Brasil

    A última eleição da Nova República

    O presidente Lula , seu vice, Geraldo Alckmin , e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República. Leia mais (09/30/2026 - 16h12)

    Folha de S.Paulo
    30 de setembro de 2026 às 19:12
    A última eleição da Nova República
    Foto: Folha de S.Paulo

    Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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    Constituição ganha a primeira tradução oficial em língua indígena
    Constituição ganha a primeira tradução oficial em língua indígena — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O presidente Lula , seu vice, Geraldo Alckmin , e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República.

    As direitas, em transição geracional, optaram por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim, produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.

    Abertas as urnas, o campo progressista terá de pensar na vida ­ literalmente. Instaladas no Palácio do Planalto ou amargando a oposição, as lideranças maiores da centro-esquerda, por imperativo da natureza, deverão passar o comando aos mais jovens.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A transição é desafiadora. Afinal, não se trata apenas de encontrar quem substitua um líder popular, cujo apelo eleitoral vai além do que sua legenda e seus aliados são capazes de mobilizar. Supõe, também, oferecer tradução renovada do compromisso com a equidade no acesso a recursos; com o bem-estar social; com a igualdade política; com as liberdades e direitos fundamentais que definem o progressismo democrático.

    A Carta de 1988 cristalizou uma versão daquele compromisso por meio de dois pactos implícitos. O primeiro em torno de um modelo de democracia liberal que limitou a concentração de poder no Executivo, fragmentou a representação política e fortaleceu as instituições de controle, especialmente o Judiciário. O segundo, já descrito pelo economista Samuel Pessôa , foi social. Implicou a garantia constitucional de um conjunto de direitos, materializados no SUS , no Fundef, no BPC (Benefício de Prestação Continuada), nas regras previdenciárias e na renda básica familiar, que a legislação ordinária traduziria no Bolsa Família .

    Os reiterados episódios de escarrapachada corrupção , do mensalão ao Banco Master ; a disputa entre Congresso e Executivo pelo controle da parte do Orçamento não comprometida com gastos obrigatórios; enfim o desmoronamento da autoridade moral do Supremo estão a pedir ao progressismo algo mais que realista acomodação à política como ela é.

    Por outro lado, o êxito dos programas que materializaram o "pacto social" da Constituição alimentou novas demandas e aspirações —por mais qualidade e eficiência dos serviços públicos— e está a requerer engenho para ajustá-las às inescapáveis limitações fiscais. Sem falar nas transformações no mercado de trabalho que esperam respostas diferentes das arroladas na vetusta CLT.

    Na verdade, a Nova República terminou em 2018, quando a extrema direita ascendeu na maré de descontentamento pelas promessas que a democracia não cumpriu e pelos soberbos erros do governo Rousseff . Os pactos que a viabilizaram já não são possíveis. Com as direitas nos braços de seus líderes mais fanáticos, o convívio civilizado e a esperança de um país decente dependerão, ao menos por ora, do "aggiornamento" da centro-esquerda.

    Fará diferença se ocorrer sob um governo seu ou na oposição ao obscurantismo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2026/09/a-ultima-eleicao-da-nova-republica.shtml.

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