luz, mas quem chega perto vê bordada ali a palavra "violência". Outro quadro de tecido branco, um retalho de feltro delicadíssimo, também deixa ver, em contraste sutil, essa mesma palavra. São peças quase iguais, mas feitas por artistas em países e épocas distintas. O primeiro trabalho, mostrado pela galeria Rolf Art, de Buenos Aires , é da argentina Cristina Piffer. O segundo, na Carmen Araujo Arte, de Caracas , é do venezuelano Pedro Terán.

    Juntos na feira Artbo , recém-encerrada em Bogotá , eles reagem àquilo que atravessa todo o território da América Latina , a carnificina que enlaça os países da região marcada por ditaduras, terremotos políticos, guerras a facções criminosas, invasões imperialistas.

    O que é ruim de viver, dizem, é bom de contar. E os artistas conceituais em peso nesta edição do evento colombiano, uma espécie de encruzilhada do continente em versão butique espremida entre os gigantes México , ao norte, e Brasil, ao sul, destrincham essa dor comum em trabalhos de alta voltagem política.

    Veja obras desta edição da feira Artbo, em Bogotá
    Veja obras desta edição da feira Artbo, em Bogotá — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    De certa maneira, é uma seleção que vai na contramão da arte figurativa, muitas vezes só decorativa, que toma todos os espaços do circuito num momento em que colecionadores se voltam para o raso e o colorido avessos a obras mais complicadas em tempos de invasão americana na Venezuela , despropósitos de Javier Milei , na Argentina, e de um Brasil pegando fogo às vésperas de uma eleição que promete ser um massacre.

    Na Colômbia anfitriã, o presidente recém-eleito Abelardo de la Espriella vem suspendendo os diálogos previstos no histórico acordo de paz com líderes do tráfico num cenário de escalada da violência no país.

    MESMO QUE SEJA EU Nome em ascensão da arte conceitual colombiana, Ana María Montenegro Jaramillo dominou o espaço da galeria Visto Bueno (Plural), de Bogotá, com um neon em que diz que nada desaparece, como tende a ser em países fundados na violência colonial, depois fratricida e afins. Do outro lado da parede, estão suas declarações reconhecidas em cartório, nos principais tabeliães da capital de seu país, em que ela afirma, para todos os efeitos legais, que amanhã ela já não será mais a mesma pessoa que era no dia de hoje.

    'Chiquita', obra da série 'Año Cero', do artista François Bucher, da galeria Gris, de Bogotá, na feira Artbo - Divulgação · Divulgação
    'Chiquita', obra da série 'Año Cero', do artista François Bucher, da galeria Gris, de Bogotá, na feira Artbo - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    HORIZONTE VERMELHO Também na Carmen Araujo Arte, que enfrentou uma operação milagrosa para fazer uma feira no exterior em plena intervenção na Venezuela, o artista Camilo Barboza-Soto mostra o registro nada sutil de uma performance em que arrasta um crânio de gesso de um lado a outro da ponte Simón Bolívar , que liga o seu país ao território colombiano. Outro trabalho do artista se apropria de velhos cartões-postais de Havana em que o horizonte é coberto por uma grande tarja vermelha, o comunismo cubano enquanto sangue derramado e mais violência.

    YES, ELES TÊM BANANAS Num trabalho que lembra as célebres pinturas de bananas —verdes, maduras e podres— de Antonio Henrique Amaral , uma sátira à ditadura brasileira, o colombiano François Bucher mostra, na galeria Gris, de Bogotá, imagens de bananas Chiquita em que a fruta vai apodrecendo quadro a quadro.

    É uma alusão ao célebre massacre das bananeiras, quando há quase um século uma greve de trabalhadores da United Fruit Company no país foi esmagada por forças policiais, resultando em milhares de mortos. Esse episódio, ainda atual, inspirou passagens do clássico "Cem Anos de Solidão" , de Gabriel García Márquez .

    A bananas de Antonio Henrique Amaral
    A bananas de Antonio Henrique Amaral — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Veja fotos de Gabriel García Márquez
    Veja fotos de Gabriel García Márquez — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo
    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/plastico/2026/09/a-violencia-e-o-laco-que-une-toda-a-america-latina-nas-obras-de-arte-da-feira-artbo.shtml.

    Imagem 1
    1 / 7

    Obra 'Ella Parpadeó Dentro y Fuera de la Historia', de Cristina Piffer, exibida pela galeria Rolf Art, na feira Artbo, em Bogotá - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)