A violência contra a mulher também está nas urnas
No início de agosto, duas pessoas encontraram uma mala contendo o que pensaram ser o corpo mutilado de uma mulher em uma cidade ao sul de Sydney , na Austrália . No dia seguinte, a polícia divulgou que o corpo era, na verdade, uma boneca sexual com hematomas falsos . Segundo a reportagem do jornal The Guardian, publicada em 29 de agosto, não se sabe por que a boneca foi descartada. Teria sido apenas uma forma de se desfazer da boneca ou a encenação de um ato de violência contra uma mulher? O episódio, porém, levanta uma questão que vai além do destino da boneca. Leia mais (09/01/2026 - 17h00)

Doutora em economia e professora do PPGE/UFABC, atua como presidente da GeFam (Sociedade de Economia da Família e do Gênero)
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No início de agosto, duas pessoas encontraram uma mala contendo o que pensaram ser o corpo mutilado de uma mulher em uma cidade ao sul de Sydney , na Austrália . No dia seguinte, a polícia divulgou que o corpo era, na verdade, uma boneca sexual com hematomas falsos . Segundo a reportagem do jornal The Guardian, publicada em 29 de agosto, não se sabe por que a boneca foi descartada. Teria sido apenas uma forma de se desfazer da boneca ou a encenação de um ato de violência contra uma mulher? O episódio, porém, levanta uma questão que vai além do destino da boneca.
A reportagem encaminhada pela colega da Folha , Rosana Hermann, me ajudou a compor esta coluna. As bonecas podem ser uma representação simbólica da forma como uma parcela dos homens enxerga as mulheres: submissas e objetificadas. Uma das preocupações levantadas por pesquisadores é a possível relação entre como alguns homens tratam essas bonecas e suas atitudes em relação às mulheres. Assim, o caso da boneca mutilada remete a uma preocupação muito mais concreta: a violência contra as mulheres.
No Brasil, os casos de violência contra a mulher têm ganhado cada vez mais repercussão na mídia, tanto por sua frequência quanto pela violência exacerbada que caracteriza muitos deles. Há a sensação de que a sociedade está cada vez menos disposta a tolerar esse tipo de violência. A legislação tem evoluído nesse sentido, especialmente desde a criação da Lei Maria da Penha . Essa mudança também se reflete na política. Em resposta ao aumento da repercussão do tema, têm aumentado as propostas e as discussões sobre ele entre os candidatos à eleição.

Nos últimos anos, em períodos pré-eleitorais, afloram discussões e até mesmo rupturas decorrentes de pensamentos cada vez mais polarizados. A violência contra a mulher, porém, é um dos poucos temas que parecem gerar consenso entre a esquerda e a direita. Nesse contexto, os candidatos, tanto ao Governo de São Paulo quanto à Presidência da República, apresentam propostas para reduzir os casos de violência e de feminicídio . Entre elas estão a ampliação do número de delegacias da mulher e a extensão do horário de atendimento. Também aparecem a ampliação da rede de proteção às mulheres, o monitoramento eletrônico dos agressores, o confisco de seus bens e até o uso de drones . Nesse último caso, não ficou claro para mim como os drones seriam utilizados.
Apesar dos avanços na legislação e no debate político, proliferam nas redes sociais comunidades ligadas à chamada manosfera, que disseminam discursos misóginos e de objetificação das mulheres. O Congresso também discute medidas para enfrentar o problema, como o PL 896/2023 , que prevê punições por crimes praticados em razão de misoginia. Além disso, é importante que os candidatos discutam também medidas de prevenção, como ações educativas nas escolas sobre consentimento, misoginia e respeito, além da ampliação de programas de recuperação e reeducação para autores de violência doméstica .
A violência contra a mulher, em geral, não começa com agressões físicas. A objetificação das mulheres e como são representadas também fazem parte desse problema. O enfrentamento à violência contra a mulher deveria, portanto, apoiar-se em três pilares: prevenção, proteção da vítima e responsabilização dos autores da violência. Quando não é contida, a violência fere e mata mulheres.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lorena-hakak/2026/09/a-violencia-contra-a-mulher-tambem-esta-nas-urnas.shtml.

Boneca de aparência realista encontrada na Austrália é coberta por uma bolsa de plástico - Australian Broadcasting Corporation/via Reuters · Australian Broadcasting Corporation/via Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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