Brasil

    A ultradireita pôs a política exterior na urna

    Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro , no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa. Leia mais (08/26/2026 - 20h07)

    Folha de S.Paulo
    26 de agosto de 2026 às 23:07
    A ultradireita pôs a política exterior na urna
    Foto: Folha de S.Paulo

    Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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    Apoiador de Flávio Bolsonaro com bandeiras dos EUA e do Brasil no ato em Copacabana - Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters · Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters
    Apoiador de Flávio Bolsonaro com bandeiras dos EUA e do Brasil no ato em Copacabana - Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters · Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro , no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.

    Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.

    A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.

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    O que se viu até agora não tem paralelo na história recente das relações EUA-Brasil, baseadas no pragmatismo e na negociação das diferenças. Guarda semelhança com a atuação americana nas nossas eleições parlamentares de 1962, em plena Guerra Fria . Foi quando jorraram dólares para que organizações de direita financiassem candidatos ao Congresso.

    A interferência externa é uma possibilidade também considerada pela opinião pública —e a divide. Segundo pesquisa do Datafolha publicada no domingo (23), metade dos eleitores acredita que há chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa brasileira. E quase 1/5 (18%) não vê problema nisso.

    A aceitação da ingerência externa varia muito conforme a opção política do entrevistado. Entre os que dizem preferir o filho de Jair Bolsonaro , essa porcentagem é 3,5 vezes a dos tendentes a votar em Lula . Da mesma forma, a porcentagem de bolsonaristas declarados que não se incomodam com que outros países tentem influir no pleito é o triplo da dos petistas e pouco menos do que a dos declarados independentes.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por outro ângulo, os dados confirmam que a radicalização de posições, impulsionada pela ascensão da extrema direita, colocou a política internacional na agenda eleitoral.

    Até a segunda década deste século, questões de política externa não faziam parte do rol de temas que diferenciavam os candidatos majoritários e vertebravam a competição por votos. Foi o populismo de direita que as transformou em divisores de opinião e em indicadores de identidade política —mesmo quando não eram questões centrais na política exterior brasileira. Assim, o relacionamento com a Venezuela ou com Cuba ganhou, nas críticas aos governos petistas, dimensão —e espaço— que nunca teve na agenda do Itamaraty .

    A retórica perante os Estados Unidos variou conforme o ocupante da Casa Branca. Foi de alegre subserviência com Trump-1, desapareceu do discurso durante o governo Biden e agora volta a ocupar lugar central na agenda bolsonarista.

    Mais uma vez, não se trata de desenhar uma política bilateral que contemple o respeito e os ganhos mútuos. O que se busca, como sempre, é o interesse da família Bolsonaro acima de tudo e a qualquer preço.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2026/08/a-ultradireita-pos-a-politica-exterior-na-urna.shtml.

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    Apoiador de Flávio Bolsonaro com bandeiras dos EUA e do Brasil no ato em Copacabana - Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters · Pilar Olivares - 16.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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