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    A transição energética economicamente motivada

    Daniel Yergin, um dos mais respeitados especialistas em energia do mundo, costuma dizer que a transição energética global é um processo mais lento do que em geral percebido. Ele argumenta que na década de 1990, os hidrocarbonetos -petróleo, gás natural e carvão- respondiam por aproximadamente 85% da matriz de energia primária global. Depois de três décadas e de trilhões de dólares investidos em tecnologias limpas, essa participação recuou para a faixa dos 80%. Leia mais (08/18/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    18 de agosto de 2026 às 11:00
    A transição energética economicamente motivada
    Três homens com capacetes amarelos e roupas de proteção seguram um painel solar sobre um telhado em área urbana. Vegetação e construções aparecem ao fundo sob céu parcialmente nublado. — Foto: Folha de S.Paulo

    Engenheiro, foi professor da Coppe-UFRJ e dirigente de ANA, Aneel, Light, Enersul e Sabesp

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    Montagem de painéis solares nas Filipinas - Jam Sta Rosa/AFP · Jam Sta Rosa/AFP
    Montagem de painéis solares nas Filipinas - Jam Sta Rosa/AFP · Jam Sta Rosa/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Daniel Yergin, um dos mais respeitados especialistas em energia do mundo, costuma dizer que a transição energética global é um processo mais lento do que em geral percebido. Ele argumenta que na década de 1990, os hidrocarbonetos —petróleo, gás natural e carvão— respondiam por aproximadamente 85% da matriz de energia primária global. Depois de três décadas e de trilhões de dólares investidos em tecnologias limpas, essa participação recuou para a faixa dos 80%.

    Segundo Yergin, o avanço vigoroso das fontes renováveis tem servido fundamentalmente para absorver o crescimento vegetativo da demanda energética global, e não para substituir significativamente a infraestrutura fóssil preexistente. Diante do atual rearranjo geopolítico internacional, é possível prever alguma modificação dessa tendência?

    A consolidação de posturas nacionalistas e isolacionistas na esteira da política externa dos Estados Unidos, somada aos severos choques de oferta gerados pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, alterou as prioridades das grandes potências. A urgência climática, outrora protagonista na agenda de países desenvolvidos, passou a competir diretamente com a inflação interna e a segurança fiscal.

    Como resultado, observa-se uma nítida retração na disposição de governos, indústrias e consumidores de arcar com o chamado "green premium" —o custo adicional embutido em produtos e insumos de baixa pegada de carbono . Em tempos de incerteza econômica e pressões inflacionárias, o pragmatismo financeiro tem se sobreposto ao idealismo ambiental.

    Contudo, a mesma turbulência geopolítica que ameaça os consensos multilaterais atua como um acelerador tecnológico em outras frentes. A vulnerabilidade e a fragmentação das cadeias globais de suprimento forçaram os estados a buscarem maior autossuficiência. Coincidentemente, esse movimento ocorre em um momento de acentuada deflação nos custos de fabricação de painéis solares e baterias de armazenamento.

    Nesse novo desenho, a opção pela geração renovável e pela eletrificação acelerada deixou de ser uma escolha puramente climática para se transformar em uma estratégia de segurança nacional. Mitigar a dependência de combustíveis fósseis importados virou sinônimo de blindagem econômica. A China consolidou-se como o maior expoente dessa estratégia, liderando a eletrificação massiva de suas frotas de transporte de passageiros e de carga não apenas por metas de emissão, mas para reduzir sua exposição estratégica ao petróleo estrangeiro e dominar as cadeias de valor industriais do século 21.

    Paradoxalmente, o enfraquecimento do multilateralismo e a erosão dos laços tradicionais de cooperação internacional podem acabar reconduzindo a humanidade à rota de redução dos gases de efeito estufa. Não por um esforço altruísta ou de uma governança global coordenada, mas sim por puro interesse econômico.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jerson-kelman/2026/08/a-transicao-energetica-economicamente-motivada.shtml.

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    Montagem de painéis solares nas Filipinas - Jam Sta Rosa/AFP · Jam Sta Rosa/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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